S O AMOR LIBERTA

CLIA XAVIER DE CAMARGO

ESPRITO PAUL0 HERTZ


APRESENTAO

Diante dos inmeros casos que nos chegam com solicitaes de ajuda e que, em virtude disso, nos dispomos a acompanhar, auxiliando na medida do possvel, um imenso 
aprendizado se delineia. Passamos a observar todas as situaes com os olhos da misericrdia e da compaixo, do entendimento e da compreenso, diante dos erros gerados 
pelo mal, conseqncia da imperfeio humana. Tornamo-nos mais sensveis e tolerantes, por sabermos que todas as vivncias representam etapas teis e necessrias 
ao processo evolutivo. A cada novo acontecimento, o esprito se torna mais forte e amadurecido, adquire conscincia nova, analisa melhor os fatos, compreende que, 
 medida que erra, sofre o mesmo que fez o outro sofrer; em contrapartida, ganha em experincia, e, ao entender que o bem gera o bem, carreia para si mesmo bem-estar, 
harmonia e felicidade. Aprende que,  medida que exercita a compreenso, a tolerncia e a pacincia, perdoando as ofensas que lhe foram feitas, torna-se um ser melhor, 
mais livre e mais tranqilo. Por outro lado, ao reconhecer que errou, a conscincia o acusa e, conforme o grau de entendimento alcanado, se arrepende, desejando 
reparar o prejuzo causado a seu semelhante e, candidatando-se, assim,  mudana de atitudes, passa a trabalhar em benefcio do prximo, gerando o bem. Essa transformao 
produz tal sensao de bem-estar ntimo que o esprito sente-se repleto de contentamento e paz. Certamente, para que essas mudanas ocorram, faz-se necessrio o 
despertamento da conscincia, o que nem sempre se d naquela oportunidade, exigindo do faltoso ainda mais tempo de aprendizado. No entanto, ao perceber que os obstculos 
se dissolvem, que os problemas se resolvem, que as situaes se aclaram e os envolvidos caminham no rumo do entendimento e da concrdia, vencendo rancores, mgoas, 
ressentimentos e gerando clima de fraternidade entre si, quando no de amizade, experimentamos imensa satisfao de dever cumprido. Posso afirmar tal coisa, pois, 
durante a execuo deste trabalho, defrontei-me com uma situao de conflito que durante longo tempo gerara trauma em mim, levando-me  amargura e  revolta, por 
no conseguir perdoar. Quando a situao se apresentou, e fui obrigado a enfrentar o problema, sofri bastante. Diante, porm, do sofrimento daquele que considerava 
meu algoz, consegui v-lo como realmente era, algum ainda lutando com suas imperfeies. E como exigir de algum algo que ainda est alm de sua capacidade? E analisando 
com sinceridade e iseno de nimo, quem de ns no est lutando para vencer a si mesmo? Ao conseguir perdoar aquele que considerava meu desafeto, o benefcio maior 
foi meu, pois me libertei das amarras do passado e passei a v-lo como um irmo com dificuldades, sofredor e aflito. Tornamo-nos bons amigos e hoje trabalhamos juntos. 
Espero que as experincias aqui relatadas possam trazer para os leitores idntica compreenso e o mesmo crescimento que trouxe  nossa equipe. Agradeo a confiana 
que Jesus depositou em mim, concedendo-me a oportunidade de realizar este trabalho, que  fruto de servio em equipe, mas que coube a mim a responsabilidade de traduzi-lo 
em palavras, enviando-o em textos para conhecimento dos encarnados. Agradeo tambm aos nossos benfeitores que nos orientaram, e a todos os que colaboraram para 
que este livro viesse a lume. Esclareo, tambm, que os nomes foram modificados para evitar uma identificao, conforme manda a caridade crist, no obstante a concordncia 
dos envolvidos na divulgao das histrias. Quanto a mim, em virtude do entendimento que me felicitou o esprito em relao ao meu antigo confessor, e da melhor 
compreenso dos fatos, passei a repensar a primitiva idia de assinar este livro com meu verdadeiro nome para que meus genitores, ainda encarnados, pudessem inteirar-se 
do passado. No poderia mais fazer isso. Assim, escolhi um sobrenome fictcio, mantendo o anonimato, e o fao com a mais pura alegria. Que as bnos de Deus nos 
iluminem no roteiro, de modo a executarmos a mudana interior que ora nos esforamos para implantar, como conseqncia do aprendizado das inolvidveis lies evanglicas. 
Que Jesus nos envolva em paz e desejo de servir! 


CAPTULO 1 - O COROINHA

"As contrariedades da vida so de duas espcies, ou, pode-se dizer, de duas origens diferentes, as quais  muito importante distinguir: umas tm sua causa na vida 
presente, outras, no nesta vida." (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 4)

Nasci em uma famlia de tradio catlica apostlica romana; meus pais sempre foram bastante religiosos. Desde pequeno fui encaminhado  igreja e obrigado a participar 
de todas as atividades compatveis com minha faixa etria. Assim, quando chegou a poca de fazer a primeira comunho, minha me pegou-me pela mo e, cheia de orgulho, 
levou-me para a catequese. Gostava dos amigos, das meninas, e, para mim, aquela reunio - mais um divertimento do que outra coisa - dava a oportunidade de nos encontrarmos 
aps as aulas, o que era sempre gratificante. Todavia, as noes que nos eram passadas, apesar do meu pouco discernimento, pareciam-me falhas, sem contedo real. 
Meus pais, como afirmei, eram muito devotos e possuam livros que, a bem da verdade, no eram lidos, mas que serviam para dar-lhes status, como se a biblioteca lhes 
atestasse o grau de religiosidade. Quando o padre vinha nos visitar, e o fazia com freqncia, convidado para almoos e jantares, chs e festas de aniversrio, era 
com orgulho que meus pais exibiam as obras na estante de jacarand. Sempre curioso e gostando de ler, vez por outra pegava um desses livros e mergulhava na leitura. 
O que eu mais apreciava era uma obra que contava a histria de Jesus, suas curas, seus feitos. No entanto, nas aulas de catequese, tudo o que nos era passado referia-se 
 Igreja. Perguntas e respostas entediantes que ramos obrigados a decorar, e, o mais importante, jamais fazer questionamentos  catequista. Ela era uma senhora 
alta e magra, de cabelos grisalhos amarrados em coque na nuca; trazia consigo sempre um xale, ora usado nos ombros para se agasalhar, ora para cobrir a cabea ao 
entrar na igreja. quela poca,  preciso que se diga, mulher alguma entrava na igreja sem cobrir-se. Pois esta senhora e seu xale eram motivos de brincadeiras e 
chacotas entre ns, seus alunos, irreverentes e imaturos, que a imitvamos. Lembro-me com saudade daquela poca, das amizades puras, da alegria, da escola. Freqentava 
havia tanto tempo a igreja que me parecia no saber viver longe daqueles ambientes. Contando com o ardoroso entusiasmo de minha me, desejei ser coroinha. O padre 
incentivou-me, e era uma honra apresentar-me na missa, todo paramentado, diante da igreja lotada de fiis. Era a glria! Meus pais acompanhavam-me os movimentos 
cheios de orgulho, completamente esquecidos do padre, que oficiava a missa, do sermo (tenho certeza de que eles no saberiam dizer o tema) e do real sentido da 
liturgia. Ainda hoje tenho na lembrana o odor caracterstico da sacristia, misto de poeira, mofo, naftalina e cera; cheiro de coisas velhas, antigas, guardadas 
h longo tempo. Quando volto ao passado, lembro-me da luz difusa, das sombras existentes que me pareciam to ameaadoras e que nos levavam a falar baixo, como se 
a voz alta fosse uma profanao daquele ambiente que eu julgava sagrado.  A cena que se repete em minha tela mental, porm, e que me emociona at hoje,  uma que 
ocorria quando eu estava perto do altar. A imagem central da igreja, em posio de relevo, colocada atrs e acima do altar, era uma belssima escultura de madeira, 
em tamanho natural, obra de um artista da prpria cidade. Com rara sensibilidade, esculpira Jesus na cruz, mostrando tal sofrimento em seu divino rosto, nos cambiantes 
de sombra e luz, que a imagem parecia ter vida! Das feridas abertas pelos cravos nas mos e nos ps, o sangue parecia gotejar, vivo, pulsante. Pois bem. Durante 
certo momento do dia, l pelas quatro horas da tarde, dependendo da poca do ano, uma rstia de luz se escoava pelos vitrais e incidia exatamente sobre a imagem 
do Cristo crucificado, no altar-mor. E eu gostava de apreciar esse momento mgico e cheio de encanto, mas fugaz, porque logo o sol mudava de posio e a magia era 
rompida. Gostava de ver os infinitos gros de poeira existentes no ar e que viajavam nessa rstia de luz,  semelhana de mundos que rodopiassem pelo cu; tinham 
cores diferentes e pareciam ter vida prpria. Nessas ocasies, eu conversava com Jesus, falava-lhe das minhas dificuldades, dos meus problemas, das travessuras e 
at das coisas de que me sentia culpado e no tinha coragem de contar a ningum, nem ao meu confessor. E, na verdade, fui um menino muito travesso. Certa ocasio 
aconteceu um fato que marcou o incio do meu desligamento da igreja. Estava com dois amigos na sala da catequese. Por qualquer razo, a professora no compareceu 
aquele dia, e, na falta de atividades, resolvemos fazer uma brincadeira: testar se realmente a hstia se transformava no corpo de Cristo, como o padre afirmava. 
Aproveitamos que o proco tinha sado em visita a duas beatas enfermas e roubamos um punhado de hstias, que, a tremer de medo, fomos comer debaixo de uma mesa, 
cuja ampla toalha branca bordada nos esconderia de eventuais olhares indiscretos, se algum aparecesse repentinamente. Naquela hora, comeou a ruir minha crena 
nos dogmas da Igreja, em especial, a eucaristia, cuja legitimidade pnhamos em dvida, listvamos realmente apavorados. Arrependidos j da brincadeira que os custaria 
caro se algum descobrisse. Cada um de ns mastigou uma hstia trocando olhares cmplices e assustados, esperando pelo pior. Porm, nada aconteceu conosco, e os 
castigos horrveis com que o padre nos ameaava se comssemos o "corpo de Cristo" no se verificaram. Ento, pela lgica, chegamos  concluso de que o sacerdote 
estava mentindo, ou realmente acreditava nas coisas que nos ensinava, caso em que estaria se iludindo. Esse fato foi apenas o comeo. Continuei com minhas atividades 
na parquia, embora sem tanto entusiasmo, at porque minha me no entenderia nem aceitaria se eu quisesse deix-las. O ambiente, porm, comeou a ficar muito ruim; 
eu no tinha mais o mesmo empenho de antes, e o padre tambm se tornara diferente. Ou talvez, na minha boa f, nunca tivesse notado suas atitudes estranhas. Um dia, 
em que eu estava sozinho colocando as vestes para a missa da manha de domingo, vi que ele se aproximara de mim. Achegou-se com naturalidade e afagou-me os cabelos 
e o pescoo. Ele j tinha feito isso outras vezes, mas nesse dia pareceu-me diferente, com outra inteno. Fiquei tenso. Como estava na hora da atividade litrgica, 
caminhei apressado para o altar. Depois da missa, meus pais se aproximaram e ficaram conversando com o padre, que me pareceu ter voltado ao normal, mostrando-se 
digno, alegre e bem-humorado como sempre. Alguns dias depois, no entanto, tudo mudou. Eu tinha ido  igreja buscar um livro da escola que esquecera por ocasio da 
aula de catequese. J nem me lembrava mais do acontecido no domingo de manh. Estava s, pegando o livro que deixara sobre um mvel, quando o padre chegou. Brincou 
comigo e me convidou para ir  sua casa, onde tinha um bolo de chocolate  minha espera; sabia que eu apreciava muito. Aceitei sem reservas uma vez que este era 
um procedimento normal. Chegando l, porm, ele fechou a porta  chave e depois me chamou para junto dele, alegando que precisvamos conversar. Queria mostrar-me 
um novo livro que recebera pelo correio. Quando me sentei no sof, ele me agarrou e, respirao opressa, fungando, comeou a acariciar meu corpo. O padre era um 
homem de seus quarenta e cinco anos, grande, robusto, e tinha muita fora. Eu, ao contrrio, era um menino pequeno, franzino, e, naquele momento, muito assustado. 
No consegui me soltar dos seus braos possantes. Murmurava palavras indecentes ao meu ouvido enquanto me tocava todo o corpo. Apesar dos meus gritos, dos meus rogos 
e das minhas lgrimas, ele no me soltou. O desespero, a humilhao, a dor que senti ento, s quem passou por esse tipo de violncia pode compreender. Depois desse 
dia, recusei-me terminantemente a voltar  igreja. No podia dizer a verdade a meus pais. Tinha vergonha e asco, por eles e por mim. Ento, inventava desculpas e 
mais desculpas: que estava doente, tinha trabalhos da escola para fazer, tinha jogo de futebol marcado, e outras mais. Com o passar dos dias, fui-me acalmando. Meus 
pais entenderam que, agora com mais idade, eu tinha outras atividades que no poderia relegar a segundo plano, se quisesse realmente ir para a universidade algum 
dia. Acabaram por esquecer o assunto, embora contra a vontade, sempre procurando justificar meu comportamento perante o proco. Esse fato deixou marcas profundas 
no resto da minha curta existncia. Nunca ningum desconfiou da verdade, e hoje confesso que, se tivesse sido mais corajoso, teria denunciado o padre. Vim a saber, 
muitos anos depois, que ele tambm abusara sexualmente de outras crianas, as quais, como eu, esconderam o fato sem coragem de contar a algum. Por um tempo, o remorso 
me consumiu, pois tivera,  poca, a oportunidade de salvar esses meninos. No entanto, eu era apenas uma criana assustada, insegura e envergonhada. Se tivesse contado 
a verdade a meus pais, certamente eles no me teriam dado crdito, visto que jamais se tinha ouvido qualquer referncia menos digna a respeito da conduta desse sacerdote. 
Ao contrrio, ele era sempre elogiado, tanto  que gozava da absoluta confiana de todos os pais da comunidade, que lhe entregavam os filhos com tranqilidade, acreditando 
estarem em boas mos. Talvez vocs possam pensar que esse relato agora, tanto tempo depois, ir expor minha famlia sem necessidade e causar-lhe maior sofrimento. 
Posso assegurar-lhes que meus pais dificilmente iro ler estas linhas, uma vez que continuam sendo catlicos fervorosos e tradicionais. Jamais se aproximariam de 
um livro esprita, que tm at medo de tocar, julgando-o obra do demnio. E se porventura vierem a folhear estas pginas, tomaro conhecimento de fatos que ocorreram 
h dezenas de anos e que, na verdade, ignoravam. Se tivessem sido informados, com certeza teriam compreendido melhor minhas atitudes naquela poca, minhas reaes, 
meu estado emocional e at meus desequilbrios graves, o que os levou a procurar um psiclogo para me ajudar. E entenderiam tambm por que me mantive calado e me 
neguei a dar qualquer tipo de informao. Nem mesmo diante do profissional contei a verdade, conservando o sigilo que, se rompido conforme eu acreditava, respingaria 
lama em mim e me teria desacreditado perante todos. Na minha inocncia, de alguma forma julgava-me culpado, uma vez que aquele padre tinha reputao inatacvel, 
e todos acreditariam nele, e no em mim. S mais tarde vim a saber que o que sofri foi uma violncia inominvel. Exatamente por isso  que tive vontade, num primeiro 
momento, de revelar o meu verdadeiro nome, para que meus pais se inteirassem daquilo que de fato aconteceu e passassem, principalmente, a acreditar que seu filho 
est vivo e muito vivo, numa outra realidade - o que julgo bem mais importante. Essa revelao, no entanto, no  ainda oportuna. Minha esperana  de que meus pais 
venham a crer na imortalidade da alma - no da forma que aprenderam (a alma tem um destino certo e inexorvel), mas do modo mais racional (ela  o princpio inteligente 
criado para a perfeio) - e na comunicabilidade existente entre os dois mundos, o que nos permite manter um contato maior e nos d a esperana de estarmos reunidos 
um dia. Visito regularmente o lar terreno, porm meus entes queridos mantm uma postura to rgida e negativa em relao  espiritualidade que no consigo aproximar-me 
e conversar com eles. Certa ocasio, num momento em que julguei ter criado um clima mais propcio a um intercmbio, cheguei perto de meu pai, e ele sentiu minha 
presena. 
Imediatamente, aterrorizado, levou a mo ao crucifixo que trazia pendurado ao pescoo e falou em voz alta:
- Arreda-te de mim, satans!
Desnecessrio dizer que no tentei outras aproximaes. E espero que o tempo siga seu curso e possa modificar o entendimento deles. Sabemos que tudo se transforma, 
tudo evolui, e meus pais no constituem uma exceo  regra. Em minha existncia terrena passada, cheguei  fase adulta. Era um rapaz bem apessoado, de estatura 
alta, de pele clara e cabelos escuros, que as garotas achavam bonito. Dediquei-me aos estudos, com nfase para outros idiomas. Fui muito popular, especialmente entre 
as mulheres; tive muitos relacionamentos, vrias namoradas, porm nunca deixei de sofrer o trauma causado por aquela violncia da infncia. Agora tudo isso pertence 
ao passado. Retornei mais cedo para a verdadeira vida, por imprudncia na conduo de uma moto, cujo acidente, felizmente para mim, s fez uma vtima: eu. Ajudado 
pelos amigos e benfeitores da espiritualidade, recuperei-me mental e emocionalmente. Hoje tenho uma viso mais clara do problema e no acuso ningum. Ao contrrio, 
sinto compaixo por todos os que erram. 


CAPTULO 2 - DIMENSO DO PROBLEMA

"O dever ntimo do homem  governado pelo seu livre-arbtrio, este aguilho da conscincia, guardio da integridade interior, o adverte e o sustenta; mas permanece, 
muitas vezes, impotente perante os enganos da paixo. O dever do corao, fielmente observado, eleva o homem, mas, como este dever pode ser determinado? Onde ele 
comea? Onde termina? O dever comea precisamente no ponto onde ameaais a felicidade ou a tranqilidade de vosso prximo, e termina no limite em que no desejareis 
v-lo transposto em relao a vs mesmos." (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 17, ITEM 7)

Fatos como esse que narrei acontecem com freqncia na sociedade terrena. Todavia, como a luz - que vara as trevas mais espessas levando a claridade a todos os lugares, 
mesmo aos mais recnditos -, a verdade acaba sempre surgindo para dar a devida dimenso da realidade. Felizmente, agora, relatos emergem de todos os lados abordando 
o assunto, sendo de extrema importncia que isso ocorra. A Igreja Romana, na atualidade, passa por inmeras provaes, amargas e difceis de digerir. Os meios de 
comunicao em todo o mundo tm divulgado sucessivos escndalos envolvendo padres pedfilos e crianas desprotegidas. Diante da avalanche de novos casos, no h 
mais como ocultar essas mazelas. Por longo tempo, a Igreja fez vista grossa para os escndalos que ocorriam em seu seio, dentro de parquias, de seminrios e conventos. 
Conhecia o problema, porm evitava falar no assunto. Mais do que isso: escondia a verdade, mantendo a impunidade dos seus sacerdotes, no raro  custa de grandes 
somas com que comprava o silncio das vtimas inocentes. Talvez muitos estranhem a colocao neste livro de fatos de tal natureza. Contudo, julgo necessrio que 
assim seja. Basta de enfiarmos a cabea num buraco, como o avestruz tentando se esconder, achando que estamos protegidos. A verdade cedo ou tarde aparece. Por muito 
tempo, a Igreja se recusou a falar no assunto, mantendo sigilo sobre os atos hediondos que aconteciam sob suas asas e gerados pela tolerncia que sempre demonstrou 
no correr dos sculos para com aqueles que os praticavam, o que a tornou conivente com tais delitos.  a prpria instituio multissecular que est em jogo e que 
precisa discutir suas regras em face dos resultados negativos que vem colhendo, conseqncia da fragilidade de seus postulados. E no se pense em culpar apenas os 
sacerdotes por esses crimes e violncias que ocorrem  sombra das sacristias e sob a vista das imagens sacras. 
No, certamente. Eles tambm so vtimas da instituio. So vtimas e algozes. Na verdade, toda uma srie de fatores entra na composio da ocorrncia desses abusos. 
Para que eu visualizasse a verdadeira dimenso do problema, foram necessrias dcadas. Eu no conseguia perdoar a violncia que fora cometida contra mim; fiquei 
traumatizado. E esse choque me abalou profundamente, desencadeando perturbaes emocionais e orgnicas durante a existncia. Na espiritualidade, felizmente, recebi 
amparo e orientao de muitos instrutores. Alm disso, freqentei inmeros cursos, o que me permitiu conhecer as verdades eternas, que se desvendavam diante de meus 
olhos e me foram de capital importncia. Esses ensinamentos j faziam parte da cultura de civilizaes mais antigas da Terra, mas somente foram estudados e analisados 
em profundidade com o advento da Doutrina Esprita, pelo trabalho notvel de Allan Kardec, que codificou as orientaes dos espritos. E, sem dvida, o estudo metdico 
do Evangelho de Jesus, que nos faz ver o semelhante como um irmo necessitado de entendimento e ajuda. Freqentei o Centro de Estudos da Individualidade, onde participei 
de reunies evanglico-doutrinrias, em que eram analisados temas de contedo moral. Elas funcionavam como uma terapia em grupo, pois percebamos nossas falhas morais 
em sesses de auto-analise e aprendamos com a troca de experincias de cada participante, conforme j relatou o Csar Augusto Melero. Hoje acredito poder dizer 
que no mais guardo mgoas pelo que me fizeram, pelo menos conscientemente. Compreendo que ns, espritos, no somos diferentes uns dos outros, criados por Deus 
da mesma maneira e sujeitos a erros e acertos. Que, ao longo do tempo, podemos ter cometido faltas muito mais graves do que aquelas de que acusamos nosso irmo. 
Desse modo, com a viso ampliada e clarificada pelo Evangelho do Cristo, esforcei-me por ver naquele sacerdote algum necessitado de compreenso e ajuda. Movido 
de compaixo pelas suas fraquezas, dispus-me a ampar-lo. Ainda no me deparei com ele do lado de c da vida, mas sei que precisarei faz-lo, e os amigos espirituais 
encontraro uma ocasio adequada. Tenho notcias de que ele, desencarnado, sofre e expurga seus erros em regio sombria do umbral, sem condies ainda de receber 
socorro. O conhecimento da Doutrina Esprita nos leva a refletir sobre o tema de forma bem mais profunda. No ignoramos que todos somos espritos criados para a 
perfeio, ora estagiando em nveis diferentes de evoluo. Que, atravs do tempo, progredimos sempre, adquirindo conhecimentos e valores morais que nos tornaro 
um ser melhor no futuro. No ignoramos que, ao renascer, fomos beneficiados pelo esquecimento do passado, trazendo conosco as conquistas e os fracassos, as tendncias 
instintivas e a voz da conscincia que nos alerta diante de possveis erros. Que, com o livre-arbtrio, conquista que nos permite o direito de escolha, podemos decidir 
como agir, mas ficaremos condicionados s conseqncias que gerarmos com nosso comportamento, em observncia  Lei de Causa e Efeito que vigora na obra da criao. 
Assim, trazemos como bagagem o nosso acervo individual: tudo de bom e de ruim que j realizamos, e que permanece arquivado em camadas profundas da memria integral. 
Dessa forma, os encarnados devem entender que, quando os pais recebem uma criana no lar, no sabem quem  esse esprito, onde e por que fracassou, quais suas potencialidades 
e imperfeies. Ao esprito  concedido um novo corpo, pequeno e indefeso, que representa sua possibilidade de construir uma nova vida, progredir e realizar o melhor. 
Esse esprito, porm, no  um beb, como geralmente se pensa. Apenas o  o corpo material, dependente e frgil, e Deus assim o permite para que ele possa despertar 
o amor no corao das pessoas, em virtude dos cuidados e da proteo de que necessita para o seu desenvolvimento. Na realidade, ali est um esprito antigo, que 
j teve uma infinidade de existncias e que volta  carne trazendo seus vcios e defeitos, virtudes, inclinaes, valores tico-morais conquistados. O sexo, criado 
por Deus para servir  reproduo,  lei natural e fundamento da vida, atendendo ao impositivo da evoluo dos seres, das raas, da prpria humanidade, sendo imprescindvel 
ao progresso dos espritos. 
Atravs do tempo, o ser imortal tem desenvolvido qualidades de masculinidade ou feminilidade, de acordo com as caractersticas mais acentuadamente ativas ou passivas 
que conserve. Desse modo, todos os espritos podero encarnar na condio de homem ou de mulher. Condenvel, portanto, no  o sexo, mas o abuso, o excesso e o aviltamento 
das energias sexuais pelas criaturas. Numa nova existncia, acredita-se que o sexo s ir despertar na fase da puberdade. Todavia, o esprito renasce com todas as 
condies para que os impulsos sexuais se manifestem mais tarde, jamais perdendo a sexualidade mesmo em criana; que, na puberdade, ir apenas acentuar-se uma tendncia 
que j existe no esprito, em decorrncia dos hormnios que so liberados, quando o corpo fsico se desenvolve e se prepara para a vida adulta e para exercer funes 
fundamentais com vistas  conservao e perpetuao da espcie. Ento, o esprito no est iniciando sua vida sexual; est retomando a sexualidade que trouxe de 
outras experincias. Dessa forma, deve-se ter o maior cuidado com a educao da criana, com a orientao que os pais passam a ela, especialmente as de carter tico-moral-religios
o, que lhe iro servir de balizas no futuro, direcionando seu comportamento. A fase infantil  a oportunidade dos pais de transmitirem bons conceitos para seus filhos, 
e  imprescindvel que assim o faam enquanto h tempo, porque, depois de crescidos, ser mais difcil, no impossvel, uma vez que o esprito aprende sempre, mas 
os obstculos sero muito maiores, visto que o esprito ter retomado sua verdadeira identidade. Enfocando o assunto, necessrio entendermos que a homossexualidade, 
hoje tambm conhecida por transexualidade, representa a tendncia da criatura para a comunho afetiva com outra criatura do mesmo sexo. A psicologia, em bases materialistas, 
no encontra explicao fundamental para tais ocorrncias, que so absolutamente compreensveis sob a tica da reencarnao.  necessrio esclarecer tambm que homossexualidade 
e homossexualismo so diferentes. O indivduo pode ter tendncias homossexuais, isto , ter afinidade e/ou atrao por pessoas do mesmo sexo, e no ser homossexual. 
Em outras palavras, no se d  prtica do homossexualismo, o que equivale a no ter comportamento homossexual. Nesses casos no inclumos aqueles espritos que, 
em virtude da necessidade de realizar uma misso em rea especfica, por ocasio do planejamento reencarnatrio, pedem para voltar  carne com caracteres sexuais 
diferentes dos da encarnao anterior, renunciando aos mais belos e ntimos sentimentos. Trata-se de Espritos com elevao moral e espiritual, o que lhes garante 
a disciplina das emoes e a responsabilidade no exerccio das tarefas que escolheram executar a benefcio da humanidade. Para isso, procuram se prevenir contra 
situaes que poderiam facilitar-lhes condutas inadequadas e colocar em risco o objetivo reencarnatrio. Imprescindvel estabelecermos essas diferenas tendo em 
vista as vivncias anteriores do ser espiritual. A Doutrina Esprita nos alerta para a nossa realidade como espritos, afirmando que fomos criados simples e ignorantes, 
mas com infinitas possibilidades de evoluo, objetivo esse que alcanaremos mediante nosso prprio esforo e vontade perseverante; que a sede real do sexo se encontra 
radicada na estrutura complexa do ser espiritual, e no no veculo fsico que lhe serve  manifestao. Assim, o esprito no tem sexo da forma como se entende na 
Terra e considerando-se as caractersticas sexuais apenas pelos rgos gensicos - uma vez que Deus no criou esprito-homem e esprito-mulher, mas apenas espritos; 
que, dessa forma, os sexos s existem no organismo, sendo necessrios  reproduo dos seres materiais; todavia, os espritos no se reproduzem uns pelos outros, 
razo por que o sexo  intil no mundo espiritual; que no sabemos quais as tendncias sexuais do esprito reencarnante, uma vez que as desenvolvem atravs do tempo, 
em virtude da constncia em reencarnaes neste ou naquele sexo, inclinaes e afinidades essas que so predominantemente masculinas ou femininas, conforme as caractersticas 
mais acentuadamente ativas ou passivas que conservem. Existem espritos que se sentem melhor renascendo como mulheres, outros como homens. 
Salvo em casos de inverso sexual gerada por disfunes orgnicas, quando o esprito reencarna para sofrer determinadas limitaes, o que vai prevalecer em matria 
de sexo sero suas tendncias ntimas j desenvolvidas; que, em razo dessas vivncias mais num determinado sexo, ao precisar mudar de polaridade sexual, encontre 
dificuldades para exteriorizar suas tendncias. No raro, isso ocorre tanto no sexo masculino quanto no feminino, como conseqncia de abusos perpetrados contra 
o sexo oposto, quando tem necessidade o esprito de renascer com inverso sexual, o que se constitui numa grande expiao, servindo-lhe tambm de prova. Por conta 
disso, o ser espiritual passando da experincia masculina para a feminina ou vice-versa, ao envergar o veculo corpreo, inevitavelmente ir demonstrar as caractersticas 
de masculinidade em que ter transitado durante vrios sculos, apesar do corpo feminino que enverga no momento, o mesmo ocorrendo com o esprito feminino que passe 
a ocupar um corpo masculino. Esses casos de anomalias so claramente percebidos em mulheres que carregam um corpo msculo e agem como homens, e homens que possuem 
uma estrutura fsica mais delicada, com traos claramente feminis, o que lhes demonstra as inclinaes, independente de manterem ou no relaes sexuais. Muitas 
vezes pode ocorrer de no existir inverso sexual, mas comportamento que redunda da influncia do meio ou depois de experincias homossexuais em que a pessoa pode 
ficar condicionada quele tipo de conduta. Desse modo, pode iniciar-se um problema quando se colocam meninos de vrias faixas etrias, com amadurecimento orgnico 
e psquico diferenciado, em colgios internos e seminrios para conviverem sob o mesmo teto. No raro os maiores, com a libido exacerbada pelo incio da fase de 
puberdade, quando modificaes psicofsicas comeam a ocorrer, os abusos vo acontecendo, geralmente contra os menores e mais fracos, sem o conhecimento das autoridades 
responsveis pela instituio e dos vigilantes, que ignoram o que se passa na calada da noite. Prossegue o problema quando o rapaz  levado a ordenar-se ainda muito 
jovem e sem conscincia do que realmente deseja, visto que por muitos anos foi mantido entre quatro paredes sem participar da sociedade, o que limita sua capacidade 
de anlise e deciso. A obrigatoriedade do celibato para os sacerdotes  uma regra injusta, artificial e que tem causado imensos males aos padres e s comunidades 
em que vivem. O mesmo acontece com as freiras, que sofrem iguais restries. Certamente importante considerar aqui a responsabilidade das pessoas que chegam a praticar 
tais abusos, sem dvida por inferioridade do esprito. Os que se permitem tais condutas demonstram que so criaturas com dificuldades na rea sexual e que renasceram 
para tentar corrigir esse desajuste. No raro, porm, influenciados pelo meio, podem voltar a errar. Provavelmente trata-se de uma expiao, que poder at servir-lhes 
de prova, e tanto maior a dificuldade que encontre, maior mrito ter aquele que conseguir vencer suas tendncias negativas. E no estamos nos referindo aqui apenas 
s pessoas de comportamento homossexual, e sim do heterossexual, cuja prtica de atos pedfilos e homossexuais fica facilitada pelo meio e pelas condies que a 
Igreja estabelece. Entregar os filhos a Deus...! No deveria ser outro o motivo que levava famlias a encaminharem seus jovens para os seminrios, desejando v-los 
seguindo a carreira religiosa. Antigamente, duas situaes bsicas se apresentavam ao rapaz: ou servia  Igreja, ou ao Exrcito. Hoje isso j no ocorre. Grande 
parte dos jovens que opta pelo seminrio, porm, o faz por apresentar propenso para os estudos e no ter recursos, utilizando-se das excelentes condies que a 
Igreja oferece para poder estudar. Uma pequena parcela deles tem real vocao para o sacerdcio, objetiva servir a Deus na pessoa do prximo e sonha orientar e consolar 
o rebanho que lhe for destinado. So religiosos que, no importa a tentao, se mantero firmes em seus propsitos, no se deixando levar por tendncias negativas, 
portando-se sempre como dignos representantes do clero. E no pensem que esses problemas ocorram somente com indivduos do sexo masculino. Muitas moas tambm, por 
vontade prpria ou no, acabam internadas em colgios ou conventos. 
Para elas, antigamente, a situao era ainda pior, no lhes restando seno a submisso: sem direitos, sem poder estudar ou decidir sobre a prpria vida, livravam-se 
da autoridade dos pais passando para a do marido, pelo casamento, ou eram encaminhadas aos conventos para servir a Deus. A realidade  que os abusos so igualmente 
praticados em todos os lugares, tanto nos redutos masculinos quanto nos femininos, j que o ser humano  o mesmo onde quer que esteja e carregar sempre suas tendncias 
e dificuldades. A convivncia em claustro tem gerado forte tendncia para o homossexualismo, problema que a Igreja evita olhar de frente com medo de encar-lo. Atualmente 
o Vaticano vem sofrendo campanha cerrada contra padres pedfilos, e a imprensa de todo o mundo faz denncias nesse sentido, revelando casos e apontando culpados 
pelo abuso perpetrado contra crianas. E a sociedade, horrorizada, se movimenta e exige uma postura firme das autoridades para reprimir e evitar esse tipo de crime. 
Tambm os pais deveriam ter mais cuidado com seus filhos, no confiando cegamente nos indivduos que trabalham com crianas e cuidam delas, especialmente aqueles 
a quem est afeta a educao religiosa. Muito j se falou sobre os problemas gerados pela imposio do celibato religioso. Quantos males causou  sociedade e s 
pessoas a obrigatoriedade da confisso?  possvel imaginar a extenso dos danos quando se colocam padres carentes e atormentados por secretos desejos diante de 
mulheres jovens, bonitas e igualmente carentes, com problemas conjugais e emocionais, obrigadas a relatarem seus dramas em mincias, criando vnculos afetivos e 
propiciando atrao sexual? Quantos lares foram desfeitos, famlias destroadas, separaes conjugais ocorreram atravs do tempo por relacionamentos esprios nascidos 
no confessionrio? Quantos abortos cometidos, na impossibilidade de se tornar pblica uma relao? Quantas crianas cresceram  sombra das sacristias, ao lado de 
pais- sacerdotes, sem conhecerem sua verdadeira filiao? Dentre as pginas mais tristes e escabrosas da Histria, est este captulo da Igreja, com os problemas 
gerados pelo celibato sacerdotal e os crimes cometidos dentro de conventos e seminrios para esconder relacionamentos entre padres e freiras, e entre padres e paroquianas. 
No nos cabe aqui o levantamento desses dados, que j foram divulgados  saciedade por quantos se interessaram em estudar o assunto. Todos esses abusos s tero 
fim quando a Igreja modificar suas leis, tornando-as mais humanas e mais justas, e quando resolver enfrentar os problemas com transparncia e lisura, deixando de 
acobertar erros e crimes hediondos para manter as aparncias. Sobretudo, tais violncias desaparecero quando o homem ascender-se moralmente, transformando-se  
luz do Evangelho redentor, e vivenciar o mandamento cristo de fazer ao prximo o que gostaria que os outros lhe fizessem. Quando, direcionado pelo amor, o ser humano 
passar a viver fraternalmente com todos os seus irmos. A luz da Doutrina Esprita, que se alteia como libertadora de conscincias, compreende-se perfeitamente que 
as opes em matria de sexo so da responsabilidade do esprito e diz respeito s suas escolhas afetivas, tendo como parmetro o livre-arbtrio que deve ser respeitado. 
Tratando de assunto to polmico na atualidade, no nos cabe aqui emitir julgamentos quanto s escolhas de ningum em relao a comportamentos sexuais, sabendo que 
cada um estagiar em nveis de entendimento e amadurecimento que j conseguiu alcanar no seu trajeto para a perfeio. Hoje, facilitado pelo fenmeno da globalizao, 
temos acompanhado a saga de milhes de pessoas em experincias desse gnero e que merecem ateno e respeito, considerao e ajuda, em igualdade de condies com 
a grande maioria de criaturas da sociedade terrena que  constituda de heterossexuais, que nem por isso esto livres de problemas e dificuldades. Com o tempo, a 
sociedade terrena entender que os conceitos de normalidade e de anormalidade carecem de substncia, olhando-se apenas do ponto de vista da estrutura fsica, quando 
o que realmente importa  a dignidade humana que se alteia por meio do comportamento tico a favor do bem de toda a comunidade, e se degrada diante do mal que espalha, 
prejudicando a si prprio e a todos com quem convive.


CAPTULO 3 - SEMENTES DE ERLAN

"Bem-aventurados os que choram, pois que sero consolados." JESUS (MATEUS, 4: 5) 

A exortao de Jesus para que nos amemos uns aos outros  divino convite ao entendimento e  paz. Quando o ser humano consegue pensar nas outras pessoas e no apenas 
em si mesmo, deixando de lado o egosmo, denota expressivo progresso, uma vez que o amor  sentimento que brota e lentamente se desenvolve no ntimo da criatura 
aps longo trajeto ascensional. No raro, vemos exemplos de dedicao, renncia e altrusmo em pessoas nas quais nunca suporamos tal atitude. Contudo, do-nos exemplos 
de rara beleza e de uma grandeza tocante. Certa ocasio, era virtude de apelos provindos de uma colnia espiritual localizada no continente europeu, a qual pedia 
a colaborao de outras cidades espirituais na forma de envio de pessoal para trabalhar em favor das populaes envolvidas com a guerra na Bsnia-Herzegovina, candidatei-me 
ao servio. Pela experincia anterior e pelo conhecimento de idiomas ao qual me dedicara, fui aceito. Reuni-me ao contingente de Cu Azul, visto que outras pessoas 
atenderam ao chamado, e partimos aps os necessrios preparativos, inclusive um treinamento de emergncia, uma vez que nenhum de ns tinha trabalhado em situao 
de guerra. No obstante alertados para o que iramos encontrar, em palestras e por um farto material de imagens que mostrava os horrores do conflito, estvamos animados 
e estimulados pela oportunidade de servir que se nos deparava. Era um servio em terras estranhas, diferente de quantos havamos realizado, e isso nos entusiasmava. 
Ao chegarmos, porm, sofremos um duro impacto. Conquanto a veracidade e crueza das imagens que tnhamos visto antes, dos alertas que recebramos de nossos superiores, 
a realidade superava em muito todas as expectativas. Cenas de selvageria campeavam em todos os lugares. A dor, a morte, o desespero e a misria eram companheiros 
inseparveis daquela populao que sofria toda sorte de necessidades: sem gua, sem comida, sem agasalho, sem teto. O pior, entretanto, era a desesperana que vamos 
nos olhares tristes e melanclicos. Especialmente nas crianas, cujos olhos grandes, encimados por longas pestanas, se mantinham secos, j sem lgrimas para chorar 
em face do excesso da dor e das perdas sofridas. A populao civil, composta basicamente de mulheres, crianas, velhos e doentes, no tinha como se proteger, visto 
que os homens vlidos tinham sido recrutados e estavam todos nas frentes de batalha. Quando os inimigos chegavam - e me refiro a ambos os adversrios; os dois lados 
eram igualmente cruis -, torturavam e matavam com requintes de crueldade. Estupravam as mulheres, muitas delas jovenzinhas, ainda crianas, como se tivessem perdido 
todo o senso da realidade, e como se os valores que haviam cultivado at aquela poca nada significassem. O mais absurdo  que no eram criminosos  solta. No. 
Eram pessoas comuns, amantes da paz e da ordem, religiosas, que tinham tido uma existncia pacfica, ordeira, de trabalho, at ento. Mas o sentimento de dio liberado 
pela guerra faz com que os seres humanos se modifiquem radicalmente. No af de vencer o inimigo, usam a violncia at como ttica de combate, para despertar insegurana, 
minar a resistncia e a disposio dos adversrios, causando desnimo, angstia e dor. Contudo, no se do conta de que as mesmas coisas podem estar acontecendo 
do lado oposto com suas mulheres, filhas, irms, namoradas. As cenas eram to fortes que precisvamos de todo o nosso equilbrio para nos mantermos isentos. Nossa 
atividade principal era ajudar na retirada dos espritos de combatentes mortos, para que no continuassem a guerrear, acirrando ainda mais os nimos. 
Amparvamos tambm a populao nas suas dificuldades, consolando, dando nimo, esperana, instilando f nos coraes desvalidos. Durante esse perodo, fiquei conhecendo 
um garoto de uns dez anos aproximadamente, e me liguei a ele, comovido com sua histria, narrada por um dos nossos colegas de trabalho que estava havia mais tempo 
na regio. O garoto chamava-se Erlan. O pai estava na guerra, e a me sobrevivia como possvel junto aos seis filhos. Erlan era o mais velho e se dedicava  me 
e aos irmos com venerao. O pai, antes de partir, lhe dissera:
- Voc  meu primognito. Agora, meu filho, voc  o homem da casa e tem o dever de proteger sua me e seus irmos menores.
Erlan aceitara a incumbncia, cumprindo  risca sua tarefa, com orgulho e coragem. No fundo, gostaria mesmo era de estar lutando ao lado do pai, como um homem, mas, 
em virtude da pouca idade, no podia. Assim, teve de ficar em casa e cumprir sua misso. Certo dia, nosso grupo saiu para uma de nossas rondas. ramos trs: um francs, 
um angolano e eu. Passvamos por uma rua quando ouvimos choro convulsivo em uma das runas, justamente o lugar onde essa famlia estava abrigada. Imediatamente nos 
dirigimos ao local. Deparamo-nos com uma das mais tristes cenas que tive a oportunidade de presenciar: as seis crianas estavam ao redor do corpo da mezinha, que 
tinha sido atingida por uma bala, e no resistira. Chegamos a tempo de ver o esprito da me se desligando do veculo corpreo, sem mais condies de sobrevivncia. 
Louis, o francs, era o chefe da equipe e sem demora acabou de cortar os ltimos elos que mantinham o esprito preso ao organismo fsico. Tobi, o angolano, e eu 
o auxiliamos na operao, ao mesmo tempo suplicando ajuda do Alto. A me, recm-liberta, ignorando que j passara para o outro lado da vida, mas sentindo-se atingida, 
com as mos tentava conter o sangue que se esvaa da ferida. Desesperada ao ver os filhinhos chorando, com dificuldade procurava tranqilizar as crianas:
- No chorem, no foi nada! Vou ficar boa para cuidar de vocs. Confiem em Deus! Erlan, meu filho, cuide de seus irmos.
Os pequenos, porm, no podiam mais ouvi-la. Ns nos aproximamos, fazendo com que ela nos visse, e a convencemos de que precisava de socorro mdico. Aceitando o 
tratamento, ela foi retirada do local e levada para um de nossos hospitais de emergncia, para que no piorasse, com suas condies, a situao das crianas. Erlan, 
entendendo sua responsabilidade diante dos irmozinhos, enxugou as lgrimas e, abraando-os, disse:
- Agora eu sou o chefe da famlia. No deixarei que nada de mal lhes acontea.
- Prometo.
Desse dia em diante, a vida dos garotos tornou-se pior, pois no mais tinham pai nem me que pudesse proteg-los. Erlan arrumou um lugar para ficar com os irmos, 
visto que tinham sempre de mudar de esconderijo, e empenhava-se em suprir as necessidades da famlia, arranjando comida e gua. Passaram a viver escondidos num tipo 
de gruta que Erlan descobrira por acaso ao andar pela cidade  procura de algo que pudessem comer. Como fosse protegida do vento e da chuva, achou que era o local 
adequado s suas necessidades. Certa manh Erlan saiu com os irmos para dar uma volta. Tudo estava tranqilo. Desde a noite anterior, o barulho de exploses havia 
cessado e nenhum tiro se ouvia. Estavam com fome e resolveram arriscar. Sempre encontravam algo nos bolsos dos soldados mortos, ou nas casas abandonadas pelos moradores. 
Nisso, ao virar uma esquina, no meio dos escombros, Erlan viu um grupo de soldados inimigos que vinha em sentido contrrio, ao encontro deles. Em silncio, fez sinal 
aos irmos para se esconderem. Todavia, o movimento j tinha sido detectado pelos soldados, que imediatamente reagiram, jogando uma granada de mo. Atnitas, as 
crianas viram cair o objeto no meio delas e ficaram paradas, sem ao. Erlan virou-se e, vendo o perigo, no teve dvidas: jogou-se, pegou a granada, evitando que 
estourasse no meio dos irmozinhos, e correu para longe. No teve tempo, porm, de larg-la. 
A granada estourou na sua mo. Morreu bravamente. Seu gesto herico foi um exemplo para todos ns. Os inimigos se aproximaram de armas em punho, gritando:
- Alto! No se mexam! Saiam com as mos para cima.
Aps alguma hesitao, os pequenos comearam a sair. Os soldados ficaram perplexos: eram apenas cinco crianas aterrorizadas e uma delas no tinha mais do que dois 
anos! Ficaram olhando aqueles rostinhos sujos de fuligem, as roupas esfarrapadas, sem saber o que fazer. Perguntaram pela famlia e ouviram a histria do maior deles, 
menino de oito anos e agora o chefe da famlia. Ficaram sabendo que os ferozes soldados que pensaram estar atacando eram seis crianas indefesas, e que o irmo mais 
velho havia se sacrificado heroicamente para salvar suas vidas. Trocaram um olhar, como que se consultando sobre o que fazer. Todavia, nada poderia ser feito. A 
guerra era cruel e milhares de crianas estavam nas mesmas condies, sem famlia e sem lar. Em seguida, viraram as costas e foram embora. Jamais esqueci Erlan, 
o garoto que conheci na Bsnia. Ele foi atendido em um de nossos hospitais itinerantes e fiz questo de acompanhar-lhe a recuperao. Naturalmente, foi um longo 
perodo, em que tivemos oportunidade de conversar muitas vezes. A princpio, ele ficou espantado ao perceber o conhecimento que eu tinha da sua vida e da sua famlia. 
Depois, mais perplexo ainda, quando lhe contei que o conhecia havia meses e que sempre procurvamos ajud-los. Com olhos arregalados, ele exclamou: 
- Vocs, anjos da guarda! Paulo, meu anjo da guarda!
- Bem, nem tanto, Erlan. Apenas amigos - tentei explicar.  
Em nossos encontros, procurava levar-lhe notcias dos irmos, e ele mostrava-se satisfeito e agradecido, conquanto um pouco triste por no poder estar ao lado deles. 
Todavia, inteligente e desejoso de aprender, em pouco tempo entendeu que era preciso recuperar-se para ter condies de amparar os irmozinhos. Quanto  me, ficou 
contente de saber que ela tinha sido encaminhada para um local de atendimento na espiritualidade, e que logo poderiam se encontrar. As histrias de guerra so sempre 
tristes e raramente tm um final feliz. Neste caso, os garotos sobreviveram, e, depois que os conflitos terminaram, foram levados para um abrigo de atendimento a 
crianas desamparadas, visto que nenhum parente foi localizado. Nessa instituio, apesar da precariedade, eles tm a felicidade de crescer juntos, como uma famlia, 
cada vez mais unida. Este foi dos exemplos mais belos que tive a oportunidade de ver. Erlan demonstrou generosidade e renncia pela vida ao proteger seus irmos. 
Sua recuperao foi rpida, porque dotado de bom corao e nobres princpios. Adquirindo condies, recebeu dos orientadores a bno de continuar amparando os irmos. 
Juntamente com a me, participa de equipe que executa dignificante trabalho na ajuda aos encarnados com problemas gerados pela guerra, e assim tem a oportunidade 
de permanecer perto dos irmos e do pai que, atingido por uma exploso, desmemoriado e em estado gravssimo, foi levado para um hospital. Permanece encarnado, porm 
sem condies de procurar e ajudar os filhos. Erlan denota grandeza de alma e profundo amor, sentimento que ele nutre por sua famlia. Da ltima vez que o encontrei 
antes de retornar para Cu Azul, conversamos longamente. Ao nos despedirmos, falou-me de seus propsitos: quer trabalhar pela paz para evitar que irmos se destruam 
barbaramente, como na guerra. Trabalhar como desencarnado e, mais tarde, quando estiver preparado, pretende reencarnar no seio do seu povo para plantar sementes 
de paz e de luz, direcionando os coraes para o exerccio da fraternidade e da solidariedade universais.

CAPTULO 4 - MALEFCIOS DA GUERRA

"Qual  a causa que leva o homem a guerra?" "Predominncia da natureza selvagem sobre a espiritual e satisfao das paixes. No estado de barbrie, os povos conhecem 
apenas o direito do mais forte;  por isso que a guerra  para eles um estado normal. Contudo,  medida que o homem progride, ela se torna menos freqente, porque 
evita as suas causas, e quando  inevitvel sabe aliar  sua ao o sentimento de humanidade." (O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 742)

A histria de Erlan ilustra bem os malefcios da guerra. Na verdade, as pessoas que habitam pases em que no existem conflitos armados, que esto legalmente em 
estado de paz, dificilmente podero entender o que seja viver no meio de combate, destruio e morte. Seria necessrio estar l, viver e sofrer com essas populaes, 
para se ter uma idia dos horrores da guerra. Manter-se em estado de tenso fsica, mental e emocional, retesado como um arco cuja flecha deva ser atirada a qualquer 
momento, permanentemente em guarda, inseguro e angustiado, estremecendo de medo a cada rudo por menor que seja; sempre dormir preocupado, acordar durante a noite 
com o corao disparado, ao ouvir uma exploso, os clares das bombas, os tiros soando bem prximo. Difcil sentir alvio quando o silncio se faz, e poder respirar 
mais tranqilamente. Mas no  s isso. Alm do medo e da insegurana, as populaes convivem com a mais absoluta misria. Muitas vezes, no morrem por um ferimento 
 bala, mas de fome. De todas as dores, a moral  a que mais atormenta e desencoraja o ser humano. Como  difcil para o homem, quando distante, no saber o que 
est acontecendo com os entes queridos, no poder defend-los; e quando perto, presenciar o desespero de um familiar ou amigo sendo abatido por uma rajada de metralhadora; 
ver uma filha, esposa, me, irm ou noiva, aos gritos de horror, sendo estuprada por soldados violentos e de mentes ensandecidas, sem poder fazer nada para ajudar, 
casos em que se prefere a morte do ente querido para livr-lo dos sofrimentos e das humilhaes. Isso acontece, na atualidade, em diversos pontos do globo. E por 
qu? Como plo central de onde partem e para onde convergem essas questes, temos sempre o egosmo, o orgulho e a ambio dos homens, que lutam para defender seus 
interesses, sejam raciais, territoriais ou econmicos. A luta sempre acontece porque uns se consideram injustiados e, outros, detentores de todo o direito. Estabelece-se 
a, sem dvida, um contra-senso, pois todos esses absurdos irrompem em sociedades que, no fundo, desejam a paz. Mas o que  paz?  poder viver num mundo sem violncias 
ou perturbaes sociais, onde exista concrdia e entendimento entre as pessoas e entre os inmeros grupos da sociedade, como conseqncia da tranqilidade da alma, 
da ausncia de conflitos ntimos do homem. Dessa forma, trs situaes bsicas se deparam na relao entre os seres humanos: problemas sociais, pblicos e grupais 
ou com outras pessoas. Problemas individuais, de foro ntimo. Desde que o homem existe sobre a crosta planetria, a defesa dos seus interesses sempre foi primordial. 
No comeo, para preservar-se dos animais selvagens, da natureza inclemente e de outros seres humanos hostis. A existncia era simples, despojada.  medida que progride, 
o homem sente-se compelido a viver em grupo, para uma mais eficiente defesa. Com a vida grupai, surge a necessidade de serem criadas normas para defender os interesses 
de cada um em particular e do grupo como um todo. Aparecem as primeiras regras para uma convivncia pacfica e harmnica, possibilitando grande salto para o progresso 
social. Enquanto os grupamentos se desenvolvem, as relaes se complicam. Das tribos surgem as naes, depois as sociedades organizadas em Estados; os conflitos, 
porm, jamais cessam, aumentando sempre em intensidade, com a progressiva complexidade das sociedades at atingir seu clmax nas civilizaes atuais. Alguns pases 
chegam a ser habitados por bilhes de pessoas, com cidades de vida to complexa e sofisticada que se configuram em verdadeiras megalpoles. Outros em exguo territrio. 
Neste ponto, aos interesses da nao juntam-se os interesses de grupos econmicos, de cidados que ganham enormes fortunas, no raro incentivando os conflitos armados, 
como guerrilhas, revolues, guerras civis ou guerras entre pases, para auferirem exorbitantes lucros com a venda de material blico, que fabricam e estocam, mancomunados 
com polticos e autoridades corruptas. S falamos at agora dos prejuzos materiais. E os danos causados ao homem como ser integral? Aos males tipicamente orgnicos 
somam-se outros de ordem emocional, mental, espiritual, que o atingem causando doenas psicossomticas, neuroses, psicoses e todo tipo de loucura. Os povos envolvidos 
na guerra, inclusive os prprios soldados, so incapazes de digerir as cenas violentas que deparam. Se, por um lado, se vem obrigados a matar outras criaturas iguais 
a eles, por outro, vivem o temor do que encontraro ao virar uma esquina e a incerteza do futuro, tudo isso gerando desequilbrio ntimo devastador, que os deixa 
enlouquecidos. Tambm as emanaes ptridas de corpos de animais e de seres humanos em decomposio, denominadas miasmas, causam terrvel mal-estar e doenas infecto-contagiosas 
gravssimas, visto que a freqncia e a continuidade dos combates nem sempre permitem que as pessoas neles envolvidas enterrem os mortos. Existe, porm, outro tipo 
de prejuzo de valor incalculvel: o que se refere  contaminao ambiental por miasmas psquicos. Liberadas pelos encarnados envolvidos na luta, as emisses mentais 
de ordem inferior, como sentimentos de revolta, dio, desejo de vingana, crueldade, geram miasmas - larvas psquicas contagiosas de alto poder de destruio -, 
que atingem rapidamente populaes inteiras. Acrescente-se a isso a participao dos desencarnados em combate, os quais, pelas suas condies, continuam guerreando 
e ajudando os que ficaram. Com isso, tem-se farto e explosivo material que, se no for retirado das frentes de batalha, s ir piorar o ambiente, produzindo por 
sua influncia malficas verdadeiras epidemias. Em vista disso, formam-se grandes nuvens fludicas de material psquico inferior que se aglutinam sobre as regies 
em conflito. Como existem inmeros focos de combate na atualidade, notadamente no Oriente Mdio, na frica, na Europa e na Amrica, essas nuvens caminham pelo espao 
e j tomam grandes territrios, uma vez que, pelo processo de sintonia, so atradas pelos sentimentos inferiores das populaes. No caso especfico dos Estados 
Unidos da Amrica e de sua vinculao em recentes guerras, conquanto no haja combate dentro de seu territrio, o povo americano acaba envolvido, ficando em sintonia 
com as emanaes malficas. No percebem como os conflitos se alastram? Quantas guerras aconteceram no pequeno espao de alguns anos - em regies asiticas -, s 
para falarmos das mais recentes? E as do continente africano? Imprescindvel trabalharmos no sentido de no permitir a entrada dessas nuvens deletrias em territrio 
brasileiro, evitando-se assim males maiores. Ainda bem que o modo de ser do brasileiro  diferente. As populaes so mais humanas, fraternas, solidrias e religiosas, 
tornando o ambiente mais preservado. No quero dizer que inexiste o mal dentro de nossas fronteiras; existe sim, e muito. Seria preciso ter uma venda nos olhos para 
no enxerg-lo. Felizmente, a atmosfera fludica  afetada de maneira positiva pelo sentimento de uma parte da populao que se dedica ao bem e cujos pensamentos 
so de ajuda ao semelhante, de doao em servios comunitrios, de voluntariado na assistncia social, o que produz, na mdia, um tnus vibratrio especialssimo 
e mais elevado. Parece que estou sendo condescendente demais com o nosso povo? Afinal, muitos acham que este pas no tem jeito, que s existem corruptos, criminosos, 
traficantes. Que a violncia existe em todos os nveis da sociedade e que no se pode sair  rua nas grandes cidades sem temer um assalto ou um acidente. Tudo isso 
acontece, sim. Morrem muitas pessoas no trnsito e vtimas de assassinato tanto quanto numa guerra. Contudo, a situao  diferente. No existe aquele clima contnuo 
de pnico e insegurana que se experimenta no meio de uma regio de combate. Aqui no Brasil, de modo geral, as pessoas vivem normalmente, tm seu emprego, sua famlia, 
saem para passear, vo  praia, comem e dormem sem escutar barulho de bombas o tempo inteiro. As cidades geralmente so tranqilas, limpas; as casas bem construdas, 
que oferecem segurana, no iro desabar com uma exploso; as crianas vo  escola, passeiam, brincam. Nas regies de conflitos,  s se conhece destruio e morte; 
as crianas vivem assustadas, no vo  escola, e, se brincam,  com armas de verdade, artefatos que matam e destroem as esperanas de uma vida melhor e mais feliz. 
Por tudo isso, ns, da espiritualidade, pensamos de forma diferente. A verdade  que, se uma parcela da populao pensa no mal, envolvendo-se com drogas, criminalidade, 
corrupo e malandragem, uma grande parte  constituda de pessoas ordeiras, amantes da paz, que trabalham muito, se esforam e desejam o melhor para si e para os 
outros. O sol brilha no cu, as rvores se enchem de flores na primavera, os animais domsticos correm satisfeitos, os pssaros voam pelo espao com seus gorjeios, 
as crianas brincam nas caladas, os pais vo trabalhar. S a felicidade de olhar para cima e ver o cu limpo, as cores do entardecer quando o sol se pe; as estrelas 
que brilham na imensido, convidando a elevar o pensamento a Deus...  uma grande bno. No, nada disso existe num pas em conflito, porque o cu est sempre carregado 
de fumaa. No existe perfume de flores na primavera, s o cheiro de enxofre, de plvora, de queimada. O grande pblico s enxerga aquilo que a mdia deseja que 
veja, ou seja, o pior: desastres, tragdias, crimes, corrupes. Contudo, examinando a vida nas cidades, nos bairros, o que vemos? Uma populao constituda de famlias 
que trabalham muito para sobreviver, de crianas que freqentam escolas, de jovens que estudam ou trabalham, no raro fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Como 
podemos pensar que o mal est vencendo? Basta ter "olhos de ver e ouvidos de ouvir", analisando tudo o que nos cerca, para termos a certeza de que o bem est vitorioso 
e que o amor  a resposta para nossos problemas. Certamente o ser humano est longe da perfeio. Embora venha, atravs do tempo, progredindo paulatinamente e acrescentando 
valores morais s suas conquistas, a caminho da felicidade, no conseguiu ainda vencer os vcios e defeitos que lhe atestam a condio de esprito em evoluo. A 
Terra  um planeta de provas e expiaes em final de ciclo, devendo transformar-se lentamente em mundo de regenerao, o que representa importante etapa evolutiva. 
E essa mudana de nvel  patenteada pela mdia do progresso moral e intelectual da civilizao. As criaturas que resistirem a essa transformao, imprescindvel 
ao novo estgio terrestre, prosseguindo no mal, chafurdando-se na lama da criminalidade e nos interesses pessoais egosticos, no podero mais permanecer neste planeta, 
sendo alijadas para mundos de categoria inferior compatveis com a faixa vibratria delas. O saneamento j comeou e de forma to natural que nem se percebe. Um 
grande nmero de espritos rebeldes, entre eles criminosos de alta periculosidade para a sociedade terrena que vierem a desencarnar, ou que j se encontram no Alm, 
no podero mais voltar ao planeta, sendo atrados magneticamente para outros mundos. "Bem-aventurados os que so brandos, porque possuiro a Terra. Bem-aventurados 
os pacficos, porque sero chamados filhos de Deus". Em face dessas afirmaes do Cristo, mas sem o conhecimento da lei das vidas sucessivas ou reencarnao, impossvel 
nos seria entender seu verdadeiro significado. Com a chave que as mltiplas existncias propiciam, torna-se fcil a compreenso, visto que ningum poderia transformar-se 
em brando e pacfico no exguo espao de uma nica existncia, deixando de lado a agressividade e a violncia. A entra outro problema que o ser humano enfrenta 
e ao qual j me referi anteriormente: as dificuldades dele para consigo mesmo e para com os semelhantes. O mundo ntimo  complexo; renasce o esprito trazendo a 
bagagem que conquistou em sua trajetria ao longo do tempo. Traz vitrias e fracassos clamorosos, construiu relacionamentos de afetos e desafetos, plantou o bem 
e o mal. Na verdade, errou bastante, prejudicando outras criaturas, e, no seu retorno ao mundo material, Deus lhe concede abenoada oportunidade de aprendizado, 
para refazer seus passos, reparar os danos causados a outrem e a si mesmo. Ao deixar o corpo fsico, estar mais amadurecido e ter galgado mais um degrau na escala 
evolutiva. Da a necessidade de buscar sempre o aprimoramento ntimo, crescendo moralmente  medida que reduz as prprias imperfeies. Devemos aprender a nos relacionar 
de maneira pacfica e harmoniosa com outros seres, lembrando-nos a cada momento de fazer ao prximo o que gostaramos que ele nos fizesse, conforme ensinou Jesus. 
E de desenvolver o amor em suas mltiplas facetas, respeitando o semelhante, bem como toda expresso viva em que a natureza se manifesta. Por essa razo  que s 
de modo muito lento o progresso moral se instala e se consolida no ntimo das criaturas, diferentemente do material, do cientfico e do tecnolgico, que crescem 
bem mais rpido, porque a eles o ser humano tem dado prioridade atravs do tempo. Mediante as mltiplas experincias, o homem vai despertando a conscincia, exercitando 
a aprendizagem, desenvolvendo os sentimentos, amadurecendo fsica, moral e espiritualmente, e preparando um futuro melhor e mais feliz, para si e para toda a humanidade.


CAPTULO 5 - DECISO FILIAL

"Se h males dos quais o homem  a principal causa nesta vida, h outros que, pelo menos na aparncia, lhe so completamente estranhos e parecem atingi-lo como que 
por fatalidade." (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 6)

Sentada ao lado da janela, nas mos uma revista aberta, Adelaide pensa. Olhos fixos ao longe, no v o belo cu azul nem sente o ar fresco que entra quarto adentro. 
Alheia a tudo, tambm no ouve o burburinho da rua, o trnsito intenso quela hora do dia. Pela tela da memria, passam-lhe imagens de seis meses atrs, levando-a 
a recordar-se de como tudo tinha comeado... No confortvel quarto de hospital, o leito est vazio. Nesse momento, uma atendente entra e Adelaide pergunta:
- Os exames ainda demoram?
- No. Esto quase terminando. Logo iro trazer o paciente para o quarto - responde a moa, ajeitando rapidamente os lenis.
A atendente sai e Adelaide volta seus olhos para a ampla janela, de onde descortina o belo dia de sol, o cu sem nuvens e o jardim do hospital. Cinco minutos depois, 
a porta se abre e dois enfermeiros entram empurrando uma maa. Com a agilidade daqueles que esto familiarizados com a tarefa, passam o enfermo para o leito, cobrem-no 
com o lenol e lhe ajeitam o travesseiro. Adelaide aproxima-se do doente, que geme baixinho.
- Como est, papai? Sente dor?
O paciente responde com uma careta.
- Quer tomar um analgsico?
- Agora no, minha filha. Mais tarde.
- Acho que j pode se alimentar, papai. O que deseja?
O doente balana a cabea negativamente. A moa insiste:
- Papai, o senhor est fraco. Desde ontem est de jejum. Precisa se alimentar. Um ch, talvez?
- No, filha. Quero apenas descansar. Estou exausto.  Ela entendeu. No insistiu. Ele queria sossego. Alisou os lenis delicadamente e concordou:
- Est bem, papai. Descanse. Est precisando mesmo dormir um pouco. Se precisar de algo, estarei aqui a seu lado.
Voltou para a cadeira perto da janela, observando o pai, que fechara os olhos tentando dormir. Achou-o muito plido, emagrecido. O doente era um homem de sessenta 
e oito anos de idade, forte e resistente, que at o ltimo ano nunca apresentara problemas de sade. De repente, passou a ter alguns sintomas inquietantes que os 
mdicos no conseguiam diagnosticar. 
A circulao estava alterada e a presso, instvel; o eletrocardiograma acusava tambm problema cardaco. Tinha desmaios, e, muitas vezes, Adelaide o encontrara 
cado no cho, desacordado. Com o passar do tempo, as coisas foram piorando e agora os mdicos estudavam a possibilidade de fazer uma cirurgia, desde que o estado 
do paciente permitisse. Mais tarde, o mdico entrou no quarto para a visita habitual. Adelaide abriu a boca para falar, mas antes que lhe perguntasse, ele adiantou-se, 
informando ao paciente: 
- Joo, os exames mostram que suas condies orgnicas no momento so boas, estveis, e achamos que  a ocasio mais adequada para a cirurgia. O que acha?
O enfermo, confortavelmente recostado nos travesseiros tomando uma xcara de ch, respondeu com voz fraca:
- Voc  meu amigo, Monteiro, e mais do que ningum sabe como me sinto, o que estou passando. Se voc acha que essa  a soluo, eu aceito.
Adelaide, de p ao lado do leito, questionou preocupada:
- Meu pai ficar curado, doutor Monteiro? Quais so suas chances? Correr perigo?
- Sua preocupao  legtima, Adelaide, porm nada posso garantir. Toda cirurgia envolve riscos, e a do seu pai  uma cirurgia extensa e de gravidade. O que posso 
lhe assegurar  que ele tem chances de uma existncia mais normal se for operado.
- E se no for?...
- Lamento - murmurou o mdico com expresso grave. Assustada, Adelaide virou-se para o pai com os olhos midos, apertando-lhe a mo. Com ternura, Joo fitou a moa 
a seu lado, afirmando com voz embargada:
- No se preocupe, minha querida, confie em Deus; tudo correr bem.
E, virando a cabea, olhou para o mdico, que esperava uma deciso:
- Monteiro, estou pronto. Confio em voc.  
- timo. Agradeo-lhe a confiana, Joo. Voc estar sob os meus cuidados, como tambm de toda uma equipe de mdicos, os melhores desta cidade. Comeu alguma coisa, 
Joo?
- No, doutor. Estava comeando a tomar este ch por insistncia minha - respondeu a filha.
- Bem, como ficou de dieta durante todo o dia, em virtude dos exames, no h problema. Pois ento, Joo, saboreie bem o seu ch.  s o que ter por hoje. Amanh 
cedo viro prepar-lo e conduzi-lo  sala de cirurgias. Durma bem.
O mdico saiu e Joo acabou de tomar o ch. Ambos permaneceram calados. Aquela noite, Adelaide no conseguiu dormir. Na manh seguinte, Joo foi levado para o centro 
cirrgico. Durante muitas horas, ela aguardou notcias do pai. Pelo meio da tarde, o cirurgio entrou no quarto informando que tudo correra bem, que o paciente ficaria 
na UTI por algum tempo.
- Mas por que, doutor Monteiro?
-  de praxe, Adelaide. Joo est sendo monitorado por aparelhos, e l ter o acompanhamento direto de que precisa, em virtude da gravidade da cirurgia. Voc poder 
v-lo, com os cuidados devidos. No podemos correr o risco de infeco.
- Entendo doutor. Obrigada.
Tudo corria bem. Na vspera de sair da UTI e voltar para o quarto, o quadro clnico se complicou. Joo teve uma parada respiratria e entrou em coma. s pressas 
foi levado para o centro cirrgico e a equipe mdica tudo fez para ajud-lo, sem resultados. Desse dia em diante, Joo no mais acordou. Continuou em coma profundo 
por longos meses. Como o estado do paciente permanecia inalterado, a direo do hospital sugeriu a Adelaide que o melhor seria levar o enfermo para casa e contratar 
enfermeiras. O prprio Monteiro aconselhou essa deciso porque, no obstante Joo ser um homem rico, a sua permanncia no hospital era desnecessria, acarretando 
sem razo gastos expressivos para a famlia e submetendo-o ao risco de contrair uma infeco hospitalar, sempre temvel. 
Adelaide tomou todas as providncias: adaptou o quarto do pai, equipando-o com o indispensvel para seu atendimento, e contratou enfermeiras para assisti-lo o tempo 
todo. Quando tudo estava pronto, uma ambulncia levou-o para casa. A partir desse dia, a vida de Adelaide se resumiu  preocupao e aos cuidados com o pai. Deixou 
o emprego, os amigos, os divertimentos, tudo, para dedicar-se a ele. Nos primeiros tempos, cuidava do enfermo com desvelo e carinho. Depois, como no visse mudana, 
cansou-se. Com o passar dos meses, a rotina dessa situao foi deixando-a insatisfeita, irritada, descontente. Afinal, sou solteira, tenho vontade de sair, arranjar 
um namorado, casar, ter filhos, trabalhar, e no posso, irremediavelmente presa ao meu pai. E eu no tenho muito tempo! A vida  curta. Estou com quase 40 anos e 
quero viver! Mas como? A moa comeou a acalentar pensamentos menos puros. Tambm precisava de dinheiro e estava tudo em nome do pai. Enquanto ele estivesse vivo, 
tinha de se contentar com a retirada mensal estipulada, conforme clusula estabelecida na empresa. Nada lhe faltava,  certo, mas Adelaide queria ter liberdade para 
gastar dinheiro como lhe aprouvesse, comprar roupas, jias, um carro novo. Seu pai, conquanto muito rico, sempre fora comedido nas despesas. Sem a influncia benfica 
que o pai exercia sobre ela - falando-lhe de religio e incutindo-lhe nobres valores morais -, Adelaide se deixou envolver por vibraes nocivas de entidades desencarnadas, 
inimigas de Joo e dela prpria, que desejavam destru-los. Assim, passou a considerar-se injustiada pela vida, uma vez que, tendo tudo, no podia usufruir de coisa 
alguma. Certo dia, fazendo compras, casualmente encontrou um antigo namorado, e o corao bateu forte. O rapaz convidou-a para tomar um suco e Adelaide aceitou, 
satisfeita. Era a primeira coisa interessante que acontecia em sua vida desde que o pai ficara doente. Humberto, o antigo namorado, retornava  cidade depois de 
passar dois anos fora. Estava curioso para saber das novidades, queria notcias dos amigos. Adelaide, sorridente, contou-lhe tudo o que sabia. Depois, desculpou-se:
- Lamento no poder dar-lhe outras informaes, Humberto. Embora tenha permanecido na cidade, ao contrrio de voc, quase no sa de casa em virtude do estado de 
meu pai. E contou ao rapaz tudo o que tinha acontecido nos ltimos meses. Penalizado, ele confortou-a. Saram outras vezes, reatando o namoro, e, uma noite, Humberto 
foi at a casa de Adelaide fazer uma visita ao doente. Assustou-se com a aparncia do enfermo. No passado, conhecera um executivo forte, decidido, cheio de vida, 
e agora o encontrava nessa situao - quase vegetativa. Apesar da compaixo que sentiu pelo enfermo, passou a vibrar no mesmo padro da namorada.
-  uma pena que continue sofrendo desse jeito. Afinal, j est praticamente morto.
- Pensa realmente assim, Humberto?
- Claro! Ele no est sendo mantido com vida apenas pelos aparelhos?
- Sim. Mas meu pai sempre me afirmou que a vida  sagrada; e, se h vida, h esperana.
- No neste caso, meu bem. S existe vida vegetativa. Adelaide ficou pensativa. Aps a sada de Humberto, retornou ao quarto do pai, onde a enfermeira vigiava. Verificou 
se estava tudo bem, deu um boa-noite para a moa e foi para seus aposentos.
Sozinha no escuro, no conseguia dormir. Sentiu um arrepio, e uma sensao de medo fez com que acendesse a luz do abajur. A pequena claridade espalhou-se no ambiente, 
deixando-a mais tranqila. As idias comearam a se avolumar em seu ntimo, idias que tinha medo at de pensar. Mas... E se os aparelhos fossem desligados? Eu ficaria 
livre dessa priso e meu pai tambm, visto que ele deve estar sofrendo, embora no demonstre. Papai sempre me falava da "outra vida". Assim, ele ficaria livre para 
viver a "verdadeira vida", e eu ficaria pronta para recomear a viver. Seus pensamentos se voltaram para o namorado, a quem se sentia presa por intenso amor. Lembrou-se 
de que, alguns dias antes, Humberto, delicadamente, deixou escapar que no desejava ficar preso a nada; no estava se adaptando bem ao Brasil, sentia falta da vida 
que levava na Europa. Queria encontrar a mulher ideal para casar-se e aproveitar a vida, viajar pelo mundo inteiro e divertir-se muito. No posso perder essa oportunidade 
de ser feliz! - pensou ela. No queria perder o namorado, de quem to oportunamente se reaproximara. Humberto era um rapaz bom, gentil, delicado, mas no tinha tido 
muitas oportunidades na vida. Falava em viagens, em divertimentos, porm no tinha recursos. Ele lhe confidenciara que tinha voltado ao Brasil com os recursos que 
conseguira economizar trabalhando no exterior, porm no eram muitos e logo acabariam. Portanto, vamos precisar do "meu" dinheiro, ou melhor, do dinheiro que receberei 
de herana quando meu pai morrer. E da? Isso no tem nenhuma importncia! Para que serve o dinheiro se no for para gastar? Com certeza meu pai compreender minha 
atitude e me perdoar, como sempre fez desde que eu era criana e fazia alguma arte. Acalmada a conscincia com essas justificativas, decidiu que realmente o melhor 
a ser feito era desligar os aparelhos. Mas como agir? Como desligar os aparelhos? No poderia envolver mais ningum, e as enfermeiras no desgrudavam de seu pai, 
por ordem dela mesma. Resolveu que daria um sonfero  enfermeira da noite. Depois, seria fcil. Desligaria os aparelhos sem problemas. Assim resolvida a questo, 
Adelaide teria de pensar no melhor momento para agir. Era uma quarta-feira. Decidiu que seria na sexta-feira, quando a responsvel pelo turno da noite seria Clara, 
moa boa, mas desatenta, e que por duas vezes j estivera para ser dispensada, exatamente por dormir em servio. Os desencarnados vingadores vibraram com a deciso. 
Tudo caminhava bem. Se ela titubeasse, eles estariam ali para garantir o sucesso da operao. 


CAPTULO 6 - SOCORRO INESPERADO

"Temos pensamentos prprios e outros que so sugeridos?" "Vossa alma  um Esprito que pensa; no ignorais que muitos pensamentos vos ocorrem s vezes ao mesmo tempo 
sobre um mesmo assunto e freqentemente bastante contrrios uns aos outros; pois bem, nesses pensamentos h sempre os vossos e os nossos. Isso vos coloca na incerteza, 
porque, ento, tendes duas idias que se combatem."  (O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 460)

Esta era a situao no momento e, em virtude da emergncia da crise em via de manifestar-se, pedidos de socorro comearam a chegar  espiritualidade. Nossa equipe, 
sob a orientao de Eusbio, dedicado benfeitor espiritual, foi chamada para atender ao caso. Deslocamo-nos de Cu Azul rapidamente, vencendo as distncias, e ainda 
era manhzinha quando chegamos  grande cidade, buscando o endereo que nos tinha sido passado. No foi difcil localizar a casa, situada em bairro nobre da cidade. 
Entramos. A cena que se apresentou a nossos olhos era comovente. Joo, considerado organicamente em coma, incapaz de reagir, conservava-se lcido espiritualmente. 
Eram dele os pedidos de socorro que nossos delicados sensores do Alm tinham captado. Ajoelhado em esprito, suplicava de mos postas:
- Senhor Jesus! Ajude-me. No posso morrer ainda! No quero morrer! Sinto que preciso ficar mais algum tempo na carne para ajudar minha filha. Porm, estou assustado! 
Minha querida Adelaide, razo da minha vida, planeja matar-me. No quero que ela se comprometa com mais esse crime. Por favor, Jesus, socorra-me!
A cena era tocante e nos sensibilizou. Logo em seguida, notamos duas entidades, servidoras do bem, que se mantinham no ambiente e protegiam o enfermo das investidas 
das sombras. Aproximamo-nos. A primeira era Amlia, esposa de Joo e mezinha de Adelaide; a outra era seu av Terncio, ambos desencarnados fazia muitos anos. Receberam-nos 
com carinho, agradecendo nossa presena. Feitas as apresentaes, Amlia esclareceu-nos:
- Joo, meu esposo na encarnao passada, est extremamente preocupado desde que percebeu as intenes de nossa filha, Adelaide. Por isso, tambm solicitamos reforos 
espirituais, porque vamos precisar de muita ajuda. Temos boa vontade, caro Eusbio, mas nossas condies so limitadas, como pode perceber.
Eusbio ofereceu-se, gentil:
- Conte conosco, minha irm. Estamos aqui prontos para o trabalho e desejamos ser teis.
Demonstrando grande inquietao, Terncio implorou: 
- Alguma coisa precisa ser feita em carter de urgncia, nobre Eusbio. A situao  crtica. Adelaide pretende desligar os aparelhos ainda esta noite!
- Estou ciente, caro Terncio. Mantenha a serenidade e confie. Vamos ver o que pode ser feito - disse o orientador.
Depois, como Joo continuasse repetindo suas splicas, Eusbio achegou-se a ele, tranqilizando-o. Com as mos sobre a cabea do enfermo, envolveu-o com energias 
balsamizantes:
- Joo! Acalme-se, meu amigo. Confie em Jesus. Voc est muito agitado, nervoso e tal estado lhe  prejudicial. Tranqilize-se. Estamos atentos. Nada tema. Repouse.
Ouvindo essas palavras, como se tivesse recebido uma ordem, Joo acomodou-se numa cama ao lado do seu leito, serenando o esprito. Vamos-lhe o corpo de carne, com 
as funes reduzidas ao mnimo, completamente imvel, quase um cadver. Ao lado, o corpo espiritual repousando. Percebamos que,  medida que o organismo fsico 
se enfraquecia paulatinamente, o corpo espiritual se fortalecia na mesma proporo. Algumas horas depois, Adelaide chegou da rua. Sua escolta consistia em trs entidades 
de aspecto vingativo e cruel que no se afastavam dela um momento sequer, mantendo-se ligadas ao seu psiquismo. Notamos fios escuros e viscosos que saam da mente 
de Vado, aquele que parecia ser o chefe da pequena falange, e ligavam-se  mente da jovem. Quando Adelaide aproximou-se da porta do quarto do pai, ficamos um pouco 
preocupados, conquanto soubssemos que o enfermo estava sob a proteo do Alto. Todavia, uma cena interessante deparou-se a nosso olhar, tranqilizando-nos: seus 
acompanhantes no puderam entrar, sendo obrigados a retroceder, permanecendo fora do aposento, a contragosto. 
- Perceberam? Ningum est desamparado sob a vista de Deus. A proteo de que goza o enfermo no  favoritismo divino, mas representa conseqncia justa de uma existncia 
reta e digna, das boas aes que ele praticou, crditos esses que agora o beneficiam e o envolvem em branda luminosidade, afastando os adversrios e impedindo-os 
de atorment-lo - comentou Eusbio discretamente.
Aproximando-se do leito, Adelaide olhou o pai imvel. Naquele momento, nenhum sinal de afeto, nenhum gesto de carinho. Sem olhar para a enfermeira, ela resmungou:
- Que calor! Tudo bem por aqui, Ema? Precisa de algo?
- Est tudo em ordem, dona Adelaide. No preciso de nada.
- timo. Ento v almoar que eu ficarei aqui. Tomei um suco na rua e estou sem fome.  A enfermeira saiu, estranhando a inusitada delicadeza da patroa. Adelaide 
sentou-se junto  janela pondo-se a pensar. E chegado o dia. J que preciso tomar uma atitude, que seja o mais rpido possvel. Tem de ser esta noite. S assim ficarei 
livre desse empecilho a minha felicidade. Na espiritualidade, ns percebamos-lhe os criminosos pensamentos. Julgando-se sozinha, refletia com frieza, mentalmente 
estudando os passos que teria de dar para terminar com a vida do pai. Felizmente, Joo dormia em esprito; caso contrrio, ficaria deveras decepcionado ao ver a 
filha do corao referir-se a ele como um traste intil e incmodo, depois de toda uma vida de dedicao e carinho. Aproveitando a oportunidade, Eusbio pediu que 
Amlia se acercasse da filha e a envolvesse em emanaes benficas, sugerindo-lhe atitudes mais sadias.
- Adelaide, minha querida filha, pense bem no que vai fazer. Lembre-se do amor que sempre recebeu de seu pai, que agora a est indefeso. Joo no apenas lhe deu 
a oportunidade de viver, mas como pai amoroso, durante toda a sua existncia, ele a cercou de cuidados, dando-lhe o melhor. Quando fui obrigada a deix-la, por determinao 
divina, partindo para a espiritualidade, foi ele quem me substituiu, suprindo minha falta e tornando-se pai e me para voc, de modo que nada lhe faltasse.  justo 
que agora, quando ele mais precisa, voc lhe negue amparo? No se macule minha filha, sujando as mos com o ato nefando que planeja. Acredite seu pai no permanecer 
muito tempo na Terra. Tenha um pouco mais de pacincia, Adelaide, e voc ficar legalmente com tudo a que tem direito. Piedade, minha filha. Lembre-se da orientao 
de Jesus: fazer aos outros o que gostaramos que os outros nos fizessem.
A mezinha fez breve pausa, dando  filha tempo para refletir, enquanto acariciava delicadamente seus cabelos. Notamos que fios brilhantes e tenussimos ligavam 
a fronte de Eusbio  cabea de Amlia. Depois ela prosseguiu:
- Voc  jovem, minha filha, ainda tem uma existncia pela frente. Seu pai j est no trmino da dele, e precisa desse tempo, infinitamente precioso para concluir 
seu aprendizado aqui na Terra. Pense Adelaide. Eleve seu pensamento a Jesus, o Mestre Maior, libertando-se da influncia desses inimigos que tentam destruir seu 
pai por suas mos. Que Deus a ampare e ilumine para que tome a deciso certa.
Enquanto Amlia falava, Adelaide no a ouvia com os ouvidos do corpo, mas recebia as sugestes na acstica da alma. A imagem do pai, sempre cheio de amor e carinho, 
surgiu-lhe em diversos momentos de sua existncia, evocados pela mezinha: consolando-a numa queda da bicicleta, levando-a para passear, para tomar sorvete, comprando-lhe 
presentes, ajudando-a nos deveres escolares, orando com ela antes de dormir, e muitos outros que agora lhe afloravam  mente. A imagem da me surgiu ntida e forte 
em sua tela mental, com intenso sentimento de amor e saudade. Sim, desde que a mezinha morrera, o pai fora toda a sua famlia, cercando-a de cuidados e de atenes. 
Como havia se esquecido disso? O corao se lhe confrangeu ao pensar na atitude que iria tomar. Sentiu-se indecisa, sem foras. Quem sabe no  melhor aguardar? 
Talvez ele morra logo, est to fraco! Por que sujar minhas mos com esse crime? As idias plantadas na sua mente por Amlia vingavam. Respiramos mais aliviados, 
considerando afastado o perigo. Eusbio, cauteloso, considerou: 
- No cantem vitria antes do tempo. O perigo ainda no foi afastado. Adelaide ter de enfrentar srios problemas durante o resto deste dia. Observem.
Nesse momento, Ema voltava do almoo e Adelaide, entregando-lhe o posto, saiu do quarto para igualmente fazer a refeio. Algo havia mudado nela. A diferente disposio 
ntima deixou os adversrios em alerta vermelho. Sentando-se  mesa, onde as iguarias estavam servidas, Adelaide continuava pensativa. Os acompanhantes Vado, Crepaldi 
e Quintino, igualmente se aproximaram e passaram a inalar as substncias nutritivas por meio do vapor que se desprendia dos alimentos, com isso demonstrando enorme 
satisfao. Adelaide continuava refletindo na situao do pai e no pouco tempo de vida que provavelmente ele teria. Se a me falecida estivesse viva em algum lugar 
e pudesse v-la desejando a morte do pai, o que pensaria dela? Percebendo que ela lhes escapava, os obsessores aumentaram o cerco. Vado, incisivo, considerava:
- Deseja passar o resto da vida sozinha e sem dinheiro? Sim, porque  isso o que vai acontecer! Humberto no ter pacincia de esperar, partindo para outra. Tome 
uma atitude. Voc j decidiu! Por que esperar mais? O tempo urge! Amanh mesmo, a esta hora, voc ser uma mulher rica. Pense em como sua vida ser diferente e feliz 
com o homem que ama, vivendo ao lado dele e com muito dinheiro para satisfazer seus caprichos. Pense! Pense! No hesite!...
 medida que a envolviam com suas sugestes malficas, os adversrios do bem readquiriam seu imprio sobre ela, e tnhamos dificuldade em nos aproximar.
- E agora, o que faremos? - indagou Amlia, apreensiva. - Acalme-se, minha irm. Confiemos em Jesus. No nos esqueamos, todavia, de que o livre-arbtrio  atributo 
do esprito e cada um  livre para tomar as prprias decises, ficando responsvel pelas conseqncias geradas por elas.
- Concordo caro Eusbio. No entanto, minha infeliz Adelaide est sendo coagida pelos seus obsessores.
O generoso orientador ponderou:
- Sim, certamente Adelaide no est sozinha em suas decises. Cabe-nos lembrar, porm, que os inimigos desencarnados apenas se beneficiam das brechas morais que 
nossa irmzinha exterioriza, incentivando-lhe os desvios de comportamento, mediante clichs que ela prpria mantm em seu psiquismo. Os adversrios no criaram nada. 
Apenas sugerem-lhe as idias negativas. Percebe a diferena? Se nossa Adelaide pensasse de outra forma, conservando o respeito  vida, a dignidade prpria e o amor 
filial, como seria de esperar, nada disso estaria acontecendo. Amlia baixou a cabea, aceitando as ponderaes de Eusbio, justas e sbias. 
- Sei que tem razo, meu amigo. Compreendo-o e lamento por minha pobre filha.
Ento, nada podemos fazer? Temos de aceitar passivamente os acontecimentos?
- De forma alguma, minha irm. Vamos usar todos os recursos  nossa disposio para evitar o pior, ajudando no apenas Joo, mas tambm Adelaide e os irmos desencarnados, 
vtimas de ontem, evitando que se comprometam ainda mais com a justia divina. 
Durante o resto do dia, Adelaide manteve-se inquieta, atormentada e indecisa. Em sua mente, duas posies antagnicas se entrechocavam. Uma, continuar a cuidar do 
pai, que provavelmente no duraria muito, pelo estado de fraqueza orgnica de que dava mostras. Outra, desligar os aparelhos e provocar-lhe a morte, ficando livre 
para decidir o que fazer de sua vida. Os inimigos desencarnados no lhe davam trguas, mas percebiam que ela estava em dvida. Trocaram idias entre si e decidiram: 
precisavam de reforo. A presena de Humberto era indispensvel naquela casa. Uma hora depois, a campainha toca. Era o namorado que chegava, acompanhado de Quintino 
e Crepaldi, os obsessores que tinham ido busc-lo. Adelaide recebeu Humberto, satisfeita pela visita inesperada do amado, secundada por Vado, que exultava diante 
da operao vitoriosa. Beijaram-se. Humberto percebeu que ela estava plida e abatida. Adelaide levou-o para um sof, onde se acomodaram. Com carinho ele perguntou:
- Noto que voc est inquieta, nervosa... Aconteceu alguma coisa, minha querida?
- No suportando mais a presso, ela caiu em pranto. -  meu pai, Humberto. Essa situao me enlouquece. Vejo-o definhar a cada dia sem poder fazer nada.
Aconchegando-a ao peito, com delicadeza e extremo tato, o rapaz considerou:
- Ele deve estar sofrendo muito com essa situao, apesar de s existir vida vegetativa. Se pudssemos fazer alguma coisa para ajud-lo, libertando-o desse sofrimento 
intil!...
Adelaide desejou confessar seus planos ao namorado, contudo um resto de prudncia fez com que se calasse. Deu um suspiro e concluiu, desalentada:
- Quem sabe Deus resolve libert-lo? E. Nunca se sabe quando chegar a hora. Pode ser amanh, como daqui a dez anos - ele ponderou, lentamente, frisando as palavras.
Ouvindo-o, Adelaide arregalou os olhos, espantada.  verdade! No tinha pensado nisso. E se ele durar mais dez anos? Ou vinte? Meu Deus! Conversaram mais um pouco, 
depois Humberto despediu-se, alegando providncias urgentes a tomar. Pretendia viajar por alguns dias e precisava ultimar negcios. Adelaide sentiu todo o seu sistema 
de defesa em alerta. 
- Voc pretende viajar, meu amor? E no me disse nada? Com quem? Quando?
Humberto desconversou:
- Ainda no sei Adelaide, estou analisando a situao. Vai depender de alguns negcios que tenho em vista. Vamos ver. Quando souber, lhe comunico, est bem? Boa 
noite, querida.
Reconhecendo a ameaa de abandono vibrando no ar, a jovem sentiu-se ainda mais desnorteada. Compreendeu que se no fizesse algo rpido, perderia o impaciente namorado 
para sempre. Naquele momento, sentimos que a vida de Joo corria srio risco. Os adversrios desencarnados comemoravam por antecipao fazendo grande algazarra. 
Eram nove horas da noite; s dez, haveria a troca de planto das enfermeiras. Eusbio pediu que ficssemos atentos. Ele teria que se ausentar, mas voltaria no menor 
espao de tempo possvel. Quando Clara, a plantonista da noite, chegou, nosso orientador ainda no tinha retornado, o que nos deixou preocupados. Adelaide, gentil, 
se ps a conversar com a enfermeira. A certo momento comentou:
- Est to quente hoje! Quer um suco de laranja bem geladinho? - Aceito com prazer, dona Adelaide. A senhora acertou. Estou mesmo com sede.
A dona da casa saiu para providenciar o suco. Alguns minutos depois, voltou com dois copos, oferecendo um deles  enfermeira. Depois de tomar a bebida refrescante, 
Adelaide alegou estar com sono e despediu-se:
- Boa noite, Clara. Se precisar de alguma coisa, no hesite em me chamar.
- Chamarei no se preocupe. Boa noite, dona Adelaide. Adelaide ainda no tinha comeado a subir as escadas quando ouviu o som da televiso, que fora ligada. Sorriu. 
Agora sim  que Clara dormiria ainda mais rpido. Logo em seguida, Eusbio entrou acompanhado de uma senhora de elevada hierarquia espiritual, deixando-nos mais 
aliviados. Antes que ele fizesse as apresentaes, Amlia adiantou-se, abraando a recm-chegada com grande respeito e admirao:
- Esta  Laura, que na encarnao passada foi me de Joo e av de Adelaide.
Trocamos cumprimentos. Depois, aguardvamos os acontecimentos conversando sobre elevados assuntos com Amlia, Terncio, Eusbio e Laura, quando fomos alertados de 
que a filha de Joo se aproximava. Fazia uma hora que ela se recolhera. Desceu a escadaria sem fazer rudo e abriu a porta do quarto do pai. Aliviada, reconheceu 
que a enfermeira dormia a sono solto. Tambm, com a quantidade de sonfero que lhe dei! - pensou. Nesse momento, a um gesto de Eusbio, acercamo-nos, fazendo um 
crculo em torno de Joo. Vimos quando Adelaide aproximou-se do leito paterno e, sem titubear, desligou os aparelhos, retirando da tomada o fio condutor de energia. 
Quase a correr, abandonou o aposento. Naquele instante, sentiu medo das conseqncias da sua ao, como toda criatura covarde. No entanto, sem que ela pudesse imaginar, 
ali estvamos ns, reunidos em prece em torno do leito de Joo. Laura, esprito de maior elevao presente no ambiente, orava, elevando os braos para o Alto e suplicando 
s potncias superiores da vida socorro naquele momento to delicado.
- Senhor da Vida! Pai Amantssimo! Neste momento, externando nossos melhores sentimentos e irmanados em pensamento, nos dirigimos a Ti, sabedores de que jamais deixas 
um filho Teu desamparado. Suplicamos-Te por todos os envolvidos neste drama que se arrasta h longos sculos; contudo, Senhor, direciona Tuas bnos para nosso 
irmo Joo, mais necessitado de socorro nesta hora. Rogamos Tua permisso, Senhor, para que ele permanea algum tempo ainda na matria densa, de modo a cumprir a 
tarefa de ajuda com a qual se comprometeu se for da Tua vontade.
"Lana tambm, Pai, Teu olhar compassivo sobre os demais envolvidos. No desejamos emitir julgamentos, pois tanto nossa querida Adelaide quanto os infelizes irmos 
desencarnados que a influenciam so necessitados de socorro e de assistncia. Apesar da nossa splica,  reconhecemos que nada sabemos e que Tu tens o conhecimento 
de todas as coisas. Dessa forma, curvamo-nos diante de Ti, pedindo que se cumpra sempre a Tua vontade, Senhor, em todos os momentos e em todos os lugares. Abenoa-nos 
a todos, Senhor, e aceita a nossa gratido, envolvendo-nos com Tua luz terna e misericordiosa." 
 medida que Laura orava, todo o seu corpo se modificava, ficando nimbado de luz. Suas vestes pareciam tecidas em delicados arabescos luminosos; seus cabelos, seu 
rosto, seus braos, brilhavam intensamente. Sentimos que as vibraes do ambiente se tornavam suaves e elevadas, enquanto uma claridade azulada, um foco de luz iridescente, 
descia sobre o leito, envolvendo o enfermo, que passou a refletir a luminosidade que vertia sobre ele. O bem-estar, a alegria, a harmonia interior que senti ento 
eram desconhecidos para mim. Em minhas lembranas mais caras desde que aportara na espiritualidade, jamais tinha experimentado tal sentimento de plenitude. Deixei 
que lgrimas de emoo rolassem pelo rosto. Num relance, abri os olhos e percebi que os demais tambm choravam, sensibilizados e irmanados pelas mesmas impresses 
que me atingiam. Por alguns minutos, o ambiente permaneceu nas mesmas condies. Terminada a orao, aos poucos tudo foi voltando ao normal. Olhei para Joo. Oh! 
Maravilha! Conquanto Adelaide tivesse desligado os aparelhos, ele continuava respirando. Estava vivo! Sorrimos, satisfeitos e agradecidos. Todos estavam felizes. 
Nosso amigo Joo permaneceria mais algum tempo encarnado na Terra.


CAPTULO 7 - O DESPERTAR DA CONSCINCIA

"Onde est escrita a lei de Deus?" "Na conscincia." 
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 621)

Adelaide acordou com fortes pancadas na porta do seu quarto. A noite tinha sido difcil e quase no conseguiu dormir, s o fazendo s primeiras claridades do dia. 
Assim, levantou-se sonolenta, sem entender o que estava acontecendo. Era a empregada, extremamente aflita.
- O que houve? Voc quase derrubou a porta, Mercedes! A mulher torcia as mos em extremo nervosismo.
- Fale logo, criatura! O que houve? E com meu pai?
- Rpido senhora! Clara pede sua presena imediata no quarto do senhor Joo.  Adelaide, meio atordoada, somente naquele momento lembrou-se da atitude que tinha tomado 
na noite anterior.
- Meu pai! Meu querido pai! - gritou ela, saindo a correr pela casa e descendo as escadas como louca, enquanto a servial tentava acompanh-la.
A jovem entrou nos aposentos do pai e jogou-se sobre seu peito, chorando convulsivamente por acredit-lo morto.
- Papai! Papai! O senhor me deixou! Por que, papai? Por qu? Os empregados, de olhos arregalados, acompanhavam a cena sem conseguir dizer nada. At que a enfermeira, 
controlando o nervosismo, tocou no ombro da patroa.
Virando-se, Adelaide viu quem estava a seu lado.
- Clara, como foi acontecer isso? Por que no me chamou? - inquiriu a moa.
- No sei senhora. No entendo!
- Meu pai morreu e a culpa  sua, imprestvel! - gritou ela, recomeando a chorar.
Compreendendo o que se passava na cabea da patroa, a enfermeira esclareceu:
- Acalme-se, senhora! Creio que h um engano. Seu pai no est morto!
- O qu? No est morto?... - balbuciou ela, incapaz de acreditar.
- E isso o que estou tentando lhe dizer, dona Adelaide - respondeu Clara, trmula.
Rapidamente dirigiu-se para a parede do fundo e levantou o cabo eltrico, desligado da tomada, mostrando-o  patroa:
- Veja! No sei como tal fato sucedeu. O fio que mantinha os aparelhos funcionando amanheceu desligado da tomada. Mas, apesar disso, o senhor Joo continua vivo!
Procurando readquirir o equilbrio, Adelaide questionou:
- Mas... Mas... Como isso foi acontecer? Ainda ontem estive aqui at tarde e tudo estava bem! - gritou exasperada. 
- No sei senhora. S sei que hoje cedo os aparelhos estavam desligados. Achei muito estranho...
- Certamente voc, andando pelo quarto, desligou sem querer. Ou ento dormiu e teve um ataque de sonambulismo! Se meu pai morrer, eu processo voc por negligncia 
profissional. Chame o mdico imediatamente.
- J chamei senhora. Ele no deve demorar.
Poucos minutos depois, a campainha soa. Era o doutor Monteiro, que foi rapidamente introduzido nos aposentos do enfermo. Adelaide acompanhou-o, aproximando-se do 
leito com expresso preocupada.  O mdico examina cuidadosamente o doente. Sua fisionomia  grave e compenetrada. Quando termina, pergunta  enfermeira:
- Clara, desde quando os aparelhos esto desligados?
- Ignoro doutor. At ontem  noite tudo estava normal. Verifiquei pessoalmente, como sempre fao. No sei como isso foi acontecer, doutor. Depois que dona Adelaide 
saiu ningum mais entrou no quarto. E estranho... S se eu desliguei sem perceber. Mas no consigo entender como faria isso. Estou pasma!
Monteiro ouviu calado. Depois, passou a mo na cabea e sentou-se, observando o enfermo.
- E ento, doutor? Como est meu pai? - indagou Adelaide, tentando parecer aflita.
O mdico olhou para a moa e sorriu:
- Acalme-se, Adelaide. Seu pai est bem. Contra todos os prognsticos, as funes vitais dele esto normais! E surpreendente!
- Normais? O que isso quer dizer? O que vai acontecer com ele agora, doutor?
- No sei Adelaide. S Deus o sabe!
- Como assim? Meu pai no deveria estar morto?
- Sem dvida. Porm, existem outros casos iguais ao dele na literatura mdica. Pessoas que viveram anos em coma profundo e depois, ao serem desligados os aparelhos 
que lhes mantinham a vida orgnica - at em cumprimento de deciso judicial,  preciso que se diga! -, no morreram. Voc mesma j deve ter ouvido falar de casos 
assim.
Adelaide jogou-se numa cadeira, apoiando a cabea com as mos.
- Sim, j ouvi falar desses casos. Raros, por sinal. E tm que acontecer logo comigo?
Tudo est perdido! Eu me arrisquei para matar meu pai e ele continua vivo! O que pode significar isso?
Entendendo equivocadamente os sentimentos da moa, que julgou fossem os de uma filha preocupada com o pai, Monteiro consolou-a: 
- Minha filha, acalme-se! O pior j passou. Este  um momento de alegria! Afinal, seu pai est vivo e poder continuar com voc por mais algum tempo.
Entendendo que precisava conter-se para no levantar suspeitas, Adelaide ergueu a cabea, chorosa:
- Eu sei, doutor Monteiro. Estou contente, sim. S o fato de meu querido pai no ter morrido  suficiente para mim. Mas... Tenho medo dessa mudana, do que poder 
vir depois...
- Por quanto tempo o senhor acha que ele permanecer assim... Como est agora?
O mdico olhou para o enfermo e, encolhendo os ombros, virou-se para a jovem:  
- A medicina no tem resposta para todos os nossos questionamentos, Adelaide. Tambm ns, os mdicos, muitas vezes ficamos pasmos diante de determinadas situaes. 
Esta  uma delas. No posso fazer prognsticos. Joo poder ficar assim um dia, um ms, um ano, dez anos... Quem sabe?  imprevisvel. S Deus tem a resposta para 
essa pergunta.
Nada mais tendo a fazer ali, o mdico despediu-se, colocando-se  disposio para o que fosse necessrio:
- A qualquer hora do dia ou da noite, se houver alguma mudana no quadro, por menor que seja, avisem-me. Vou mandar um amigo, especialista na rea, neurologista 
famoso, para examin-lo e dar sua opinio sobre o caso.
- Sim, doutor. Se acha que  importante, faa o que for preciso - concordou Adelaide.
O mdico fez mais algumas recomendaes  enfermeira e deixou a casa. Aos poucos, tudo foi voltando ao normal. Os empregados retornaram s suas ocupaes e Adelaide 
sentou-se numa poltrona, ao lado do leito, ali permanecendo, calada e imvel. Olhava fixamente o pai, porm sua expresso era vaga, distante. Na verdade, sua cabea 
fervilhava. Aquele fato a tinha deixado muito mais abalada do que gostaria de admitir. No momento em que o mdico se referiu a Deus, como se a vida de seu pai estivesse 
nas mos Dele, Adelaide sentiu um calafrio da cabea aos ps. Tinha de reconhecer agora que, alm da vontade dela e at da medicina terrena, alguma fora superior 
existia e governava. Suas esperanas de libertao e felicidade estavam destrudas. De vez em quando, um das criadas entrava no quarto, ficava um pouco e saa. Estavam 
todos preocupados com Adelaide, vendo-a naquele estado. Certo momento em que ela deu acordo de si notou que a enfermeira Ema estava a seu lado, j no cumprimento 
de suas obrigaes. Ao chegar para o planto, Clara a informara das novas condies do enfermo, das recomendaes mdicas e da necessidade de ficar atenta  menor 
mudana em seu estado. Afeioada a Ema, que sempre havia demonstrado mais equilbrio e competncia, Adelaide perguntou-lhe:
- O que acha de tudo isso, Ema?
A enfermeira pensou um pouco, como se refletindo na convenincia do que iria dizer.
Depois, falou suavemente:
- Penso que  a bondade de Deus se fazendo presente na vida do senhor Joo e tambm na sua.
- Como assim?- Significa que ainda no chegou a hora dele partir, entende? Certamente seu pai tem necessidade de permanecer mais um tempo aqui na Terra.
- Voc acredita realmente? Supondo-se que isso seja verdade, Ema, do jeito que meu pai est, em que lhe poderia ser til esse tempo? - indagou Adelaide, ctica.
A enfermeira explicou-lhe que todos somos espritos imortais a caminho do progresso. Que j vivemos outras existncias, sempre aprendendo, para nos tornarmos pessoas 
melhores moralmente. Que, atravs do tempo, nos comprometemos perante a justia divina, ao prejudicarmos o prximo e a ns mesmos. E que, em virtude disso, somos 
constrangidos a enfrentar a conseqncia de nossos atos, reparando os erros cometidos e nos reajustando com os desafetos. A medida que ela falava, Adelaide fitava-a, 
cada vez mais perplexa. Jamais tinha cogitado dessas coisas. Aproveitando uma pausa que Ema fizera, perguntou:
- Qual a sua religio?
- Sou esprita.
- Ah! Logo vi. Meu pai tambm tinha uma queda por essas coisas.
- "Essas coisas", como voc diz, so muito srias e respeitveis. O Espiritismo  baseado num corpo de doutrina sintetizado em O Livro dos Espritos, de Allan Kardec. 
Se tiver interesse em ler, Adelaide, posso emprestar-lhe essa obra, que, tenho certeza, lhe trar muitos esclarecimentos.
Lembrando-se de algo, Ema levantou-se, foi at o lugar onde guardava sua bolsa, abriu-a e retirou dali um volume, que passou s mos de Adelaide:
- Olhe, Adelaide, no tenho aqui O Livro dos Espritos, do qual lhe falei. Porm, aqui est um livro que, acredito, lhe far bem. Trata-se de O Evangelho Segundo 
o Espiritismo, que  um trabalho do mesmo autor, e que sempre trago comigo. Gosto de ler e, nas horas vagas, aproveito o tempo com leituras edificantes.
Adelaide pegou o volume nas mos, agradecendo  enfermeira.
- Obrigada, Ema. Agora vou descansar um pouco. Qualquer novidade me chame.
- Fique tranqila. Estarei atenta.
A dona da casa procurou uma pequena sala onde gostava de passar o tempo e acomodou-se num aconchegante sof. Abriu o livro e tentou ler algumas linhas, mas seu pensamento 
estava muito tumultuado. Fechou os olhos procurando relaxar. Acabou por adormecer. Algum tempo depois, a criada veio acord-la, avisando que um senhor a procurava. 
- Quem , Mercedes? - perguntou.
- Veio a mando do doutor Monteiro. - Ah, eu j sei de quem se trata.
Adelaide levantou-se, passou as mos pelo rosto, pelos cabelos, ajeitou a roupa e, respirando fundo, foi atender o recm-chegado. Era um homem alto, moreno, ainda 
novo e de semblante sereno. Ao v-la, leve sorriso abriu-se em seu rosto, tornando-o mais simptico.
- Bom dia! Senhorita Adelaide?
- Sim.
- Como vai? Sou Fernando Amaral, e fui enviado pelo doutor Monteiro.
- Muito prazer, doutor. Eu o aguardava. O senhor  o neurologista que veio examinar meu pai, no ?
- Exato. Poderia levar-me at o doente?
- Claro. Por obsquio, acompanhe-me, doutor Fernando. Adelaide levou o mdico at o quarto do pai. Aproximando-se do leito, ele examinou o paciente meticulosamente. 
Fez algumas perguntas  enfermeira Ema e, ao terminar, virou-se para Adelaide e informou:
- Parece que, dentro das suas condies, est tudo normal. Gostaria de submet-lo a um eletroencefalograma e fazer outros exames. Mas no se preocupe. Trarei meu 
aparelho aqui para no precisarmos locomover seu pai.
- E quando far isso, doutor?
- O mais rpido possvel. Infelizmente, hoje terei a tarde toda ocupada. Tenho trs cirurgias e no sei quando ficarei livre. Amanh cedo, porm, por volta das nove 
horas, estarei aqui. Combinado?
- Claro. Estarei esperando. Aceita um caf, doutor?
- Com muito gosto.
Adelaide virou-se para a criada, que aguardava.
- Mercedes, duas xcaras de caf, por favor. Estaremos na sala ntima.
Conversando gentilmente, Adelaide conduziu-o at a pequena sala onde estivera repousando. Sentaram-se, e ele pegou um volume que estava na mesa ao lado do sof.
- O Evangelho Segundo o Espiritismo! Voc  esprita? Adelaide justificou-se com certo constrangimento:
- No, claro que no! Ema, a enfermeira, emprestou-me este livro, desejando ajudar-me, mas ainda no tive tempo de l-lo. Na verdade, nem sei se o farei. Aceitei-o 
para no ser indelicada.  
- Pois creio que deve ler.  excelente obra, e Ema tem razo; com certeza lhe far muito bem.  uma viso extremamente lcida do Evangelho de Jesus. Creio que ir 
gostar. Eu mesmo o tenho como livro de cabeceira.
-  esprita?
- Sim, com muita satisfao. O Espiritismo nos auxilia a ver tudo o que se passa conosco e ao redor de ns com outra viso.
Mercedes serviu o caf, fumegante e de agradvel aroma. Conversaram mais um pouco, o mdico lhe fez perguntas sobre o doente. Em seguida, ele ergueu-se, despedindo-se:
- Agora devo ir. A conversa est muito agradvel, porm meus pacientes me aguardam. Senhorita Adelaide, aceita uma sugesto? Abra o livro ao acaso, leia algumas 
pginas. Geralmente, o assunto tem relao com nossas necessidades mais ntimas. Amanh voltaremos a conversar. Passe bem.
Adelaide acompanhou-o at a porta e, ao fech-la, percebeu que estava encantada com o carisma do mdico. Ele era gentil, delicado, simptico, sereno; passava segurana, 
deixando-a mais confiante. Sentia-se ansiosa para v-lo novamente. Teria de esperar at o dia seguinte. Pegou o livro com renovado interesse, apertando-o entre as 
mos. Foi para o quarto, acomodou-se na cama e, abrindo-o ao acaso, como ele sugeriu, leu em voz alta: - "Deve-se pr um fim s provas do prximo?" Assustada, com 
o corao acelerado, empurrou o livro, afastando-o de si. Encolhida na cama olhou ao redor com medo de que algum tivesse ouvido. Depois, deu-se conta de que sua 
preocupao era bobagem. Estava sozinha no aposento! A curiosidade fez com que pegasse o livro de novo. Com as mos trmulas de medo, abriu-o e, para surpresa sua, 
caiu na mesma pgina. Achou que, de alguma forma, "algum" estava querendo que a lesse. Munindo-se de coragem, leu: - "Deve-se pr um fim s provas do prximo, ou 
 preciso, por respeito s vontades de Deus, deix-las seguir o seu curso? Comeou a ler a mensagem, e os conceitos ali expressos atingiam-lhe profundamente o ntimo. 
Sentia-se culpada, embora ningum a estivesse julgando. O texto, ao contrrio, no era de acusao, mas de incentivo a fazer o melhor, ajudando e abrandando a expiao 
dos semelhantes, de acordo com a lei de amor e de caridade.  Logo em seguida, leu outra mensagem: " permitido abreviar a vida de um doente que sofre sem esperana 
de cura?" "Um homem est agonizante, vtima de cruis sofrimentos. Sabe-se que seu estado no tem esperanas.  permitido poupar-lhe alguns instantes de agonia, 
apressando o seu fim?" "Quem, no entanto, vos daria o direito de prejulgar os planos de Deus? No pode o Senhor conduzir um homem  margem do abismo para retir-lo 
de l, a fim de faz-lo voltar-se sobre si mesmo e de conduzi-lo a outros pensamentos? Ainda que se pense que haja chegado o momento final para um moribundo, ningum 
pode dizer com certeza que essa hora tenha chegado. A Cincia nunca se enganou nessas previses? Sei muito bem que h casos que se podem considerar, com razo, como 
desesperadores. Mas, se no h nenhuma esperana fundada de um retorno definitivo  vida e  sade, no h tambm incontveis exemplos de que, no momento de dar 
o ltimo suspiro, o doente se reanima e recobra sua lucidez por alguns instantes? Pois bem! Essa hora de graa que lhe  concedida pode ser para ele da maior importncia, 
pois ignorais os pensamentos que seu Esprito pde fazer nos momentos finais da sua agonia e quantos tormentos pode lhe poupar um minuto, um momento de arrependimento. 
O materialista que apenas v o corpo e no se d conta da alma no pode compreender estas coisas. Mas o esprita, que sabe o que se passa Alm-tmulo, conhece o 
valor do ltimo pensamento. Suavizai os ltimos sofrimentos tanto quanto vos seja possvel faz-lo; mas guardai-vos de encurtar a vida, que seja apenas por um minuto, 
pois esse minuto pode poupar muitas lgrimas no futuro." Ao acabar de ler toda a pgina, que vinha assinada com o nome venervel de So Lus, Adelaide percebia que 
uma nova concepo de vida se delineava diante de seus olhos. Essa vida futura que ela nunca entendera nem aceitava, por desconhecimento, agora aflorava com contornos 
mais ntidos em sua mente.  Buscou o ndice. Desejava ver os assuntos enfocados. Deteve-se no Captulo 14, "Honrai vosso pai e vossa me". Abriu e leu "A ingratido 
dos filhos e os laos de famlia". Chorou copiosamente. Depois leu vrios outros captulos, surpreendendo-se e maravilhando-se a cada passo. Era tarde quando conseguiu 
conciliar o sono. Sentia-se leve, e uma nova esperana vibrava em seu ntimo, como prenuncio de paz e de crescimento espiritual. Pela primeira vez, elevou o pensamento 
numa prece de agradecimento a Deus. A mezinha, a seu lado, sorria com imenso carinho, tambm se associando  filha querida na prece de gratido ao Criador, pelas 
bnos desse dia, envolvendo em seus braos o ente querido que despertava para as realidades espirituais.

CAPTULO 8 - A BNO DO SOFRIMENTO

"Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vs, tambm vosso Pai Celestial vos perdoar os pecados." JESUS (MATEUS, 6: 14)

Desse dia em diante, Adelaide passou a interessar-se pela literatura esprita, na qual encontrava respostas para seus questionamentos mais ntimos. Sentia cada vez 
mais prazer em ler, se entrosando com seu contedo, at para poder dialogar com o jovem mdico por quem tanto estava atrada. Logo passou a demonstrar certa familiaridade 
com os livros que ele lhe emprestara. E o que havia comeado por interesse, numa tentativa de prender a ateno do atraente doutor, acabou por se tornar vital para 
ela. Agora, quando Adelaide se aproximava do leito paterno, trazia outros pensamentos na mente. Tentava adivinhar se o pai saberia o que estava acontecendo, se ele 
estaria ali, lcido, vendo-a a seu lado, e, em caso positivo, o que estaria pensando. O mais importante: ele saberia o que ela fez? Teria visto a ao dela, naquela 
noite, desligando os aparelhos? Por tudo o que j tinha lido na literatura esprita e pelas informaes de Fernando, seu novo amigo, sim, seu pai deveria estar ciente 
do que ela tinha feito. Essa constatao caiu com a violncia de um raio em sua cabea. No era o fato da sua atitude criminosa o que mais a incomodava, e sim saber 
que essa ao teve observadores. Que, enquanto ela agia, certa de estar sozinha, o pai - sua vtima - poderia estar vendo tudo! Essa possibilidade levou-a a outra 
sensao profundamente incmoda: a vergonha perante esse pai que tanto a amava e que agora deveria odi-la. Meditando sobre o assunto, que se lhe tornou uma idia 
fixa, passou Adelaide a sentir remorso pela atitude indigna, criminosa e covarde que tomara contra algum indefeso, que, alm de tudo, era seu pai. Olhando-o deitado, 
inerte, sem reaes, fisionomia cadavrica, sentiu necessidade imperiosa de conversar com ele, de pedir-lhe perdo. O momento era favorvel: a enfermeira tinha sado, 
e ela estava a ss com ele. Adelaide levou a mo para acariciar-lhe o rosto, mas no teve coragem. Afinal, respirando fundo, murmurou:
- Papai, se voc realmente puder me ver, se estiver consciente, por favor, me oua! Sei que tenho errado muito, mas estou s, papai, sem ter algum para me ajudar, 
esclarecer, amparar. Mame partiu h muito tempo e ns dois ficamos sozinhos. Por longos anos, voc foi meu esteio, minha proteo, meu tudo. Depois, voc tambm 
se afastou de mim, entrando nesse seu mundo particular e indevassvel que s voc conhece. Quando mais precisava de voc, fiquei desamparada, sem ter quem me aconselhasse, 
quem em guiasse atravs da vida.
Fez uma pausa, tentando perceber alguma reao no rosto do pai, mas foi intil. Adelaide tomou flego e prosseguiu:
- Voc sabe papai, nunca fui ligada  religio. Jamais tive interesse por Deus nem por essas coisas transcendentais. Para mim, morreu acabou. E quando o vi nesse 
estado, sem poder falar comigo, sem um gesto amistoso, sem poder responder a meus questionamentos e dvidas, me desesperei. Achei que estaria sofrendo! E pensei: 
se meu pai no tem condies de voltar  vida, no ser melhor morrer de uma vez? Depois, a verdade  que tambm senti desejo de ser dona da minha vida, de poder 
comandar meus atos, namorar, casar, ser feliz! Parou de falar, enxugou uma lgrima e continuou:
- Hoje eu sei papai, que as coisas realmente no so assim. Aprendi que ningum morre e que o esprito continua vivo, mais vivo do que nunca; que a morte  apenas 
uma mudana de endereo. Porm aprendi mais: que a vida nos foi dada por Deus para nosso aprendizado intelectual e crescimento moral, e que deve ser aproveitada 
ao mximo. Que, se voc est neste estado de coma,  que, por algum motivo, precisa ainda desse prazo aqui na Terra, e que ningum tem o direito de decidir o contrrio. 
Hoje eu sei que nada acontece por acaso, papai, e que esse perodo  muito importante para voc. 
Fez nova interrupo, colocou a mo sobre o brao do doente e, ganhando foras, prosseguiu:
- Por isso, humildemente, quero lhe pedir o seu perdo, papai, pois eu no sabia o que estava fazendo. Deus foi muito bom comigo, pois impediu um mal maior, permitindo 
que voc continuasse vivo. Perdoe-me, papai!
Nesse instante, por entre as lgrimas, Adelaide teve a impresso de que o semblante de seu pai ficou mais ameno e que um ligeiro sorriso tinha surgido em seus lbios. 
Segurou a mo do pai e - coisa extraordinria! - sentiu uma leve presso dos dedos dele na sua mo. Forte emoo tomou conta de Adelaide, que se ps a abraar e 
a beijar o pai, chorando convulsivamente:
- Papai! Voc me perdoou! Sei que me perdoou. Obrigada! Obrigada!
O mdico, que tinha acabado de chegar quela hora, entrou no quarto e admirou-se ao ver a reao de Adelaide.
- O que houve Adelaide?
- Fernando, meu pai se comunicou comigo! Ele sorriu e at apertou minha mo! No  uma alucinao. Eu vi! Eu senti! Ele realmente se comunicou comigo. Isso  possvel?
- Sem dvida! Pode acontecer, sim. Nunca sabemos quando o estado do paciente vai sofrer alterao, para melhor ou para pior. Neste caso, para melhor!
Enquanto examinava Joo, o mdico pediu para Adelaide descrever o que havia acontecido. E ela comeou a relatar com entusiasmo a ocorrncia. Como Fernando ignorava 
completamente a participao dela no desligamento dos aparelhos, ela contou apenas que estava falando com o pai, desabafando, sem especificar o assunto. Os criados, 
atrados pelo barulho, correram aos aposentos do patro, encontrando Adelaide risonha e feliz. Ao serem informados do acontecido, eufricos, puseram-se a agradecer 
a Deus pela melhora do enfermo. Desse dia em diante, Adelaide tornou-se mais tranqila e mais atenta s necessidades do pai, no se afastando dele um momento sequer. 
Quando Humberto se dignou a aparecer, ela o tratou com gentileza, mas sem intimidades. Algo dentro dela se rompera em relao a ele; no sentia mais o mesmo interesse 
e entusiasmo de antes pelo rapaz. Agora ela o olhava e o via como realmente era: interesseiro, egosta e manipulador. Ele no a amava de verdade, e Adelaide sentiu-se 
livre. Certo dia, sem avisar, Humberto voltou a procur-la. Estava cansado de evasivas. Telefonava, mas, invariavelmente, a criada informava que Adelaide no podia 
atender, dando as mais diferentes desculpas: ora porque tinha sado, ora porque estava cuidando do pai, ou qualquer outra justificativa. Por isso, tinha decidido 
ir sem avisar. Adelaide voltou a receb-lo com ateno e cortesia, como se faz com qualquer visita, mas se comportou de maneira fria e distante. Quando Humberto 
tentou abra-la, ela o afastou firme.
- O que aconteceu, minha querida? No est com saudade de mim? - reclamou ele com voz melosa. 
Munindo-se de coragem, Adelaide respirou fundo e considerou:
- Humberto, foi bom voc ter vindo. Precisvamos mesmo conversar e colocar tudo em pratos limpos.
Falou longamente com ele, enfatizando a necessidade de terminar a relao. Explicou que j no sentia nada por ele e queria dedicar toda a sua ateno ao pai doente. 
Humberto reagiu. Esperava outra atitude da namorada, uma vez que ela, havia algum tempo, mostrava-se distante e desinteressada. Ele porm, contava dissuadi-la com 
sua presena, com a influncia e a atrao que sempre exerceu sobre ela. Como Adelaide permanecesse irredutvel, desequilibrou-se, perdeu o controle, ficou bravo, 
agitado, nervoso e sentiu-se impotente diante da firmeza dela. Quando Humberto ainda tentava convenc-la a mudar de idia, chegou Fernando. Ao ver os olhares que 
Adelaide e o mdico trocaram, percebeu que no havia mais jeito. Ele era realmente "carta fora do baralho". O rapaz deixou o quarto tremendo de raiva. 
No se conformava em perder Adelaide, cuja riqueza tanto o interessava. Alm disso, tinha at reservado passagem para a Europa, contando com o dinheiro dela... E 
agora, tudo cara por terra! 
- Maldito intruso! - resmungou entre dentes, encaminhando-se para a porta, a pisar duro.
Aps a sada de Humberto, Adelaide respirou aliviada, satisfeita por ter-se livrado do incmodo rapaz.
- Desculpe-me ter entrado assim, sem avisar, Adelaide. Interrompi alguma coisa? - perguntou o mdico com delicadeza.
- No, em absoluto, Fernando. Humberto  algum que fez parte da minha vida, mas que no me interessa mais. Estava exatamente explicando-lhe que meus sentimentos 
mudaram, quando voc chegou.
- Namorado?
- Sim. Felizmente acordei a tempo. Ele s queria meu dinheiro. Fernando abriu um grande sorriso e fez uma carcia no rosto dela, enquanto dizia:
- No posso dizer que lamento sua atitude.
Adelaide sentiu-se dominar por grande emoo. Aquele era o primeiro momento mais ntimo que surgia entre eles. Durante os ltimos trinta dias, no conseguia pensar 
em outra coisa. S tinha olhos para o jovem doutor, cuja presena se tornava cada vez mais freqente na casa, sendo motivo at de cochichos por parte dos criados, 
o que a enchia de prazer. Passaram-se trs meses. O estado de Joo piorou de repente. O mdico diagnosticou pneumonia dupla. Alguns dias depois, Joo se despediu 
da vida sem voltar  conscincia. Adelaide aceitou o falecimento do pai com naturalidade e fortaleza de nimo. No velrio, os amigos mais chegados, as pessoas que 
a conheciam, estranharam seu comportamento, tentando saber o que a fizera modificar-se tanto. Estava mais segura, equilibrada e serena, mesmo diante da morte do 
pai, a quem tanto amava. Na espiritualidade, a alegria era imensa. Joo foi recebido com carinho por amigos e familiares desencarnados. Ao abraar a esposa, trazia 
o corao pleno de satisfao.
- Querida Amlia! Graas a Deus conseguimos encaminhar nossa Adelaide a novos rumos. Sinto-me aliviado por deix-la sob os cuidados de Fernando, criatura excelente 
e que ter todas as condies para ampar-la.  - Sim, meu querido Joo. Agora que nossa filha encontrou aquele que lhe foi destinado e com quem programou a realizao 
de importante tarefa, teremos algum tempo de paz, que voc aproveitar para o refazimento espiritual a que faz jus. Agora, descanse. Teremos bastante tempo para 
conversar.
Joo foi colocado numa maa e levado para um local da espiritualidade onde seria atendido e receberia toda a assistncia de que precisava. Antes de adormecer, com 
um resto de conscincia, Joo olhou para a esposa desejando dizer algo. Seu olhar era eloqente, e Amlia entendeu.
- Conheo sua preocupao, meu querido. Quer notcias dos adversrios que tanto tentaram prejudic-lo. Fique tranqilo. Eles esto sendo socorridos e, quando for 
possvel, poder v-los. Agora, pense em voc.
Joo sorriu levemente e murmurou:
- Obrigado.

CAPTULO 9 - REFLEXES

"Aquele que dentre vs estiver sem pecado, atire a primeira pedra."  JESUS (JOO, 8: 7)

Alguns meses depois, estavam todos reunidos na antiga residncia de Joo. Adelaide e Fernando iam se casar. A cerimnia seria simples, porm elegante e de bom gosto. 
Em virtude do recente falecimento de Joo, os noivos preferiram uma recepo pequena, para a qual foram convidados apenas os familiares e amigos mais ntimos. Quase 
na hora do casamento, uma criada veio chamar Fernando a pedido de Adelaide, que no estava bem. O noivo apressou-se a ir ao encontro da amada. Bateu levemente na 
porta e entrou no quarto, encontrando-a chorosa. Ainda no estava pronta; vestia apenas um roupo e mostrava-se tensa e preocupada. O noivo abraou-a ternamente.
- Saudades do pai? Ele certamente estar aqui conosco, minha querida.
Enxugando as lgrimas, Adelaide meneou a cabea:
- No, no  por isso, Fernando.  que sinto necessidade de falar com voc, contar-lhe um segredo que muito me angustia. No posso casar-me sem abrir-lhe meu corao.
- Adelaide, nada do que me possa dizer vai mudar meus sentimentos em relao a voc. Mas, se deseja desabafar, estou aqui. 
Fernando sentou-se na frente dela, segurando-lhe as mos para transmitir-lhe foras e coragem.  - Pode falar, minha querida. Estou ouvindo.
Com dificuldade, Adelaide comeou a contar a ele sobre sua vida desde o princpio. Lembrou a perda da me, falou a respeito da doena do pai; a relao com Humberto, 
seu desejo de liberdade para viajar com o namorado e ser feliz. Depois, veio a parte mais dolorosa. Respirou fundo e prosseguiu: lembrou como tinha resolvido desligar 
os aparelhos que mantinham a vida orgnica do corpo do pai, mas que, graas a Deus, no deu certo. Ele continuou vivo. Aps a confisso, no conseguia erguer a cabea 
e olhar o noivo nos olhos. Depois de uma pausa, ela comentou:
- Foi exatamente nessa poca que voc entrou em minha vida, lembra-se? Doutor Monteiro chamou-o para examinar meu pai e, desse dia em diante, senti que voc era 
o homem da minha vida. Meus conceitos mudaram. Passei a conhecer a Doutrina Esprita, e a enormidade do que tinha feito me assustou. Sou uma criminosa, Fernando, 
e se voc no quiser mais saber de mim, posso entender perfeitamente. Tentei muitas vezes encontrar coragem para contar-lhe este segredo, mas no consegui. E voc 
sabe como ... O tempo passa to rpido que a gente nem percebe. Afinal, chegou o dia do nosso casamento. Eu no podia adiar mais, convencida de que no seria feliz 
construindo o nosso futuro baseado numa mentira.
Parou de falar. Aps alguns segundos, ergueu a cabea, fitando o noivo que a ouvia calado.
- Fale Fernando, diga alguma coisa. Se no pode me perdoar, se me julga um monstro, faa o que quiser. Saberei entender. Dispense os convidados. Avise a todos que 
no haver mais casamento. Invente uma desculpa qualquer...
Fernando, com os olhos midos, murmurou:
- Adelaide, no imagina h quanto tempo espero ouvir isso de voc.
- Voc sabia? - gaguejou perplexa.
- Intuitivamente, percebi o que tinha acontecido naquela noite. Os aparelhos no se desligam sozinhos. Depois, tive ocasio de ver o esprito de seu pai abalado 
com seu comportamento, e no tive mais dvidas...
- Mas... Por que no me disse?
- Cabia a voc me contar. O segredo era seu, e eu no tinha o direito de tocar no assunto.
- Que vergonha! Voc no me perdoar nunca!
- Deus  Pai e quer o melhor para seus filhos, minha querida. No os premia nem os pune; d-lhes oportunidade de reparar o erro que cometeram. Se Deus no a condena, 
tambm eu no posso faz-lo. Mesmo porque nossa responsabilidade  sempre proporcional ao conhecimento que tnhamos no momento do fato. E voc ignorava tudo sobre 
espiritualidade, reencarnao, Lei de Causa e Efeito e tantas outras coisas que nos modificam a maneira de pensar, embora soubesse que eutansia  crime segundo 
as leis de nosso pas. Sua situao s no ficou mais grave, porque seu pai, felizmente, sobreviveu.
- Quer dizer que voc me perdoa?
- Nada tenho a perdoar Adelaide. Agora, lave o rosto, retoque a maquiagem e se vista, porque nossos convidados j devem estar impacientes.
- Sim, meu amor. Obrigada pela compreenso que demonstra diante do meu erro.
Antes, porm, gostaria de lhe dizer algo que venho amadurecendo nos momentos de ntima reflexo. Depois que meu pai desencarnou, de certa forma minha existncia 
ficou vazia de atividades.
- E eu no represento nada? - brincou ele.
- Voc  tudo para mim, sabe disso, meu querido. Falo de servio, de objetivo de vida.
Daqui por diante, terei os cuidados da casa, naturalmente; todavia, sempre poderei dispor de algumas horas para trabalhar.
- Acho muito louvvel, querida. O que est pensando fazer?
- Bem, gostaria de ajudar pessoas que possam estar enfrentando as mesmas dificuldades que meu pai passou, conscientizando famlias da importncia da continuidade 
da vida, essas coisas... O que acha?
Fernando abraou-a, comovido.
- Creio que encontrou um grande objetivo para sua existncia, meu amor. Desde que no se esquea de mim, naturalmente.
- Nunca... Nunca... Ter encontrado voc foi o que de mais importante me aconteceu at hoje.
- Ento, vamos! Arrume-se, que os convidados j devem estar pensando que no haver mais casamento!
Meia hora depois, Adelaide desceu. Estava linda no seu vestido branco de noiva e tinha um ar de radiante felicidade. Todos, encarnados e desencarnados, estavam contentes, 
vibrando amor e alegria pela vitria alcanada. O respeito  vida  algo que, se deixarmos de observar, vai nos comprometer gravemente. Indivduos materialistas, 
homens de cincia, equivocadamente, muitas vezes baseiam suas teorias sobre a eutansia vestindo-as com palavras delicadas e dourando a ao malfica sob a forma 
de morte suave", "morte digna", e afirmando que temos o direito de dispor de nossa vida conforme nossa vontade. Os que assim pensam cometem terrvel engano e sero 
responsabilizados por suas aes delituosas, uma vez que, no tendo condies de dar a vida, tambm no tm o direito de tir-la, nem a prpria nem a de outrem. 
E essa  uma realidade que salta aos olhos. As leis da grande maioria das naes atestam essa verdade, punindo como crime a interrupo da vida, tanto em casos de 
aborto quanto em relao  eutansia. Que no nos passe pela cabea cometer um ato to brbaro, interrompendo a vida por um minuto que seja. A existncia, no importa 
o tempo que ainda se tenha, seja uma hora, um dia ou um ano,  sagrada e merece ser preservada. No conhecemos as razes que determinaram o sofrimento do nosso ente 
querido, uma vez que ignoramos seu passado. Deus, porm, que  a suprema sabedoria, misericrdia e justia, que tem a cincia de todas as coisas, no estar lhe 
dando o que precisa? Tudo tem uma razo de ser e um motivo justo. O que podemos afirmar com certeza  que aquele perodo de dores acerbas, de extraordinria importncia 
para o esprito, permitir que ele deixe esta existncia em situao bem melhor do que a que tinha quando aqui chegou. O sofrimento pode associar-se  expiao pela 
qual o encarnado precisa passar para liberar-se de compromisso assumido anteriormente; ou a uma prova que ele pediu, para verificar se j consegue vencer determinada 
imperfeio.  irrelevante saber se o sofrimento se refere a expiao ou prova. O que importa  conseguir vencer, tornando-se moralmente melhor. No raro, o sofrimento 
 maior para quem acompanha a dor do outro, como familiares e amigos, do que para quem passa por ele. Normalmente, a assistncia dos amigos da espiritualidade  
tanta, que o doente vive mais do lado de l da vida do que do lado de c. Na verdade,  uma preparao para o retorno ao verdadeiro lar. Existem casos em que a demora 
em partir tem relao com a presena de inimigos desencarnados ao p do leito. Quando o enfermo  esprito bastante comprometido, em virtude de erros cometidos no 
passado, quando prejudicou muitas pessoas - hoje desencarnadas e que ainda no lhe perdoaram, mantendo-se irredutveis no mal e no desejo de vingana -, a bondade 
do Pai faz com que o faltoso permanea no corpo fsico para ajudar aqueles que um dia lesou. Esse tempo, ento,  utilizado no socorro a essas entidades obsessoras, 
de modo que ele, ao voltar  espiritualidade, encontre um caminho mais aplainado. Caso contrrio, o recm-desencarnado poder ficar nas mos dos seus inimigos e 
ir sofrer muito mais ainda. Os sofrimentos superlativos que ter de enfrentar no Alm-tmulo nem de leve podero ser comparados aos que ele atravessou no mundo 
material. A priso, as torturas, as dores, as necessidades cruciais a que estar submetido, o faro lembrar com saudade do tempo em que estava encarnado e cujas 
dores lhe pareciam insuportveis. Assim, mesmo que o enfermo implore pela sua morte, os familiares e amigos devero conscientiz-lo de que s Deus poder libert-lo 
do sofrimento. E incutir nele pensamentos de f e de confiana no Criador, ajudando-o a orar. Todas as pessoas tm o amparo divino e sempre podero contar com os 
recursos do Alto. Todavia, aos espritas  facultada melhor utilizao desses recursos, com maior eficcia, pelos conhecimentos que a doutrina propicia. A prece, 
quando feita com amor,  veculo de bnos infinitas, a qual dever ser potencializada com a aplicao de energias por meio do passe e da gua fluidificada, momento 
em que o Alto aproveitar para socorrer o necessitado, proporcionando-lhe mais paz, tranqilidade, confiana e amenizando-lhe as dores. Uma coisa  certa: mesmo 
que o organismo do enfermo esteja em estado de vida vegetativa ou de coma, no importa, e que a cincia julgue que ele no mais ali est, mas somente o seu corpo 
fsico, mantido vivo unicamente com a ajuda de aparelhos, mesmo assim, o esprito continua ligado quele corpo, aguardando a deciso do Criador. H a crena, entre 
os profissionais da sade materialistas, de que, pelas conquistas da cincia, a vida corporal poder ser mantida por tempo indefinido. No entanto, se enganam esses 
profissionais, pois em vrios casos, depois de desligados os aparelhos, o veculo fsico continuou vivo. Se assim ocorreu, mesmo nos aparelhos,  porque ainda existe 
fluido vital, e o esprito - responsvel e inquilino daquele corpo - ainda estava ligado ao organismo pelo seu envoltrio semi material ou perisprito. A grande 
verdade  que, nesses fatos, vemos a presena de Deus. S a vontade divina tem condio de saber o que o esprito precisa ou o que merece. Pense nisso!


CAPTULO 10 - O JOGO DE FUTEBOL

O Conselho Federal de Medicina estabeleceu, em 1991, por meio da Resoluo n 1346, que a morte enceflica corresponde a um estado definitivo e irreversvel de morte, 
condio que permite, sem dvida, a retirada de rgos para transplantes. Morte enceflica significa que as estruturas vitais do encfalo, necessrias para manter 
a conscincia e a vida vegetativa, encontram-se lesadas irreversivelmente. Em outras palavras, o tronco cerebral no funciona, no existe mais a atividade cerebral, 
h total ausncia de circulao sangnea no crebro e o eletroencefalograma mostrar o silncio eltrico cerebral. No confundi-la com estado vegetativo, pois neste 
uma parte do crebro ainda funciona, visto que a leso ter atingido parte das clulas neurolgicas, mas no as estruturas do encfalo.  "Por que a vida  muitas 
vezes interrompida na infncia?" "A curta durao da vida de uma criana pode ser, para o Esprito que nela est encarnado, o complemento de uma existncia anterior 
interrompida antes do tempo. Sua morte , muitas vezes, tambm uma provao ou uma expiao para os pais."
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 199)

Cheio de alegria, Carlinhos preparou tudo o que precisava. Vestiu a camisa do time do corao, pegou a bandeira, um bon e correu para a sala.
- Papai, estou pronto!
- Ento vamos. Temos um longo trajeto pela frente e quero achar um bom lugar para assistirmos ao jogo.
O garoto despediu-se da me, que recomendou:
- Tenham cuidado! Fuja de confuso, Jairo. Sabe como ... Futebol pode acabar em briga, especialmente esse jogo que  deciso de campeonato. Temos visto tantas notcias 
de violncias!...
Jairo abraou a esposa, serenando-lhe o esprito:
- O que  isso, Marta? No se preocupe! Sei tomar conta de nosso filho. E, afinal, ele j  um rapazinho de sete anos! No final da tarde, estaremos de volta com 
uma pizza e refrigerante para comemorar a vitria do nosso time, no  Carlinhos?
O garoto sorriu. Marta, porm, no estava tranqila. Com o corao apertado, viu os dois se dirigirem at o ponto do nibus. No gostava de futebol, porm no tinha 
o direito de impedir Carlinhos de sair com o pai, especialmente para assistir a um jogo do Tricolor, do qual era torcedor fantico. Entrou em casa e logo, envolvida 
com o servio domstico, esqueceu-se do assunto. Era domingo, considerado dia de descanso, mas ela tinha uma pilha de roupas para passar. Rumo ao campo, Carlinhos 
ia eufrico. Tudo era novidade. Pela primeira vez, iria assistir a um jogo no campo. Estava acostumado a ver partidas pela televiso, porm agora era diferente. 
Aproximando-se do local, a multido impressionou o garoto. Como o pai tinha comprado os ingressos com antecedncia, entraram sem grande dificuldade, apesar da aglomerao 
no porto de entrada. 
- Viu filho, como foi bom ter comprado os ingressos antes? Esses torcedores querem entrar e no podem porque a lotao do estdio est completa.
Assim falando, o pai agarrou a mo do menino para no correr o risco de se perderem um do outro na multido, enquanto caminhava apressado. Carlinhos, quase arrastado, 
nem via por onde estavam andando, pois, como era pequeno, s enxergava homens grandes  sua volta. Quando afinal encontraram um bom lugar na arquibancada, Carlinhos 
sentou-se e s ento conseguiu olhar em torno. Prendeu o flego. A vista do estdio enorme, o barulho ensurdecedor da multido, as bandeirinhas tremulando, o colorido 
das torcidas, fizeram com que seu corao batesse mais forte. Era um espetculo impressionante!
- E ento, meu filho? O que acha?
Com os olhos midos de emoo, o menino olhou para o pai.
- Papai, eu jamais vou esquecer este dia em toda a minha vida. Obrigado. Acontea o que acontecer, papai, lembre-se de que este  o dia mais importante da minha 
vida.
Jairo percebeu que o filho estava emocionado. No olhar do garoto notou um brilho diferente como jamais tinha visto. Por um momento, sentiu como se aquilo fosse uma 
despedida, como se estivesse para perder seu filho. Que bobagem! - pensou. Depois, com um n na garganta, quase sem poder falar, disse:
- Isto no  nada, Carlinhos! Espere para ver quando o nosso time entrar em campo.
E, realmente, o garoto prendeu a respirao quando o Tricolor pisou no gramado. Fogos de artifcio estourando, a gritaria da torcida, que se tinha colocado de p, 
davam a impresso de que o estdio viria abaixo. O jogo comeou e Carlinhos concentrou-se na partida. No intervalo, o pai comprou um saco de pipocas e refrigerante. 
Era preciso relaxar. O time no estava jogando bem, embora o placar marcasse 1 a 0 para o Tricolor. No segundo tempo, a situao se complicou. Um jogador do Tricolor 
se desentendeu com outro do time adversrio, e a agressividade explodiu no gramado. Com os nimos  flor da pele, a violncia foi aumentando entre os jogadores, 
tanto que o rbitro, sem muita experincia, no teve pulso para controlar a situao. De repente, a um golpe mais forte, um jogador caiu no cho, desacordado. O 
juiz apitou, paralisando o jogo. Correu para verificar o que aconteceu. O jogador continuou imvel no meio do campo. Os demais jogadores se aproximaram e, de um 
lado e de outro, passaram a se agredir, acusando-se mutuamente. Golpes, bofetes, pontaps surgiram - agora sem a bola, com violncia explcita -, e a confuso armou-se. 
Os policiais responsveis pela segurana entraram em campo e cercaram os agressores. Prenderam alguns jogadores mais violentos e membros da torcida que tinham invadido 
o campo. Contudo, eram impotentes para conter a enxurrada de gente que, deixando as arquibancadas, derrubaram o alambrado e partiram para a briga dentro do gramado. 
A polcia pediu reforos. O jogo foi suspenso. No havia condio de dar prosseguimento  partida. Carlinhos estava assustado. Sem que se soubesse como, surgiram 
pedras e paus nas mos de torcedores, que se agrediam. De longe, Jairo e Carlinhos viam pessoas feridas, algumas sangrando, cadas no gramado; alm de outras, atropeladas 
pela multido enfurecida. Viam tambm inmeros torcedores sendo levados presos para os cambures da polcia. A ambulncia entrou em campo e o atendimento de urgncia 
comeou. Mas era precrio, ante a necessidade do momento. Mdicos e enfermeiros que estavam na assistncia, bem como outros torcedores, se apresentaram para socorrer 
os feridos, sendo que muitos destes, pela gravidade do quadro, eram encaminhados para o hospital mais prximo. Jairo, preocupado e inquieto pela segurana do filho, 
pegou Carlinhos pelo brao e, ao ver que a situao tendia a se complicar ainda mais, correu em direo  sada: 
- Vamos, meu filho! E perigoso ficar aqui. Vamos rpido!
O acesso  sada, porm, no estava fcil. Pelos corredores, a mesma confuso. Todo mundo querendo sair ao mesmo tempo, o que dificultava a passagem. Afinal, quando 
ultrapassaram os portes e chegaram  rua, Jairo respirou aliviado.
- Graas a Deus! - murmurou.
Andaram apressados at o ponto do nibus. Contudo, tambm na via pblica as coisas estavam agitadas. Tinham caminhado aproximadamente uns cem metros, quando viram 
alguns torcedores brigando; ao mesmo tempo, com alvio, notaram a polcia que chegava, trazendo reforos, com os cassetetes em punho, prontos para enfrentar os rapazes. 
Nesse momento, um dos contendores tirou uma faca que trazia escondida na bota; um dos policiais percebeu a manobra e, imediatamente, sacou o revlver e mirou o rapaz, 
que se virou. O policial acompanhou seu movimento e atirou. A vista do perigo, Jairo segurou com fora a mo do menino e, assustado, jogou-se no asfalto ao mesmo 
tempo em que gritou:
- Pro cho, meu filho!
Tarde demais, porm. O projtil atingiu Carlinhos em pleno peito. O menino caiu, desamparado. Num primeiro momento, Jairo no percebeu o que tinha acontecido. Depois, 
viu seu querido filho cado no cho, a seu lado, em meio a uma poa de sangue. Comeou a gritar desesperado:
- Socorro! Acudam! Meu filho foi atingido!
Os policiais ouviram os gritos, perceberam o drama ocorrido e apressaram-se a socorrer o garoto. Ambulncias chegaram, atendendo ao alerta que fora expedido pelas 
autoridades. A primeira delas foi interceptada pelos policiais, e Carlinhos prontamente foi conduzido para o hospital mais prximo, inconsciente. Jairo acompanhou-o 
na ambulncia. Desnorteado, confuso, no conseguia entender o que havia acontecido.  Carlinhos foi levado s pressas para o centro cirrgico. S restava aguardar. 
Na sala de espera, Jairo lembrou-se da esposa. Fez uma ligao, e, no muito tempo depois, a esposa chegou apavorada. Ao v-la, Jairo abraou-a com desespero.
- Perdoe-me, Marta. Foi culpa minha. No devia ter levado nosso filho ao jogo.
- Como est ele? - ela balbuciou num fio de voz. Limpando as lgrimas, Jairo respirou fundo e conseguiu responder:
- No sei. Ningum diz nada, nenhuma informao por enquanto. Temos de aguardar.
Marta entrou em estado de choque; nem pde falar. Apenas os olhos retratavam a dor que estava sentindo. No fundo, durante todo o dia, ela tinha se preparado para 
o que ia acontecer. Eles se acomodaram num banco e se dispuseram  longa espera. Duas horas depois, um mdico se aproximou.
- E ento, doutor? Como est nosso filho? - perguntou Jairo.
- Lamento. Ele no resistiu.
O mundo desabou sobre a cabea dos pais. O filho querido, a luz de seus olhos, no existia mais. Uma bala perdida pusera fim a uma vida plena de esperanas e alegrias. 
Aps o enterro, a vida do casal mudou radicalmente. No tinham mais razo para lutar, para viver, para trabalhar, para nada. Jairo e Marta, que eram to ligados, 
que possuam tantas afinidades, afastaram-se. J no encontravam mais satisfao na companhia um do outro. Na verdade, Marta no conseguia perdoar Jairo pela morte 
do filho. Considerava-o culpado por ter levado o menino ao campo, acusando-o diretamente pela morte do garoto. Jairo, por sua vez, tentava conversar com a esposa, 
explicar em detalhes o que tinha acontecido que ele fizera tudo para proteger o filho, que fora uma fatalidade, mas ela se recusava a falar com ele, a ouvi-lo. E, 
no ntimo, ele tambm se sentia culpado. Se no tivesse tido a infeliz idia de levar Carlinhos para assistir quela partida, tudo seria diferente. Acompanhariam 
o jogo pela televiso, como tantas outras vezes fizeram. Tranqilamente acomodados no sof da sala, comeriam pipocas, tomariam refrigerantes, e o filho querido ainda 
estaria vivo. Lembrava-se das cenas de violncia que presenciara; pessoas batendo em outras pessoas; jovens gritando, xingando e esmurrando outros jovens; mos que 
surgiram portando pedras, pedaos de concreto, de madeira e de metal - provavelmente da queda do alambrado - e que atacavam indiscriminadamente criaturas indefesas, 
que no estavam envolvidas na briga, que apenas observavam a confuso, tal como ele. Mas como as pessoas chegam a esse nvel de violncia? Nos seus momentos de reflexo, 
Jairo lembrava-se dos dias em que ele tambm tinha dito palavres, xingado a me do juiz e dado vazo a instintos brutais, colocando para fora tudo o que trazia 
dentro de si, enfim comportando-se exatamente como qualquer outro torcedor. E o mais grave  que at se vangloriava disso na roda de amigos, ou mesmo em famlia, 
afirmando que essa atitude era positiva porque descarregava as tenses. Dizia tambm que depois voltava para casa mais tranqilo e em condies de enfrentar os problemas 
do dia-a-dia. Reconhecia que nesse ltimo jogo fora diferente porque, como estava acompanhado de Carlinhos, no quis dar mau exemplo ao filho, comportando-se de 
maneira civilizada. S por isso. Agora, refletindo sobre o assunto, pensava se tambm no havia colaborado para que a violncia eclodisse no campo. No fundo, todos 
haviam colaborado inclusive ele. Talvez no nessa oportunidade, mas em muitas outras. E os cnjuges cada vez mais se afastavam um do outro, ficando em cantos diferentes 
da casa, entregues aos prprios pensamentos, chorando e lembrando-se do filhinho que to cedo os tinha deixado. Os amigos mais chegados se preocupavam com a situao, 
mas nada podiam fazer para ajud-los. E alm de todo o sofrimento, ainda havia a imprensa, que no lhes dava trguas, batendo  porta da casa, tocando a campainha, 
ou procurando Jairo na empresa onde ele trabalhava. Queriam detalhes, lembrar o acontecimento, expor ao pblico a dor dos pais. Marta e Jairo no podiam sair de 
casa, que topavam com os reprteres. J tinham dado entrevistas, falado do assunto, mas eles queriam mais, sempre mais. 
Certo dia eles no conseguiram impedir que esses profissionais entrassem em sua casa. A moa que passara a ajudar Marta nos servios domsticos - filha de uma vizinha 
que se condoera da situao dela, depressiva e incapaz de fazer servio algum -, jovem e inexperiente, no conseguiu evitar a invaso. Diante do inevitvel, Jairo 
e Marta aceitaram voltar ao assunto. Sentaram-se na sala, lado a lado. Os reprteres, com microfones e cmeras funcionando, flashes espocando de todos os lados, 
comearam a entrevista. 
- Como esto se sentindo? - perguntou um deles, mostrando total insensibilidade diante do sofrimento e da tragdia que se abatera sobre o casal.
Jairo devolveu a pergunta, irritado:
- Como acha que estamos nos sentindo? - Por que acha que tudo isso aconteceu? Digo a morte de Carlinhos e tudo o mais? - contra-atacou o reprter, sem parecer ter 
ouvido a pergunta do dono da casa. 
Naquele instante, Jairo se lembrou de todas as reflexes que tinha feito desde a morte do filho e, com muita gravidade, considerou:
- Por falta de educao. Nossa sociedade no foi educada para a paz. As famlias no se preocupam em passar valores morais para os filhos, conscientizando-os de 
que devem agir de forma diferente, respeitando o prximo.
- De quem  a culpa, ento? Do governo? - indagou outro.
- De todos ns. Do governo tambm, claro, por no fazer a parte que lhe cabe. Mas, a culpa  de cada um de ns, pelas atitudes que tomamos, pelo comportamento que 
assumimos perante o semelhante. Cada pessoa  uma potncia em si mesma e dela depende modificar o mundo em que vive.
- Por que voc levou Carlinhos quele jogo?
- Ele nunca tinha assistido a uma partida no campo e gostava muito de futebol.
Acreditando que fosse seguro, eu o levei, contra a opinio de minha esposa, que no desejava que ele fosse. O reprter virou-se para Marta:
-  verdade que a senhora no queria que Carlinhos fosse ao campo?
- Sim.  verdade.
- Por que, dona Marta?
- No sei ao certo. No gosto de futebol. Mas no foi s por isso. Na verdade, tive a impresso de que alguma coisa iria acontecer. Estava com o corao apertado 
e sentindo uma angstia muito grande.
- A senhora acha que tudo isso j estava previsto, ento?
- No sei. No posso responder a essa pergunta.
- Jairo, quais foram as ltimas palavras de seu filho?
O pai ficou pensativo. Buscando na memria, voltou no tempo at o momento em que ele e Carlinhos estavam no campo, sentados na arquibancada, e ele percebia a emoo 
do filho diante do estdio repleto. Lembrou-se de que perguntou se Carlinhos estava gostando, e a resposta dele veio ntida  sua mente:
- Papai, eu jamais vou esquecer este dia em toda a minha vida. Obrigado. Acontea o que acontecer, papai, lembre-se de que este  o dia mais importante da minha 
vida.
Jairo enxugou uma lgrima e completou:
- No me lembro quais foram as ltimas palavras de meu filho, porm estas foram as mais significativas. Marta olhou para o marido, espantada, e comeou a chorar. 
O reprter ficou parado, sem ao. Depois, voltou a perguntar:
- Interessante. Novamente surge a idia de que algo estava previsto. Como se Carlinhos soubesse o que estava para acontecer. Vocs acreditam nisso?
Jairo ergueu-se, irritado e descontente.
- No acreditamos em nada! Agora, basta! Vejam o estado de minha esposa! Tenham piedade!
Os reprteres insistiram mais um pouco, porm Jairo e Marta deixaram a sala, e a mocinha indicou-lhes a porta da casa. Nos aposentos do casal, Marta continuava chorando. 
Jairo, diante da janela, as mos nos bolsos, olhava o cu que se descortinava sem dizer uma palavra. Afinal, rompendo o silncio, ela indagou:
- Jairo, voc nunca tinha me falado sobre as ltimas palavras de Carlinhos.
Ele virou-se lentamente, fitando a esposa.
- Na verdade, no foram as ltimas palavras dele, Marta, porm as mais importantes.
- Por que nunca me contou?
- Voc nunca quis saber.
Marta enxugou os olhos, pensativa. Era verdade. Sempre que o marido tentava falar sobre aquele dia, relatar como tudo acontecera, ela se recusava a ouvir. Mas agora 
era diferente. Tinha de saber.
- Acredita que ele sabia que ia morrer?
- No sei. Pode ser.
Permaneceram calados por algum tempo. Depois, Marta voltou a perguntar um tanto constrangida:
- Voc acredita em vida aps a morte? Isto , acha que nosso filho pode estar em algum lugar?... Ele era um garoto to especial!
Jairo deixou-se cair na poltrona com a cabea entre os braos. Nunca tinham falado sobre esse assunto. Ambos no eram ligados a religio.
- Eu no sei Marta. Mas gostaria muito de poder acreditar.
- E se procurssemos saber?
- Como assim? Com quem?- Bem, existem pessoas que acreditam que os mortos continuam vivos e se comunicam conosco, voc sabe.
- Sei. Os espritas.  uma possibilidade.
- Sim! Minha amiga Flora  esprita. Podemos procur-la.
- Est bem. Faa o que achar melhor.
Aquela noite eles dormiram mais tranqilos. Tinham resolvido buscar informaes com Flora, e uma suave esperana comeou a luzir em seus coraes.


CAPTULO 11 - NOVOS CONHECIMENTOS

"Aquele que concentra seus pensamentos na vida terrena  como um homem pobre que perde tudo o que possui e se desespera, ao passo que aquele que cr na vida futura 
 semelhante a um homem rico que perde uma pequena soma sem se perturbar."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 2, ITEM 6)

Na manh seguinte, Marta telefonou para sua amiga Flora, e combinaram um encontro para aquela mesma tarde. Era sbado e teriam tempo livre. Flora ficou muito satisfeita 
com a ligao de Marta. Por ocasio do falecimento de Carlinhos, condoera-se da tragdia que se abatera sobre o lar da amiga e, desde que recebera a trgica notcia 
e tambm durante todo o velrio, no tinha se afastado do casal, procurando ajud-los. Na impossibilidade de fazer alguma coisa, j que o fato era irreversvel, 
tentava consol-los com sua simples presena como se dissesse: Se precisarem de mim, estou aqui. Foi com profunda tristeza que acompanhou o fretro at a sepultura 
e que se despediu dos amigos, aps o enterro, no cemitrio j vazio. Depois, nos dias subseqentes, tinha tentado falar com Marta e Jairo, sem resultado. Sentiu 
que os amigos estavam fugindo dela, evitando sua presena; era como se a dor deles fosse to grande, to intensa, que precisavam ficar sozinhos, isolados de todos. 
Sabia que essa reao deles no era apenas com ela; outros amigos comuns reclamavam tambm. Ento, Flora resolveu aguardar, consciente de que s o tempo poderia 
amenizar-lhes o sofrimento. Assim, ao leve toque da campainha, foi com imensa alegria que abriu a porta para receber os amigos. Abraaram-se, trocaram algumas palavras 
gentis e, depois, conduziu-os at a sala de estar. Havia dois meses Flora no os via. Achou-os emagrecidos, plidos; naquele breve perodo haviam envelhecido anos.
- Que satisfao receb-los aqui em casa! Estava com saudades.
- Sabe como , Flora, depois da morte de nosso filho, perdemos o cho - justificou-se Marta, com lgrimas.
- Entendo perfeitamente o que esto sentindo, Marta. Porm, a vida continua e precisam prosseguir vivendo. Tenho certeza de que Carlinhos no gostaria de v-los 
tristes e desanimados.
Jairo trocou um olhar com Marta e disse:
-  exatamente por causa dele que estamos aqui hoje, Flora. Sabemos que  esprita e gostaramos que, se possvel, nos desse algum esclarecimento. Diga-me, o que 
acontece com aqueles que morrem? Voc falou como se nosso filho continuasse vivo. Existe essa possibilidade?
Com firmeza e seriedade, Flora considerou:
- Sem dvida, Jairo. Em primeiro lugar, a morte  uma iluso. No existe a morte.
Aqueles que partem desta vida para outra realidade continuam vivos, mais vivos do que ns, uma vez que a verdadeira vida  a espiritual.
- Mas... Como assim? - gaguejou ele.
- Normalmente, as pessoas pensam que o corpo fsico  tudo. Na verdade, o corpo de carne  apenas uma vestimenta que o esprito usa durante certo perodo e que abandona 
quando no serve mais. Somos todos espritos, ou almas, criados por Deus, transitoriamente vestindo um corpo. No  o corpo que pensa que aprende que ama.  o esprito. 
O corpo material s tem vida orgnica. Jairo estava perplexo.
- Mas, o que voc est nos dizendo  impressionante!
- No entanto,  a mais pura verdade.
- E de onde lhe vem essa certeza? - indagou Marta.
- Da reflexo, do estudo, da anlise dos fatos da vida e da prpria natureza.
- Explique-se melhor - pediu Jairo.
Flora pareceu concentrar-se, como se estivesse procurando as palavras, e prosseguiu:
- Alguma vez vocs j pensaram por que teramos sido criados? De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos fazendo aqui na Terra? Sim, porque certamente o Criador 
deve ter um propsito. Se ns, meros habitantes deste planeta, seres imperfeitos, nada fazemos sem um objetivo, quanto mais Deus, que  todo amor, sabedoria, misericrdia, 
bondade, justia e muito mais! Enfim, Ele, que  a suprema perfeio, teria criado o universo, e a ns, seres inteligentes, sem uma finalidade?
O casal trocou um olhar surpreso, como se jamais tivesse cogitado essas coisas. Jairo abriu um sorriso tmido.
- Flora, desculpe nossa ignorncia. Marta e eu nunca fomos muito "ligados" em religio, voc sabe. Somos catlicos por tradio, porm raramente vamos  igreja. 
Agora, voc nos abre um mundo novo no qual jamais pensamos. Quer dizer ento que a vida continua depois da morte?!...
- Com certeza! Todavia, estranho seu espanto, Jairo, uma vez que a religio catlica,  qual voc afirma pertencer, prega a imortalidade! A nica diferena, nesse 
caso, em relao  Doutrina Esprita,  que o Catolicismo admite um destino inexorvel, sem possibilidade de mudana para as criaturas. Aqueles que morrem vo para 
o cu, para o inferno ou para o purgatrio, segundo o bem ou o mal que plantaram aqui na Terra, enquanto ns acreditamos que aqueles que partem desta vida para outra 
apenas mudam de endereo. Continuam vivendo, mais ou menos da mesma maneira que o faziam aqui, uma vez que ningum se transforma de repente. A vida espiritual  
uma continuidade da existncia terrena, na qual prosseguimos aprendendo e evoluindo rumo  perfeio. Carlinhos deve estar sendo muito bem amparado, recebendo amor 
e carinho de amigos e familiares que partiram antes. Provavelmente, est com a vov Efignia.
- Minha av! - exclamou Marta.
- Por que no? Sua av  uma criatura extraordinria, lembro-me bem dela, Marta.
- Sempre foi muito boa, de sentimentos elevados e ajudava a todos os que a procuravam. S fez amigos, todos sentiram sua falta. Est no mundo espiritual h vrios 
anos, e demonstrava um carinho especial pelo bisneto. Acho natural que tenha se preocupado em receb-lo na nova vida e em ampar-lo, j que os pais ficaram na Terra. 
No  o que fazemos quando algum viaja para algum lugar e tem parentes nessa cidade?
Marta estava comovida com a lembrana da av querida. Seus olhos brilhavam de emoo.
-  verdade!  verdade! Voc faz com que as coisas paream to simples e lgicas! E como eles vivem?
- Da mesma maneira que aqui. L existem cidades, com casas, jardins, escolas e tudo o mais. Carlinhos, aps adaptar-se  vida espiritual, com certeza far amigos, 
ir  escola, ter divertimentos, brincadeiras e passeios, como qualquer criana.
- Tem certeza? E tudo to inusitado!
- Como voc mesma disse,  lgico. Acha que Deus teria nos dado todo o conforto aqui na Terra e, no Alm, no tivesse nada? Na realidade, nossa vida aqui  que  
uma cpia imperfeita de tudo o que existe por l. Porque, repito, a verdadeira vida  a espiritual.
Jairo e Marta estavam perplexos, mas animados. Era muita informao de uma s vez. Trocaram um olhar, depois Jairo respirou fundo e perguntou:- Onde podemos encontrar 
esses conhecimentos? Gostaramos de saber mais sobre o assunto. Flora sorriu:
- E fcil. A Doutrina Esprita coloca  nossa disposio uma quantidade enorme de informaes que nos foram trazidas pelos espritos superiores, e que um emrito 
professor francs codificou, adotando o pseudnimo de Allan Kardec, para no influenciar as pessoas com seu nome verdadeiro, uma vez que ele era muito conhecido 
na Frana, tendo j vrias obras publicadas. Afirmo-lhes, porm, que a Doutrina Esprita nada inventou, nada criou. Apenas nos trouxe verdades eternas e reconhecidas 
desde a mais remota Antigidade, mas que os homens da nossa poca ignoravam. Vou emprestar-lhes alguns livros.
Flora pediu licena e foi at o interior da casa, voltando em seguida com dois volumes, que entregou ao casal.
- Aqui esto as obras sobre as quais lhes falei. De incio, O Livro dos Espritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo, ambos de Kardec. O primeiro, porque nele encontraro 
o embasamento lgico para os fenmenos da vida, e o segundo, porque traz a consolao de que esto precisando por intermdio da parte moral do Evangelho de Jesus. 
Estarei  disposio de ambos para qualquer esclarecimento que precisarem.
Jairo, mais afeito a leituras, abriu O Livro dos Espritos e correu a vista pelo ndice. Cada vez mais surpreso,  medida que lia arregalava os olhos.
- Estou impressionado. Aqui trata de assuntos muito srios.
- Exatamente. Tenho certeza de que vo gostar. Leiam, e depois que se inteirarem do contedo, voltaremos a conversar. Se desejarem, poderemos at estudar juntos. 
Eu freqento um curso num centro esprita que fica aqui perto.
- Vocs tm cursos? Nunca pensei! - disse Jairo.
- Eu sei o que voc pensava, Jairo - afirmou Flora, sorrindo. - Julgava que Umbanda, Candombl e outras seitas, que representam o sincretismo afro-brasileiro, fossem 
Espiritismo. Puro engano. Apesar do respeito que temos por todas as expresses religiosas, o Espiritismo  a doutrina codificada por Allan Kardec no sculo dezenove, 
na Frana. Fazemos cursos, sim, porque nossa doutrina baseia-se na razo, e liberta nossa conscincia pelo estudo, alargando-nos a viso.
Nesse momento, a criada entrou na sala e avisou que o lanche estava sendo servido.  Flora conduziu seus amigos at a copa, onde passaram o resto da tarde conversando, 
tomando ch e se deliciando com as guloseimas que lhes tinham sido carinhosamente preparadas.  Quando se despediram da dona da casa, Jairo e Marta estavam completamente 
diferentes de quando haviam chegado. Tinham o semblante mais tranqilo e o corao cheio de esperana. E uma constatao surpreendente: naquelas horas haviam esquecido 
completamente suas tristezas. Era a primeira vez que isso acontecia desde a morte de Carlinhos. Dois dias depois, voltaram a se encontrar. Marta e Jairo mostravam-se 
encantados com os livros e, como no poderia deixar de ser, cheios de questionamentos.
- H muitas coisas que no conseguimos entender direito, Flora, certamente porque nos falta embasamento no assunto. Pensamos bem e gostaramos de freqentar aquele 
curso sobre o qual voc nos falou. Ser possvel?
- Sem problemas. Sempre temos novas turmas comeando. Vamos combinar um dia para vocs conhecerem a casa esprita. Isso  importante para saberem onde iro estudar. 
Se gostarem do ambiente e sentirem afinidade pelas pessoas, tudo ficar mais fcil.
- Interessante! - exclamou Marta.
- E essencial tambm. Se no gostamos do ambiente nem das pessoas com as quais iremos conviver, o trabalho em conjunto fica difcil. No nos sentiremos bem. Amanh 
 dia em que teremos uma palestra e depois, a aplicao de passes. Gostariam de ir?
- Claro. Com prazer - concordaram ambos.
- timo. Como a reunio comea s vinte horas, eu e o Ronaldo passaremos s dezenove e trinta para peg-los.  bom chegarmos antes para vocs irem se adaptando ao 
ambiente.
No dia seguinte, Marta e Jairo, acompanhados de Flora e Ronaldo, foram ao centro. Estavam cheios de expectativa, ansiosos. Nunca tinham entrado numa casa esprita 
e no sabiam o que iam encontrar l. Logo, porm, se tranqilizaram. Era um salo normal de palestras, com as cadeiras enfileiradas simetricamente; na frente, ao 
centro, uma mesa coberta por uma toalha limpa e clara, na qual se via um arranjo de flores, uma jarra com gua e um copo, e alguns livros. Atrs da mesa, na parede, 
apenas um quadro negro. Portanto, como Flora afirmara, era um local de estudos. O ambiente sereno, a msica suave que se espalhava no ar encheu-os de bem-estar e 
paz, induzindo  elevao mental. Iniciando a reunio, um homem no verdor dos anos fez uma prece. Conclamou os presentes a elevar o pensamento e, com palavras singelas, 
buscou a figura meiga de Jesus de Nazar e solicitou seu amparo para todos os presentes e suas famlias, o que aumentou sobremaneira o bem-estar que j sentiam. 
Nunca tinham ouvido uma prece to simples e ao mesmo tempo to bela, em que a inteno e o corao da pessoa extravasavam na splica, emocionando-os. O tema da palestra 
programada para aquela noite era a necessidade de transformao moral,  luz do Evangelho do Cristo, para alcanar a felicidade futura que todos almejam, abordado 
com bastante competncia pelo expositor, um senhor de cabelos brancos e fisionomia afvel. Acompanharam com interesse a exposio. Depois, tomaram passe e gua fluidificada. 
Quando as atividades terminaram, Flora apresentou-os ao dirigente da casa, Euclides, falando sobre o desejo de ambos de iniciar os estudos oferecidos. O simptico 
senhor deu-lhes as boas-vindas e passou-lhes o dia e horrio do incio do curso. Algumas outras pessoas se aproximaram risonhas e simpticas. Eram amigos de Flora 
e de Ronaldo, que foram apresentados para os recm-chegados. Alguns iriam comear o Curso Bsico de Espiritismo, como introduo ao estudo de O Livro dos Espritos 
e Marta e Jairo j se sentiram entrosados com os novos colegas. Passaram alguns minutos agradveis conversando, depois foram at a livraria, cuja porta dava para 
a entrada do salo, gastando mais algum tempo a examinar os livros.
- Estou impressionado - afirmou Jairo. - Nunca pensei que existissem tantas obras espritas!
Ronaldo sorriu:
- E voc ainda no viu nada, meu amigo. Aqui temos uma pequena amostra de ttulos, porque nossa livraria  pequena.
Jairo escolheu alguns livros que lhe tinham sido recomendado por Ronaldo e, em seguida, despediram-se dos companheiros do centro. Por sugesto dos maridos, foram 
a um restaurante jantar. Estavam com fome e seria oportunidade de continuarem juntos, conversando. Era tarde quando se separaram. Marta e Jairo entraram em casa 
com os pensamentos elevados e com excelente disposio de nimo. 


CAPTULO 12 - SUPERAO DO SOFRIMENTO

"Deus consola os humildes e d a fora aos aflitos que a imploram. Seu poder cobre toda a Terra e, por toda a parte, ao lado de cada lgrima, Ele colocou um alvio 
que consola. O devotamento e a abnegao so uma prece contnua e contm um ensinamento profundo. A sabedoria humana reside nessas duas palavras. Possam todos os 
Espritos sofredores entender esta verdade, ao invs de protestar contra as dores, os sofrimentos morais que aqui na Terra so a vossa herana." 
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 6, ITEM 8)

Desse dia em diante, iniciou-se uma nova vida para o casal. Vincularam-se ao centro esprita e passaram a freqentar os cursos oferecidos, aprendendo cada vez mais. 
Um ano depois estavam envolvidos com a assistncia social e participando do trabalho com crianas e jovens na periferia da cidade. Felizes, tinham muitos amigos 
e vida ativa e movimentada. Lembravam-se sempre do querido filho, Carlinhos, sem dvida, mas j no era com aquela dor e o desespero dos primeiros meses. Sentiam 
falta do filho, sim, no entanto tinham a convico de que ele estava bem, feliz e adaptado  vida na espiritualidade e, consoante os conhecimentos recebidos, evitavam 
incomod-lo com pensamentos negativos. Sabiam que, quando fosse possvel, teriam notcias dele. Precisavam ter pacincia e esperar. Certo dia, Jairo comeou a lembrar, 
mais do que nunca, de Carlinhos. Era como se ele estivesse ali na casa, com eles. Era uma tera-feira, dia da semana consagrado ao Evangelho no Lar. Sentados em 
torno da mesa, aps a leitura do texto evanglico, Jairo sentiu muita emoo e comentou com a esposa:
- Querida, hoje, de uma maneira muito forte estou sentindo a presena de Carlinhos aqui entre ns. E como se eu o estivesse vendo sentadinho naquela cadeira ali, 
participando da nossa reunio.
Marta, comovida, concordou com ele:
- Sinto a mesma coisa, Jairo. Tenho certeza de que nosso filhinho est aqui conosco.
Comentaram o texto do Evangelho e, depois, encerraram com uma prece, agradecendo o amparo do Alto e as visitas que porventura tivessem recebido naquela noite e, 
especialmente, a presena do filho querido. Fizeram um lanche ligeiro e se recolheram mais cedo para dormir, continuando a sentir a mesma emoo. Pouco depois, Jairo 
teve a sensao de ter passado por um sono e estar acordando. Levantou-se, olhou em torno e estranhou ao ver seu corpo deitado, adormecido. Viu o livro que estava 
lendo, e que escorregara de suas mos, cair no cho. Ao seu lado, na cama, a esposa. Lembrou-se das informaes que recebera e entendeu que estava desprendido em 
esprito, fora do veculo corpreo. No teve tempo, porm, de estudar a situao. Olhou para o lado direito e viu o filho parado, sorridente, se divertindo com a 
surpresa do pai. 
- Carlinhos! Meu filho!
- Papai! Estou aqui, papai!
Aproximaram-se e trocaram um grande, um longo abrao, cheio de amor e saudade. 
- Meu filho, que alegria! Bem que percebemos sua presena hoje  noite. Como voc est? Est timo, posso ver. Mais crescido, mais bonito at.  Nesse instante, Marta, 
em esprito, aproxima-se tambm desprendida do corpo, surpresa. Entre lgrimas, abraa o filhinho com infinito amor:
- Meu filho! Meu querido filho! Quanta saudade! Deixe-me ver. Voc est muito bem!
Conversam carinhosamente. Fazem perguntas e o garoto sorri:
- Estou muito bem mesmo, papai e mame. Estudo e aprendo bastante, como vocs. Vov Efignia  meu anjo bom e tem-me ensinado muito. Fico feliz com o rumo que as 
coisas tomaram. Vocs no imaginam quanto bem me fez se ligarem  casa esprita. Foi a vov que se esforou para que vocs buscassem ajuda com a tia Flora, porque 
minha situao aqui na espiritualidade era muito difcil. Eu estava sendo atingido pelo sofrimento de vocs. Tive vrias recadas, o que dificultou minha recuperao. 
Porm, tudo passou, estou bem e vocs tambm, isso  o que importa.
Num timo, enquanto ouvia o filho falar, pelo pensamento de Jairo passou a idia de que estava tudo bem, mas se no o tivesse levado ao campo nada teria acontecido 
e Carlinhos ainda estaria encarnado, com eles, em casa. Passando a mo pelo brao do pai, Carlinhos considerou, mostrando que identificara o pensamento paterno:
- Paizinho, no se sinta culpado. Esquea esses pensamentos porque ningum teve culpa. O meu tempo tinha chegado ao fim. Eu precisava regressar  verdadeira vida. 
Por motivos que mais tarde saberemos, eu tinha de passar por isso. No se sinta culpado. Tinha de acontecer.
Abraam-se novamente. Fitando-os com muito amor, Carlinhos afirma, como que se despedindo:
- Papai! Mame! Continuem trabalhando e ajudando queles que precisam. Especialmente, se esforando para divulgar a necessidade da paz e da fraternidade entre todas 
as pessoas. Vov Efignia contou que ns tivemos problemas em outras existncias por incentivar a guerra, a violncia. Agora,  o momento de reconstruir. Lembrem-se 
disso. Que Jesus os proteja sempre. Qualquer dia desses, eu levarei vocs para ver onde vivo. At breve!
Carlinhos desapareceu com um aceno; Jairo e Marta acordaram no leito, debulhados em lgrimas, experimentando uma alegria intensa e indescritvel, como nunca tinham 
sentido. Olharam um para o outro, e perceberam que ambos estavam se recordando de tudo o que tinha acontecido naquela noite memorvel. Abraaram-se e ficaram assim, 
mergulhados nas lembranas, sem trocar palavras desnecessrias. Na manh seguinte despertaram com a recordao clara do encontro com o filho querido, porm no conseguiram 
reter integralmente o teor da conversa que tiveram. Todavia, Jairo acordou com a convico de que precisavam fazer alguma coisa para melhorar a sociedade.  Durante 
o caf-da-manh, comentaram sobre o encontro com Carlinhos, mantendo a mesma alegria e otimismo. Jairo, pensativo, falou para a esposa:
- Marta, depois de tudo o que aprendemos das circunstncias em que ocorreu a desencarnao de nosso filho, sinto que precisamos comear a conscientizar as pessoas 
da necessidade da paz. No ntimo, sinto que este  o desejo de nosso filho.
- Tambm penso assim, querido. No fundo, j trabalhamos nesse sentido, quando ajudamos crianas e jovens a vencer os vcios, quando orientamos as famlias a educar 
seus filhos com base nos preceitos evanglicos.
- Concordo com voc. No entanto, sinto que nossa ao tem de ser mais direcionada por meio de palestras em escolas, em grupos da periferia, em clubes de mes e, 
tambm, aglutinando os jovens por meio do esporte, do lazer, da dana, da msica e das artes de modo geral. E preciso dar-lhes tambm uma profisso, em que tero 
a oportunidade de ganhar seu prprio sustento, e crescer como pessoa. Estou com a cabea repleta de idias! 
 como se elas surgissem de repente, impulsionando-me para frente, para o trabalho. Ser importante criarmos um grupo de apoio e, para isso, teremos de contar com 
a Flora, o Ronaldo e com o pessoal da casa esprita. O entusiasmo de Jairo era contagiante. Continuaram conversando. Na espiritualidade, Carlinhos, vov Efignia 
e outros amigos ali estavam satisfeitos e sorridentes. Com os pensamentos elevados ao Alto, agradeceram a Deus a nova oportunidade de trabalho que surgia e que seriam 
as sementes de bnos futuras. Diante das adversidades, dos problemas e dos obstculos que a vida nos apresenta, gerando no raro tristezas, amarguras, dores e 
sofrimentos acerbos, busquemos o Pai Maior, sabendo que Ele deseja sempre o bem de seus filhos e procuremos analisar e entender o que essa situao significa para 
nosso crescimento espiritual. Se acreditarmos que Deus  perfeio infinita, no podemos conceb-lo sem a totalidade de seus atributos, ou pelo menos, aqueles que 
j temos condies de identificar, isto , Deus  eterno, infinito, imutvel, imaterial, nico, onipotente, soberanamente justo e bom. Se Deus  perfeito, tudo o 
que Ele faz  correto e est sujeito a leis naturais e imutveis, porque provenientes do Criador. Ento, tudo o que acontece se submete  Lei de Ao e Reao que 
vigora no universo. Cristo ensinou que cada um receber de acordo com as prprias obras. Plantando, colheremos. As sementes que lanarmos  terra do nosso corao 
produziro as bnos ou os malefcios correspondentes s nossas aes. A Doutrina Esprita nos ensina que nossas aflies podem ser de duas espcies: relativas 
 existncia atual ou s existncias anteriores. Quando no encontramos razes para nosso sofrimento na vida presente,  porque elas se vinculam a encarnao anterior, 
caso contrrio Deus no seria justo. Desse modo, podemos entender a importncia do conhecimento esprita, que nos aclara a mente e dilata os horizontes. Compreendemos, 
ento, a necessidade de observar a lei, admitindo nossos erros e entendendo que somente a reparao poder nos libertar do sofrimento. Assim, os desafios da existncia 
so oportunidades que o Senhor nos concede para aprendizado e elevao, permitindo-nos tambm refazer relacionamentos afetivos danificados pela mgoa, pelo rancor 
ou pelo dio. Somente a vivncia dos postulados cristos mostrar que, intimamente, j incorporamos os ensinamentos morais evanglicos. E, somente estando em paz 
com ns mesmos  que poderemos auxiliar a sociedade em que vivemos, repassando, com nossos exemplos, a verdadeira paz e tranqilidade para todos os que convivem 
conosco. Comeando no ambiente familiar, pela melhoria das relaes com os entes queridos; pelo exerccio da pacincia, da tolerncia e do dilogo amigvel, tornando 
a vida de todos mais agradvel e carinhosa, modificando o tnus vibratrio do nosso lar e gerando o conseqente bem-estar de todo o grupo. Do ambiente domstico, 
passaremos a entender e a respeitar os vizinhos, os colegas de trabalho, os transeuntes das ruas, os outros motoristas no trnsito, e em todos os lugares onde ns 
formos chamados a colaborar, inclusive na casa esprita. Nela nos portaremos como cristos e espritas que temos a honra de nos considerar. O exerccio da fraternidade, 
da solidariedade e do amor, como Jesus exemplificou, far com que o ambiente a nosso redor se transforme, gerando emanaes de luz. As bnos se espalharo e, por 
nosso exemplo, seremos agentes de mudana da sociedade em que vivemos, modificando os grupos dos quais faamos parte e estendendo, por meio das nossas vibraes, 
a paz e o amor entre todas as pessoas. Somente assim nossa sociedade poder se transformar para melhor, e ns viveremos num mundo mais pacfico, fraterno e igualitrio. 
Para que isso ocorra, entretanto,  imprescindvel que cada um faa a sua parte. "O servo que souber da vontade do seu amo e que, entretanto, no estiver pronto 
e no fizer o que dele queira o amo, ser rudemente castigado. Mas aquele que no tenha sabido da sua vontade e fizer coisas dignas de castigo menos punido ser. 
Muito se pedir quele a quem muito se houver dado e maiores contas sero tomadas quele a quem mais coisas se haja confiado", assevera Jesus, alertando-nos para 
a responsabilidade que assumimos perante o conhecimento adquirido e as conseqncias geradas por nossos pensamentos, palavras e atos. A sabedoria divina tem nos 
envolvido com bnos sem fim, tornando-nos a existncia mais fcil, protegendo-nos das dificuldades, aparando-nos os problemas, fortalecendo-nos em momentos de 
aflio, consolando-nos nas horas de sofrimento. Todavia, essas ddivas tm um preo. Deus nos ajuda para que, por nossa vez, possamos ajudar a outros que necessitam 
mais. Assim como recebemos, temos de aprender a doar de ns mesmos.  dessa forma que a humanidade cresce, amadurece e se aperfeioa... Pelos esforos daqueles que 
mais tm em conhecimento, criatividade, elevao moral, e que servem de parmetros para os que vm atrs. Por essa razo, em todas as pocas, Deus sempre enviou 
missionrios  Terra, que pudessem servir de modelo  populao, ajudando-a na absoro de conceitos mais elevados e proporcionando novos saltos para o progresso. 
Jesus Cristo foi o mais elevado esprito que veio ao planeta trazer as leis de Deus, a benefcio da humanidade. Na atualidade, pelas bnos da Doutrina Esprita 
e das informaes dos espritos superiores, que Allan Kardec codificou, possumos condies de transformar a sociedade. Basta que o desejemos e nos esforcemos para 
isso. Todos ns estamos sendo chamados a colaborar, executando nossa parte e disseminando os valores do Evangelho de Jesus e as importantes revelaes que o Consolador 
Prometido trouxe  Terra. Nosso planeta, no futuro, ser um mundo de paz, sem violncia, agressividade, maldade, sem misria, sem doenas. Onde cada um se preocupar 
com o prximo, de modo que nada lhe falte, e onde o amor direcionar nossas atitudes para o bem. Pense nisso.


CAPTULO 13 - MOMENTOS DE DECISO

"O aborto provocado  um crime, qualquer que seja a poca da concepo?"   "H sempre crime quando se transgride a Lei de Deus. A me, ou qualquer outra pessoa, 
cometer sempre um crime ao tirar a vida de uma criana antes do seu nascimento, porque  impedir a alma de suportar as provas das quais o corpo devia ser o instrumento."
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 358)

Caminhando pelas ruas, Marina observava os edifcios. O local era o pior possvel: Ruas feias, sujas, construes velhas e prdios pichados, caindo aos pedaos. 
Olhou novamente o pequeno papel amassado que tinha nas mos e confirmou o endereo: Rua Santa Marta, 225. Por onde passava, porm, no havia nenhuma placa ou indicao 
com o nome das ruas. Pediu ajuda a um moo, que a informou:
- Siga reto e, na terceira travessa, vire  direita e j estar na rua que procura.
Marina estava to nervosa que nem se lembrou de agradecer a gentileza do rapaz. Apressou o passo e, em dez minutos estava defronte ao nmero. Parou. Era um sobrado 
velho e de pintura indefinvel. No havia placa na porta. Mas o endereo estava certo, era aquele mesmo. Enchendo-se de coragem, entrou. Na sala, escura e abafada, 
a secretria atendia de m vontade, mascando chicletes. Aproximou-se do balco.
- Sou Marina Cintra e tenho hora marcada com o doutor Adelmo.
- Todas aqui tm a mesma hora marcada, moa. O atendimento  pela ordem de chegada.
- Quanto devo pagar?
A atendente disse o valor, que Marina no discutiu. Qualquer que fosse o preo, ela pagaria. Estava preparada.
- H muita demora?
- E isso importa? Vai demorar, sim. Sente-se e espere. A prxima!
Diante do pouco caso da arrogante secretria, Marina achou melhor no dizer mais nada. Procurou um lugar vago e sentou-se, apesar da repugnncia que lhe causou o 
sof sujo, malcheiroso e esburacado. 
Sempre tinha primado pela limpeza e aquele lugar deixava-a horrorizada. Olhou em torno. Contou mentalmente: seis mulheres aguardavam naquela sala, fora ela. Todas 
eram jovens; duas mal tinham entrado na adolescncia. S ento se deu conta de que em todos os olhares havia o mesmo desespero, o mesmo medo, a mesma ansiedade. 
Entendeu perfeitamente a inteno da secretria quando disse e isso importa?" Ela no ignorava que cada uma das infelizes que estava ali tinha urgncia em resolver 
seu problema, e no sairia sem solucion-lo. Pegou os restos de uma antiga revista de pginas desfolhadas e tentou fixar-se na leitura, j que teria de esperar. 
A sala no tinha ventilao e o calor era insuportvel. Com a revista nas mos, o pensamento vagava sem rumo e no conseguia fixar-se na leitura. Com extrema dificuldade 
havia se decidido pela interrupo da gravidez. No tinha sada. O rapaz com quem ela estava se relacionando, assim que soube da novidade, desapareceu. Seus pais 
jamais admitiriam uma filha em casa com um beb sem pai e dependente deles. Marina era de uma famlia muito pobre e cada um cuidava de si. Quatro pessoas trabalhavam: 
a me, empregada domstica; o pai, ajudante de pedreiro, e os dois irmos, que nunca quiseram estudar e, na falta de coisa melhor, iam para a roa como bias-frias; 
isso quando havia servio. E mesmo com todos trabalhando a renda familiar era insignificante, pois recebiam uma misria no final do ms. Sendo a caula e mimada 
pelos demais, s ela havia estudado, o que a colocava num nvel diferente dentro da famlia. Seus amigos eram todos da classe mdia, e talvez essa fosse a causa 
de seus problemas. Para poder sair com as colegas e freqentar lugares melhores, tivera de "se virar". Todos diziam que ela era bonita, elegante, atraente, e resolveu 
tirar partido disso. Se Deus havia lhe dado aquele corpo bem-feito e aquele rostinho bonito, era deles que iria tirar seu sustento. Passou a trabalhar, ento, como 
"garota de programa", procurando manter o mximo sigilo. Ningum poderia desconfiar. Na cidade grande, onde ningum se conhecia, isso era coisa fcil, e ela era 
cuidadosa em ficar sempre bem distante do bairro pobre onde morava. Desde que tinha entrado nessa vida dupla, sempre soube se cuidar e nunca tivera problemas. No 
entanto, quando apareceu Adriano, rapaz charmoso e simptico, deixou-se envolver sentimentalmente e descuidou-se. Estavam juntos havia quatro meses quando percebeu 
que estava grvida. O que fazer? Tentou falar com o namorado, mas ele no quis nem saber. Ficou irritado e alegou com frieza: como pode afirmar que esse filho  
meu, Marina? Pode ser de qualquer outro! Sentiu profunda mgoa e humilhao. Desde que eles estavam juntos, ela s fora dele, de ningum mais. Pensava que Adriano 
a amasse, porm percebia, tarde demais, que ele apenas tinha se aproveitado dela. E a famlia? Como contar aos pais que estava grvida? Justo ela que s estudava, 
por quem os pais e os irmos tinham se matado de trabalhar para dar melhores condies de vida? O beb seria mais uma boca para alimentar naquela casa. Alm disso, 
seus irmos eram bons, mas violentos. Se soubessem, lhe dariam uma grande surra e no descansariam enquanto no acabassem com Adriano. E ela? Como manter seu padro 
de vida? Como comprar as roupas, os sapatos, os produtos de maquiagem que estava habituada a ter? Sempre que chegava com algo novo em casa, alegava ser presente 
de amigas ricas, e todos na famlia acreditavam. Marina respirou fundo. Diante desses pensamentos, um suspiro abafado saiu-lhe do peito opresso. Lembrou-se da vida 
que se acostumara a levar: bons restaurantes, lanchonetes finas, comida e bebida da melhor. Tudo isso fatalmente acabaria, caso essa gravidez prosseguisse, e ela 
se habituara a viver assim. No, no podia permitir. Pensou bastante e decidiu. Faria o aborto. Para isso, comeou a buscar informaes com as colegas de ofcio 
e descobriu esse endereo onde estava agora. Por mais alguns dias prosseguiu aceitando convites para"programas", e juntou uma boa quantia que iria precisar, tanto 
para pagar o servio quanto para sua recuperao, remdios etc. Preparou tudo. Depois que marcou hora no mdico, avisou a famlia de que havia sido convidada por 
Natlia, uma amiga, para um passeio; iriam para uma fazenda, distante uns 50 quilmetros da cidade. Que no se preocupasse, ela ficaria bem. Iriam acompanhadas pelos 
pais de Natlia, e, como se tratasse de um final de semana prolongado, s voltariam na segunda-feira. Depois, reservou vaga numa penso, em bairro distante para 
no ser reconhecida e deixou tudo certo, pagando adiantado. Na vspera da pretensa viagem, arrumou sua bagagem, uma mochila pequena na qual colocou algumas peas 
de roupas e, no dia seguinte, despediu-se dos pais e dos irmos, ouvindo mil recomendaes. Saiu de casa levando tudo. Dirigiu-se primeiramente  penso, deixando 
a mochila no quarto; depois, foi para a clnica mdica, cujo endereo tinha em mos. E agora ali estava ela, aguardando a sua vez. Observando o movimento, estranhou 
que as pacientes entravam, mas no saam pela mesma porta. Deduziu que deveria ter outra sada dando para a rua. A seu lado, uma mocinha, que deveria ter no mximo 
13 anos, mostrava-se apavorada. Extremamente agitada e nervosa, esfregava as mos. Vez por outra, enxugava discretamente uma lgrima. Marina se condoeu da situao 
da menina e puxou conversa com ela. - Como demora, no ? Voc est com medo? A menina balanou a cabea afirmativamente.
- Como  seu nome?
- Vanessa.
- Lindo nome, Vanessa. O meu  Marina. Quer conversar comigo? Talvez desabafar lhe faa bem.
A menina, de cabea baixa, contou que seu padrasto abusava sexualmente dela todos os dias. Horrorizada, Marina indagou:
- E sua me sabe?
- No. Nunca contei a ela.
- Por que, Vanessa? Ela  a nica pessoa que pode ajud-la!
- Minha me gosta muito desse homem e ele ameaou-me, dizendo que, se contasse, ele jogaria a culpa sobre mim. E agora que engravidei, ele me deu dinheiro para fazer 
o aborto. No quer que minha me perceba. Afinal,  ela que trabalha e sustenta a casa. Ele  um malandro que s vive pelos bares.  Marina estava perplexa. Notou 
que existiam problemas piores do que os seus. Vanessa parou de falar, continuando de cabea baixa. Marina sentiu vontade de anim-la, de dar-lhe algum consolo, mas 
no sabia o que dizer. Afinal, ela tambm estava em situao semelhante. Naquele instante, Marina sentiu vontade de pensar em Deus, pedindo ajuda para aquela menina, 
quase uma criana que estava ali, apavorada, sem ningum da famlia para socorr-la. A emisso do seu pensamento foi suficiente para que ns, da espiritualidade, 
alertados para o que estava acontecendo, pudssemos agir, procurando evitar um mal maior, isto , que os crimes se perpetrassem naquela casa. Aproximamo-nos, envolvendo 
Marina em emanaes benficas e tranqilizantes, para que mantivesse a serenidade e a confiana em Deus. Atos contnuos sugeriram que ela sasse da sala sufocante 
para respirar ar puro l fora. E ela o fez, convidando Vanessa a acompanh-la. Marina e a companheira estava havia cerca de quinze minutos na calada conversando, 
quando chamamos sua ateno para uma das pacientes que saa por uma porta secundria, que dava para o quintal da casa. A adolescente tinha um aspecto abatido e lgrimas 
desciam pelo seu rosto. Amparada por uma mulher de branco, mal conseguia caminhar, praticamente sendo arrastada para um carro que aguardava ali perto. Da cintura 
para baixo, especialmente na regio das coxas, suas roupas estavam sujas de sangue. Certamente estava tendo uma hemorragia. Ao ver as duas moas na calada, a paciente 
lanou um olhar aflito, mas cheio de compaixo, como se dissesse: No faam isso que eu fiz! Vejam como estou! Marina tentou aproximar-se dela, mas a mulher de branco, 
sua acompanhante, no deixou, dizendo com voz rspida, mas no isenta de preocupao:
- Deixem-na. Ela precisa ir embora imediatamente. Marina trocou um olhar com Vanessa. Com certeza, algo dera errado. A moa corria risco de morte, sem dvida. Naquele 
instante, envolvidas por ns, ambas sentaram-se no meio-fio e puseram-se a conversar. No queriam arriscar a vida, no valia a pena. Mas o que fazer? Marina, mais 
velha e mais experiente, rapidamente, amparada pela nossa equipe que a intua, decidiu:
- Vanessa, ns no podemos fazer o aborto. Esse lugar  um aougue!
- Tambm sinto isso. E agora? Quanto a voc no sei, mas eu no posso voltar para casa grvida. E, alm disso, todo o dinheiro que eu tinha usei para pagar esse 
servio.
- Resolveremos isso depois. Agora, venha comigo. J sei o que fazer.
Entraram e se aproximaram do balco. Marina, resoluta e fortalecida pela nossa presena, ordenou  secretria:  - Devolva nosso dinheiro. No desejamos mais o atendimento. 
Com ar arrogante, a secretria retrucou:
- Impossvel. J pagaram. Se no quiserem o servio  problema de vocs, mas no posso devolver o dinheiro. Tenho ordens expressas do doutor.
Marina agarrou o brao da antiptica atendente e ameaou:
- Devolva nosso dinheiro ou chamo a polcia. Tenho certeza de que os policiais ficaro muito satisfeitos ao descobrir esta pocilga. Escolha. E rpido, porque no 
temos tempo a perder.
Ao ouvir falar na polcia, a arrogante atendente ps-se a tremer de medo. Abriu a gaveta, pegou o dinheiro e entregou nas mos de ambas.
- Calma! Est bem! Est bem! No precisa brigar. Pode levar. Est tudo aqui.
Vanessa e Marina saram da clnica de cabea erguida. Antes, porm, Marina ainda virou-se para as pacientes que aguardavam e alertou:
- Acho melhor vocs no entrarem nesse consultrio. H pouco saiu daqui uma paciente muito mal. Esse lugar no  uma clnica,  um matadouro.
Mas as mulheres que ali estavam j conheciam a clnica e os servios oferecidos e, mesmo arriscando a vida, preferiram permanecer. Algo decepcionada, Marina fez 
um gesto largo com os braos, olhando para sua companheira, como se dissesse: Bem, tentamos. Depois, voltando-se para as demais, desejou:
- Boa sorte!
Fora da clnica, andaram apressadas, desejando colocar a mxima distncia entre elas e aquele lugar horrvel. Ao chegar a uma praa, sentaram-se num banco para descansar 
um pouco. Estavam ofegantes. Vanessa, preocupada, perguntou:
- E agora, Marina? Conseguimos evitar o pior, e temos nosso dinheiro de volta, mas o que faremos? Nosso problema continua!
A outra, mais tranqila, que intuitivamente sabia o que fazer, afirmou:
- No se inquiete, Vanessa. Como voc disse, agora temos o dinheiro que iria para os bolsos daquele mdico. Venha comigo. Sei para onde podemos ir.
Pegaram um nibus e em meia hora estavam na penso. Marina pagou outra vaga para Vanessa e ficaram no mesmo quarto.
- Voc mora aqui, Marina?
- No, claro que no. Aluguei este cmodo para poder me recuperar aps o servio.
Minha famlia pensa que estou viajando com uma amiga.  Estavam cansadas e deitaram para repousar, uma ao lado da outra. Enquanto descansavam, aproveitavam para conversar. 
Marina contou  Vanessa a sua histria. Quando terminou, a outra suspirou:
- Gostaria de estar no seu lugar. Voc pelo menos tem pais que a amam, irmos... Se eu tivesse irmos como voc, nada disso teria me acontecido, Marina.
- Talvez no, Vanessa. Porm, voc tem me e ela deve am-la muito. Acho que deveria ter confiado mais em sua me e contado os abusos que tem sofrido.
- Pode ser. No sei o que vai ser da minha vida agora...
- Fique calma. Tenho a ntima convico de que tudo vai dar certo, pode crer.
- Invejo voc, Marina. Parece to segura de si, to resolvida. Enfrenta tudo.
Marina levantou um pouco o corpo para olhar a outra.
- Voc se engana, Vanessa. Sempre fui insegura. Tambm estou surpresa com meu comportamento. De repente, sinto-me forte, confiante e amparada, como se soubesse o 
que devo fazer!
- Fala srio? E quando houve essa mudana? Marina pensou um pouco, puxando pela memria.
- Interessante. Parece que foi quando fiquei preocupada com voc, que estava ao meu lado, aflita e nervosa. Senti imensa compaixo por voc e enorme desejo de ajud-la. 
At pensei em Deus - coisa que raramente fao - pedindo que a amparasse.
- Verdade? E depois?
- Depois, as idias comearam a vir a minha cabea. At a vontade de sair da sala parece que foi sugerida por algum. Ouvi a voz suave de um rapaz e obedeci. No 
 estranho?
- Estranho e providencial! No fosse isso e ainda estaramos l naquele chiqueiro. Mas j ouvi falar dessas coisas. Tenho uma tia que  esprita e ela v e ouve 
as almas daqueles que j morreram. Acho que  isso o que aconteceu com voc. Ela diz que todo pensamento bom encontra ressonncia na espiritualidade e nossa prece 
 atendida por amigos espirituais, pelo anjo da guarda, pelo santo da nossa preferncia, enfim, por quem puder atender. Creio que foi isso o que aconteceu com voc. 
Preocupando-se comigo, voc deu oportunidade para que amigos do alm ajudassem a mim e a voc.
-  mesmo? Faz sentido.
Continuaram conversando at que, aos poucos, um sono benfico passou a envolv-las.
Havia sido um dia difcil e precisavam repor as energias.


CAPTULO 14 - NUVENS QUE SE DISSOLVEM

"Quando alguma coisa feliz nos acontece,  ao nosso Esprito protetor que devemos agradecer?" "Agradecei a Deus, sem cuja permisso nada se faz; depois, aos bons 
Espritos, que so seus agentes." 
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 535)

Marina e Vanessa estavam to cansadas que dormiu a tarde toda. Despertaram ao cair da noite e, aps tomarem um banho, j refeitas, foram jantar. A refeio no era 
l essas coisas, mas comeram com vontade. Estavam famintas. Depois, voltaram para o quarto e retomaram o dilogo. Imprescindvel decidir o que fazer. Como Marina 
tivesse tempo, uma vez que, para todos os efeitos estava viajando, o mais urgente era resolver o problema de Vanessa.
Aps refletir um pouco, Marina perguntou:
- Vanessa, voc tem algum em quem possa confiar? Uma pessoa com quem poderia contar num momento de dificuldade?
A outra pensou um pouco e respondeu:
- Tenho uma tia, irm de minha me, com quem sempre me dei muito bem. Acho que posso confiar nela. Por qu?
- timo! E se falssemos com ela?
- Contar da minha gravidez? Nem pensar! - retrucou a outra, taxativa.
- Vanessa, ns temos de comear de algum ponto! Acho que ela precisa saber no apenas a respeito da gravidez, mas sobre toda a sua histria.
Vanessa ficou pensativa por alguns instantes, depois considerou:
- O fato  que minha me a ouve muito. Talvez voc tenha razo; pode dar certo. Alm disso, talvez seja minha nica opo.
- Muito bem. Voc sabe o nmero do telefone dela?
- Sei.
- Ento, o que estamos esperando? Vamos telefonar para sua tia. Tem um orelho logo ali, na esquina.
Rapidamente saram da penso e se dirigiram ao telefone pblico. Vanessa discou, e logo uma voz de mulher atendeu.
- Oi, tia Amlia. E a Vanessa.
- Ol, querida! Estou com saudades! Como vai?
A garota titubeou um pouco, escolhendo as palavras para responder.
- No muito bem... Preciso falar com a senhora o mais rpido possvel.
- timo! Estava mesmo pensando em ir amanh  sua casa. 
- No, no, tia Amlia. Em casa no. Encontre-me na... na... Marina pensou rpido, e assoprou o nome de uma lanchonete conhecida.
- Encontre-me na Lanchonete Recanto, no centro da cidade. Sabe onde fica?
- Sei. Quando?
-Amanh cedo, s nove horas. Pode ser?
- Sem dvida. Mas... Aconteceu alguma coisa?
- Amanh conversaremos tia Amlia. Posso pedir-lhe mais um favor?
- Claro, querida, pode dizer. O que deseja?
- Que no conte a ningum que falou comigo. Nem  mame.
- Nem  sua me? - indagou, preocupada.
- Especialmente a ela - respondeu a sobrinha com firmeza.
- Est bem. Fique tranqila, Vanessa, ningum ficar sabendo.
- Obrigada. Sabia que poderia contar com a senhora. Um beijo, tia Amlia. At amanh.
No dia seguinte, as novas amigas tomaram caf e se dirigiram at o ponto de nibus. Vanessa estranhou o fato de Marina ter marcado o encontro to longe de onde estavam 
hospedadas, mas a outra, mais viva, explicou:
- Por enquanto,  bom ningum saber onde estamos. E se sua tia no quiser nos ajudar e contar onde voc est? Melhor prevenir.
- Voc no a conhece e no confia nela. Mas ver que est errada. Minha tia  muito boa. Se ela prometeu que no contaria a ningum, no contar.
- Bem, nunca se sabe. Afinal, ela e sua me so irms! Chegaram mais cedo ao local combinado, acomodaram-se e pediram um pingado. A lanchonete estava quase deserta 
quele horrio.
Dez minutos depois, Amlia chegou. Era uma simptica senhora de uns 50 anos, bem vestida e fisionomia afvel. Aproximou-se da mesa, sorridente, espalhando delicioso 
perfume de flores:
- Como vai, Vanessa?
- Apesar de tudo, vou bem, tia Amlia. Esta  Marina, uma amiga.
Aquele apesar de tudo preocupou ainda mais a recm-chegada. Trocaram cumprimentos e se acomodaram. Aps pedir um caf, Amlia perguntou:
- Estou curiosa, Vanessa. O que est acontecendo? Por que quis conversar comigo longe de sua casa?
Algo temerosa, gaguejando, Vanessa comeou a falar:
- Tia Amlia, eu no dormi em casa esta noite. - Eu sei. Sua me me telefonou, aflita. Queria saber se voc estava em minha casa.
- A senhora contou que falou comigo? - indagou a menina, trmula.
- No, claro que no. Como percebi sua voz bastante tensa ao telefone, deduzi que tinha acontecido alguma coisa e no disse nada, aguardando nossa conversa de hoje. 
Mas agora preciso saber. O que houve? Voc e sua me brigaram?
- No, no brigamos. Vou explicar tudo, tia Amlia. E uma longa histria.
Fez uma pausa, respirou fundo e, ganhando coragem, comeou a falar:
- Desde que aquele homem entrou em nossa casa, tudo mudou. A senhora sabe como minha me  louca por ele. No admite que se diga nada contra aquele safado. Estou 
numa situao muito difcil, quero abrir meu corao, porm nem sei como lhe dizer...
Nesse ponto, ela comeou a chorar e no conseguiu continuar. Marina resolveu a situao, tomando a dianteira:
- A verdade, dona Amlia,  que Vanessa tem sofrido muito. Vou direta ao ponto: o padrasto tem abusado dela sexualmente todos os dias.
- No  possvel! - exclamou a senhora, com olhos arregalados, perplexa.
- Contudo,  a mais pura verdade. E tanto  possvel que ele engravidou Vanessa.
Atnita, a tia olhou para a sobrinha, incapaz de acreditar naquela monstruosidade, enquanto uma palidez marmrea invadia-lhe o rosto:
- Vanessa, voc est grvida?
A garota recomeou a chorar, concordando com um gesto de cabea. Marina prosseguiu:
- E tem mais. Quando Vanessa falou ao padrasto sobre o problema, ele deu-lhe dinheiro para fazer um aborto. Mas vou lhe contar tudo...
Diante da estarrecida senhora, Marina relatou o encontro que teve com Vanessa na clnica e falou sobre a deciso de ambas de no se submeterem ao atendimento daquele 
mdico. Quando terminou, Amlia estava ainda mais perplexa. Todavia, precisava de uma confirmao desses absurdos da boca da prpria sobrinha:
- Tudo isso  verdade, Vanessa? E sua me, por que no lhe contou?
Levantando a cabea, a garota limpou as lgrimas e explicou com expresso de profunda tristeza: 
- A senhora conhece mame melhor do que ningum, tia Amlia. Sabe bem como ela . Em relao quele homem, mame  completamente cega, surda e muda. Todas as vezes 
que tentei faz-la enxergar o comportamento dele, foi em vo, no me deu crdito. Alm disso, Joo ameaou dizer  minha me que era eu que dava em cima dele. Ele 
tem uma arma, e ameaou at me matar se eu abrisse a boca. - Que absurdo! O que pretende fazer agora, Vanessa?
- No sei tia Amlia. Achei que a senhora talvez pudesse, de alguma forma, me ajudar a resolver.
Amlia, j readquirindo o controle das emoes, tirou da bolsa um lencinho de papel e entregou-o  sobrinha lavada em lgrimas. Depois, assumindo o lado prtico, 
perguntou:
- Bem. Onde voc dormiu essa noite, Vanessa?
- Numa penso, junto com Marina.
A senhora pensou um pouco e depois disse:
- A primeira providncia ser lev-la para a minha casa. Depois, decidiremos o que fazer. Chamarei sua me e conversaremos. Ela me escuta e me respeita, e nessa 
hora isso  fundamental.
Lanando um olhar para Marina, a mocinha considerou:
- A senhora tem razo, tia Amlia. No entanto, ficaria mais tranqila se encontrasse minha me num lugar neutro. Tenho medo de que ela no aceite a realidade e conte 
para o marido. Ele me mataria se soubesse que abri a boca, como me ameaou vrias vezes. Se minha me o colocar para fora de casa e ele perder as mordomias que tem, 
com certeza me matar, e eu acredito, porque aquele homem  capaz de tudo.
- Quanto a isso voc tem razo, Vanessa. Tambm tenho certeza de que Joo no quer perder essas facilidades. Afinal, ficar o dia inteiro em casa sem trabalhar, ser 
sustentado pela mulher e ainda abusar da filha, no  para qualquer um. Porm, acho que voc se engana, Vanessa, em relao  sua me. Ela adora voc e se souber 
de tudo a proteger, fique certa disso. Ponho minha mo no fogo por ela. 
- Est bem. Ento, vamos fazer o que a senhora sugeriu, tia Amlia. Marque com minha me um encontro para hoje  tarde na sua casa e conversaremos. S fao uma exigncia.
- Qual ?
- Que Marina venha conosco. A presena dela  muito importante para mim, tia Amlia. Ela tem me ajudado bastante e sinto-me segura com ela ao meu lado, apesar de 
s a ter conhecido ontem e em circunstncias to difceis.
Marina ficou emocionada. No imaginou que Vanessa se tivesse ligado tanto a ela a ponto de sentir-se segura a seu lado. Abraou a amiga e considerou:
- Agradeo suas palavras, Vanessa, mas no sou to segura como voc pensa. E tambm tenho um problema para resolver, lembra-se? Amlia olhou a outra e, penalizada, 
mentalmente considerou que Marina teria apenas alguns anos a mais que sua sobrinha. Tambm era uma adolescente com o mesmo grande problema nas mos.
No carro, a caminho de casa, Amlia delicadamente indagou:
- E voc, Marina, como  sua histria?
A jovem relatou por alto, falando apenas do namorado que tinha desaparecido ao saber da gravidez, e da famlia,  qual no tinha coragem de contar a verdade. Amlia 
pensou um pouco, em seguida considerou com voz serena:
- Compreendo que vocs estejam apavoradas diante da situao. Na posio de vocs, eu igualmente estaria. No entanto, acredito tambm que, tanto Vanessa quanto voc, 
Marina, esto subestimando o amor de seus pais. Pensem nisso.
Chegaram. A casa era simples e acolhedora, cheia de plantas e de rvores. Amlia explicou  Marina que morava sozinha desde que o marido faleceu. No tiveram filhos, 
e a sobrinha, na verdade, era a filha que sempre sonhara ter. O ambiente da casa foi um blsamo para as moas. A decorao, a msica suave que tocava invadindo todos 
os ambientes e um agradvel odor de incenso que se espalhava no ar. Tudo transpirava serenidade e bem-estar. Depois de instalar as jovens num quarto agradvel e 
aconchegante, Amlia telefonou para a irm; a voz, do outro lado da linha, soou desesperada pela ausncia da filha. 
- Neide, fique tranqila. Vanessa est bem. Venha tomar um caf comigo  tarde e conversaremos.
A me de Vanessa, mais aliviada, prometeu que iria. Depois do almoo, simples, mas muito apetitoso. Amlia sugeriu fazerem um bolo para esperar Neide, a me de Vanessa. 
Alegremente, as trs ficaram na cozinha preparando o lanche. Quando Neide chegou, sentiu um cheiro agradvel de bolo recm-assado. Era uma mulher de tez clara, cabelos 
e olhos castanhos, mida, magra, de traos regulares bem parecidos com os de Vanessa, e gestos nervosos e mos trmulas. Recebida com alegria pela dona da casa, 
a irm nem tinha colocado os ps dentro da porta e j perguntava:
- Amlia! E ento, tem notcias de minha filha? Sei que tem! Estou quase louca, sem saber o que fazer! No me deixe nessa agonia. Nem dormi a noite passada preocupada 
com minha filhinha.
Abraando a recm-chegada, que falava sem parar, Amlia tranqilizou-a:
- Acalme-se, Neide. Vanessa est aqui comigo.  Ao ouvir falar no seu nome, Vanessa entrou na sala. Ao v-la, Neide correu ao seu encontro.
- Vanessa, minha filha! Por que fez isso com sua me? Desaparecer sem deixar recado, sem uma palavra, nada!
A mocinha, tmida por natureza, estava trmula diante da me e no conseguia abrir a boca. Amlia, notando o constrangimento da sobrinha, interferiu:
- Neide, sente-se. Temos muito que conversar. Voc ficar sabendo de tudo.
- Tudo? Tudo o qu? O que aconteceu? Falem de uma vez! No esto vendo meu estado, como estou nervosa? E essa moa a, quem ? - indagou com rispidez.
Amlia abraou a irm, conduzindo-a ao sof como se fosse uma criana. Depois apresentou:
- Marina  uma amiga de Vanessa. Agora, acalme-se, Neide. Tenha pacincia, j vamos conversar.
Em seguida, virando-se para a sobrinha, notou-lhe os olhos arregalados de medo e condoeu-se do seu estado.
- Vanessa, querida, melhor voc aguardar l dentro com Marina enquanto falo com sua me, est bem?
Vanessa concordou imediatamente, aliviada e agradecida. No queria mesmo enfrentar a me. Preferia que a tia contasse tudo para ela. Depois que as jovens saram, 
Amlia comeou a falar:
- Neide, existe muita coisa que est acontecendo debaixo do seu nariz e que voc ignora.
- Pode falar. Estou ouvindo.
- Tem a ver com seu marido. Neide quase deu um pulo, assustada:
- Joo? O que o Joo tem a ver com isso? -Tudo. Vou lhe contar.
Procurando elevar o pensamento ao Alto para obter ajuda, Amlia comeou a falar, medindo bem as palavras. Quando terminou, Neide estava lvida, trmula da cabea 
aos ps e em lgrimas.
- No acredito! Como voc soube de tudo isso? - murmurou.
- Vanessa me contou.
- Por que ela no disse nada a mim, a mim que sou sua me?
- Por motivos bvios, Neide. Voc acabou de dizer que no acredita! A verdade  que sua filha  uma criana ainda e est apavorada. Temos de procurar ajud-la da 
melhor maneira possvel. Especialmente voc, que  me.  
- Se isso  verdade, como foi acontecer debaixo do meu teto, sem que eu percebesse, minha irm? No  possvel!
Amlia pensou um pouco e lentamente ponderou:
- A paixo que tem por seu marido deixou-a cega, Neide. Confiou demais nesse homem. Saa para trabalhar deixando sua filha desamparada nas mos de algum que no 
conhece realmente. E ele, criatura sem princpios morais, no teve dvidas em abusar da sua confiana.
- No pode ser! Isso s pode ser mentira! Quero falar com ela. Ouvir da sua boca a confirmao dessa histria srdida.
- Vou cham-la. Mas, acalme-se. Veja bem o que lhe vai dizer. Lembre-se de que ela  a vtima - alertou a irm.
Amlia saiu por alguns instantes, voltando com Vanessa e Marina.
Neide, descontrolada, olhou para a filha com expresso grave; depois para Marina, sem conter a irritao, e perguntou  irm, com arrogncia:
- Temos que falar de coisas to ntimas diante de uma estranha? Vanessa, tomando as dores da amiga, retrucou incisiva:
- Essa estranha como a senhora diz, mame, foi a nica pessoa que me amparou quando mais precisei. Ela fica.
- Tudo bem. Creio que hoje devo beber o clice da amargura at o fim.
Fez uma pausa e, olhando a filha nos olhos, indagou:
-  verdade o que sua tia me contou Vanessa?
- Sim, mame. A mais pura verdade.
- Por que nunca me disse nada?
- Mame, eu creio que est enganada... Ou esquecida. Por vrias vezes tentei abrir-lhe os olhos, mas a senhora no quis me ouvir.
-  verdade que est grvida e que ia fazer o aborto?
- Sim,  verdade.
- Onde arrumou o dinheiro? Essas coisas custam caro. Voc roubou de minha bolsa, como fez tantas outras vezes?
Ao ouvir palavras to duras, Vanessa teve que se controlar para no chorar. Embora tivesse os olhos midos, ergueu a cabea, com altivez e dignidade, e respondeu:
- Engana-se novamente. Apesar de ser minha me, a senhora no me conhece, se me julga capaz de um ato como esse. Quem rouba da senhora no sou eu.  seu marido. 
Foi ele que me deu o dinheiro necessrio para pagar o mdico e fazer o aborto. Como foi ele tambm que me passou o endereo da clnica, uma vez que eu desconhecia 
completamente a existncia desses lugares. A prova aqui est.
A mocinha tirou do bolso da cala jeans um papel onde havia um endereo, escrito pelo punho de Joo. Neide, vendo a caligrafia to conhecida do marido, abaixou a 
cabea, arrasada, chorando copiosamente. Naquele momento, compreendeu a imensido do seu erro, trazendo para dentro do prprio lar um homem desconhecido por quem 
tinha se apaixonado perdidamente. Com voz entrecortada, confessou em voz baixa:
- Reconheo que errei muito. Sabia que aquele miservel no me era fiel. Vrias vezes eu tive a prova de que ele mantinha relacionamentos com mulheres do nosso bairro, 
vizinhas at, mas sempre lhe perdoei. Todavia, jamais o julguei capaz de abusar da minha prpria filha, aquela que ele afirmava amar e considerar como sua filha 
tambm.
Nessa altura, todas tinham os olhos midos. Afinal, Neide levantou o olhar para Vanessa, implorando:
- Minha filha, voc pode me perdoar?
A garota aproximou-se da me, ajoelhando-se a seu lado e abraando-a com emoo.
- Perdo mame, perdo. A senhora desconhecia meu sofrimento. Vamos comear uma nova vida. S eu e a senhora. Promete?
- Prometo minha querida. Mas, o que vou fazer agora? Voc, minha filha, que criei com tanto amor, est esperando o filho de um celerado. Como suportar isso? Talvez 
seja melhor fazer o aborto mesmo - murmurou mais para si mesma.
Nesse momento, Amlia interferiu:
- No, mana. No podemos consertar um erro cometendo outro maior ainda. Quando um vulo  fecundado, uma nova vida comea a surgir e um esprito vem habitar aquele 
corpo em formao. O aborto  crime perante as leis dos homens e perante as Leis Divinas. A criana no tem culpa pelo acontecido e merece nascer.
- E quanto ao Joo? O que vou fazer com esse miservel? Ele no aceitar sair de casa sem criar problemas.
- Seja firme, Neide. Coloque-o diante da enormidade do crime que ele praticou e expulse-o de seu lar, uma vez que a casa  sua. Se insistir em ficar ou criar dificuldades, 
ameace chamar a polcia. Creio que ele desaparecer. Mesmo porque, penso at que Joo j  procurado pela polcia. A informao que ele tinha sobre essa clnica 
abortiva e o endereo pronto,  mo, indicam que j fez uso desse expediente. Talvez outros pais estejam atrs dele pelo mesmo motivo, ou outras mulheres por terem 
sido enganadas.   Neide balanou a cabea, concordando:
- Amlia, como eu pude ser to cega? Deixar minha filhinha  merc daquele infame?
No me conformo!
Amlia ponderou com tranqilidade:
- Minha irm, agora  hora de reconstruo. No pense mais no que passou. Sua filha precisa de atenes e cuidados que s voc pode lhe dar. Vamos ajudar nossa querida 
Vanessa a superar essa etapa e, tenho certeza, o beb ser uma bno em nossa vida.
- Tem razo, Amlia. Bem, agora vou para casa. Preciso acertar as contas com Joo o mais rpido possvel. Vanessa ficar com voc.
- Sim, minha irm. Antes, porm, vamos fazer uma orao agradecendo a Jesus a ajuda que recebemos hoje, que permitiu esclarecer tudo da melhor maneira.
Fecharam os olhos e acompanharam mentalmente a prece singela, mas cheia de emoo, que Amlia proferiu, e da qual ns, da espiritualidade, participamos comovidos. 
Ao trmino, todas estavam sentindo grande bem-estar. Depois, Vanessa lembrou:
- Mame, antes que v embora, vamos tomar um ch com bolo que preparamos com muito carinho para receb-la.
Tomaram lanche e o clima se desanuviou por completo. Mais tarde, Neide despediu-se da irm, da filha, abraando-a mais uma vez, e de Marina, agora em clima mais 
cordial, agradecendo tudo o que ela tinha feito por Vanessa at aquele momento. Ao abraar a irm, Amlia sugeriu:
- V com calma e em paz, Neide. Prepare-se para conversar com Joo; eleve o pensamento em prece pedindo ajuda, e ter o equilbrio necessrio para enfrentar essa 
situao to espinhosa. Tenho certeza de que tudo vai se resolver bem, com o amparo de Deus.
Depois que Neide saiu, elas trocaram um olhar satisfeito pelo resultado do encontro. Amlia, sorridente, considerou:
- No disse que precisamos confiar mais nas pessoas? Graas a Deus, conseguimos dissolver as nuvens que se acumulavam sobre Vanessa, ao mesmo tempo resolvendo o 
problema da gravidez e da presena do famigerado Joo em sua vida.
Fez uma pausa, fitou com carinho a outra e afirmou:
- Agora, Marina, ns temos de pensar no seu caso.


CAPTULO 15 - SOLUCIONANDO PROBLEMAS

"O mrito consiste em suportar sem lamentao as conseqncias dos males que no se podem evitar, em continuar na luta, em no se desesperar se no for bem-sucedido 
(...)"
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 26)

Marina permaneceu hospedada na casa de Amlia, a pedido desta, junto com Vanessa. Assim, logo na manh seguinte a adolescente foi at a penso, ordenou o fechamento 
da conta, pagou e retirou sua bagagem. Depois, j instalada no quarto que passaria a dividir com Vanessa, as trs mulheres puderam conversar e estudar qual a melhor 
atitude a ser tomada com respeito  nova hspede. Chegaram  concluso de que o mais urgente era informar a famlia de Marina. Amlia prontificou-se a procurar os 
pais dela e explicar-lhes a situao. A adolescente aceitou a medida, com a condio de a famlia no saber seu novo endereo, e justificou:
- Tenho medo de meus irmos. So rapazes de corao bonssimo e me querem muito bem, porm so impulsivos e violentos.
- No se preocupe Marina, direi apenas o suficiente - tranquilizou-a Amlia.
Ao entardecer, a dona da casa convidou as moas para orar. Fizeram uma prece pedindo o amparo divino para que sua tarefa fosse coroada de xito. Antes de sair rumo 
ao endereo da casa de Marina, orientou as jovens para que mantivessem o pensamento elevado de forma que tudo desse certo. Entrando no bairro humilde de periferia, 
sem grande dificuldade Amlia localizou o endereo que tinha em mos pelas informaes de Marina. Como todos os membros da famlia passavam o dia trabalhando, aquele 
era o melhor horrio para encontr-los em casa. Antes de descer do carro, Amlia novamente pediu a Jesus que a orientasse, e envolveu igualmente os moradores da 
casa em vibraes positivas, de modo a ter as melhores condies para expor o problema sem criar obstculos. Percebeu luz acesa, sinal de que j haviam chegado. 
Bateu palmas e esperou. No pde deixar de notar que a casa era velha e pobre, com a pintura descascando; que a cerca necessitava de reparos; porm, apesar do aspecto 
de abandono da moradia, plantas viosas alegravam e coloriam-na pela beleza das flores. Depois de alguns minutos, uma mulher de aspecto cansado e sofrido abriu a 
porta. Com um sorriso, Amlia cumprimentou-a:
- Boa noite! A senhora  dona Antnia?
- Isso mesmo.
- Gostaria de falar com a senhora. Meu nome  Amlia.
A mulher, que segurava a porta com o p demonstrando certo receio, com ar de dvida respondeu: - Se for para vender alguma coisa dona, no tenho dinheiro. Amlia 
sorriu discretamente.
- No se preocupe. No estou vendendo nada. Gostaria de lhe falar sobre sua filha.
- Marina? O que tem ela? Olha se andou aprontando...
- No, fique tranqila. Posso entrar?
A dona da casa finalmente abriu a porta, convidando:
- Entre, dona, entre. A casa  de pobre, no repare a baguna. Acabei de chegar do servio agorinha mesmo.
Amlia entrou. A sala limpa e arrumada, quase sem mobilirio, tinha apenas um sof e duas cadeiras. A recm-chegada respirou aliviada. Pelo jeito, os irmos ainda 
no tinham voltado do servio. Melhor assim.
- Antnia, posso cham-la assim? Afinal, temos quase a mesma idade, no ? Vim aqui para lhe falar de Marina.
- A senhora conhece minha filha?
- Conheo e gosto muito dela. E uma boa moa, simptica, muito bonita...
- E estudada. Olha dona Amlia, aqui em casa vivemos com dificuldade e ningum pde freqentar a escola direito, mas com Marina foi diferente. Fazemos questo de 
que ela tenha o melhor.  muito inteligente e prendada. Por isso, todos ns trabalhamos para dar um futuro melhor a ela. A senhora v, j  noite e os meninos ainda 
nem voltaram do servio!
- O que eles fazem?
- Trabalham na roa, so bias-frias.
- E servio pesado! - exclamou Amlia.
-  verdade. Mas eles no se incomodam no. Querem trabalhar e fazem questo de ajudar a irm, pagando a escola dela.
A me falava com tanto orgulho dos filhos que Amlia ficou comovida. Marina era muito amada por todos, no havia dvida. Lembrando-se da moa, do seu porte, das 
suas maneiras delicadas, sua elegncia, das roupas boas, entendeu que ela se beneficiava do amor da famlia. Mas como conseguia comprar roupas de marcas como aquelas? 
A famlia era muito pobre e os recursos, escassos. Era evidente que todos se sacrificavam por ela, para dar-lhe melhores condies de vida. Imediatamente, Amlia 
sentiu um carinho enorme por aquelas pessoas que nem conhecia, mas que passou a admirar. Estava um pouco emocionada e Antnia percebeu.
- Aconteceu alguma coisa com minha filha? Ela est viajando e, a senhora sabe como , a gente se preocupa. Ela nunca tinha viajado antes sozinha.
- No. Marina est bem, fique tranqila.
Fez uma pausa e, percebendo a aflio da me, comeou a falar:
- Marina  uma boa moa, Antnia. Ela  muito jovem, ainda adolescente, tem a cabecinha cheia de sonhos, e a vida muitas vezes prega peas na gente. Bem... A verdade 
 que sua filha est grvida.
- Grvida? Est de barriga? Como assim? - indagou a me, aflita.
- Marina estava namorando um rapaz que ela amava muito e que tambm dizia am-la.
Sem experincia da vida, inocente, Marina confiou nele, por amor. Depois, quando ele ficou sabendo da gravidez, a abandonou, foi embora. Antnia estava em estado 
de choque, sem querer acreditar no que estava ouvindo. Cobriu o rosto com as mos, incapaz de digerir a informao. Depois, com voz sumida, perguntou:
- Onde est Marina agora? Se a conheo bem, deve estar escondida por medo da reao da famlia.
- Marina est em lugar seguro no momento, posso lhe garantir Antnia. Mas correu grave risco. Vou contar-lhe tudo.
Respirando fundo, com tato e delicadeza, Amlia relatou a histria toda: o medo que a filha sentira de enfrentar a famlia, de confessar o seu erro aos pais e aos 
irmos, a deciso de livrar-se do beb, o episdio da clnica e como Marina ajudara sua sobrinha Vanessa, mais jovem e ainda mais inexperiente do que ela. Atnita, 
a pobre me indagou, mostrando a confiana que depositava na filha:
-Tem certeza? Mas, quando foi isso? Porque minha filha- talvez a senhora no saiba -, este final de semana foi viajar com a famlia de uma amiga de escola!
Procurando as palavras certas para no machucar ainda mais aquele confiante corao de me, Amlia considerou:
- Marina incumbiu-me de pedir o seu perdo, Antnia. Mas no  verdade que ela esteja viajando. Lamento inform-la de que Marina inventou essa histria da viagem 
para ter tempo de fazer o aborto e de se recuperar, de modo que ningum ficasse sabendo.
Com a cabea entre as mos a me chorou amargamente, incapaz de acreditar na realidade.
- Pobre da minha menina. Onde est ela agora?
- Fique tranqila. Marina est comigo, e est bem. Apenas no veio por medo, o que  perfeitamente compreensvel.  Naquele momento, o pai saiu do banho e entrou 
na sala, ao mesmo tempo em que os dois rapazes chegavam. Vendo a me com os olhos vermelhos e uma estranha dentro de casa, ficaram assustados. Um deles, Jesiel, 
o mais velho, foi logo perguntando:
- Que houve me? Quem  essa mulher?
Os rapazes eram bem como Marina tinha descrito: fortes, grandes e de temperamento impulsivo. Amlia teve vontade de rir, mas no o fez porque a situao no estava 
para brincadeira. Apresentou-se, estendendo a mo para cumpriment-los:
- Meu nome  Amlia. Sou amiga de Marina.
Antnia contou ao marido e aos filhos o que estava acontecendo. Eles ficaram agitados, queriam brigar. Amlia deixou que colocassem para fora toda a dor, a indignao 
e a revolta que estavam sentindo. Aos poucos, eles foram se acalmando. Os rapazes desejavam saber da boca de Amlia a histria toda. Mais uma vez, ela relatou os 
fatos, falando do sofrimento de Marina, que era apenas uma adolescente pura e ingnua, e que depois de confiar cegamente no rapaz, fora abandonada por ele. Contou-lhes 
como ela tinha ajudado sua sobrinha de apenas 13 anos, nas mesmas condies, e como ficaram amigas. A ira dos rapazes foi aumentando  medida que as informaes 
chegavam.
- Eu vou matar esse cara. Ningum desgraa minha irm e fica vivo para contar. Quem  ele? Onde est esse verme? - indagou Jesiel, que parecia ser o mais violento.
- No sei nem o conheo. Deve estar longe - afirmou Amlia, serena.
Fez uma pausa, analisando a reao dos rapazes. Depois, ponderou:
- O importante agora, me parece,  ajudar Marina. Ela est precisando de ajuda, de amparo, e  isso que conta.  apenas uma menina assustada, confia em vocs e precisa 
do amor da famlia. O resto no interessa.
Amlia percebeu que suas palavras tinham surtido o efeito desejado, que tinha conseguido tocar o corao de todos. Concluiu:
- Posso assegurar-lhes que Marina est muito triste com essa situao, sente muita saudade de todos e da casa. Ela os ama imensamente.
Foi a gota d'gua que faltava. Imediatamente, Jairo, o mais novo dos irmos, perguntou comovido:
- Onde est ela? Queremos v-la!
- O lugar de Marina  aqui com a gente. Ns vamos tomar conta dela. Podemos busc-la? - indagou Jesiel.
Sorridente, Amlia sugeriu: - Fico feliz que pensem assim. Podem busc-la sem problema. Contudo, se vocs preferirem, posso traz-la. Estou de carro e ser um prazer 
acompanh-la at seu lar e entreg-la a vocs, que tanto a amam. A famlia aceitou sem problemas a sugesto.
- Ento, amanh logo cedo trarei Marina. Acredite, ela ficar muito feliz ao saber que vocs lhe perdoam e a querem de volta - confirmou Amlia.
A senhora despediu-se. O ambiente agora era bem diverso. Os rapazes tinham os olhos mansos e meigos como os de crianas. Sem dvida eles eram bondosos como a irm 
afirmara, no entanto, tambm impulsivos e temperamentais. Ao retornar, Amlia informou o resultado da misso para as jovens, que ficaram aliviadas pelo bom xito 
obtido. Vanessa, apesar de contente pela amiga, lamentou separar-se de Marina,  qual tinha se apegado bastante. Na manh seguinte, aps arrumar a mochila, Amlia 
e Vanessa levaram Marina para sua casa. Com surpresa, viram que toda a famlia estava reunida para esper-la. Ningum tinha ido trabalhar naquele dia! O encontro 
de Marina com a famlia foi comovente. Todos choravam de emoo por t-la novamente em casa com eles. Ao se despedirem, Marina percebeu que Vanessa estava tristonha, 
embora procurasse disfarar. Com carinho, ela abraou a amiga e afirmou:
- Vanessa, agora que somos amigas, nada vai nos separar. Poderei ir visit-la e voc tambm, sempre que quiser, poder vir aqui, no ? Mesmo porque teremos muita 
coisa para conversar a respeito dos bebs, do enxoval...
-  verdade. No posso ser egosta e querer voc s para mim. Virei mesmo, muitas vezes, pode aguardar.
Amlia e a sobrinha despediram-se da me, do pai e dos irmos de Marina. A gratido que sentiam pela ajuda daquela bondosa mulher, que at o dia anterior era uma 
estranha, deixava-os comovidos. Um clima de paz e de harmonia pairava no ar. Todos estavam satisfeitos e cheios de esperana no futuro. As crianas que estavam a 
caminho com certeza iriam proporcionar momentos de grande felicidade para todos. Antnia, pegando as mos de Amlia, agradeceu sensibilizada:
- Obrigada, Amlia. Jamais poderemos pagar tudo o que fez por nossa filha e por todos ns.
- No agradea a mim, Antnia, mas a Jesus.  Ao deixarem a casa, Amlia e Vanessa estavam com o corao leve e um bem-estar imenso inundava-lhes o ntimo.
Sabiam que teriam ainda muitos problemas e dificuldades pela frente. Estavam, porm, no caminho certo e Deus no iria desampar-las. A Doutrina Esprita nos orienta 
sobre a importncia da preservao da vida, considerando o aborto um crime que se comete contra outro ser, de danosas conseqncias para quem o faz. Espritos em 
evoluo, ora estagiamos no planeta Terra com objetivo de aprendizado e de aprimoramento moral, como parte de um processo educativo que nos leva  perfeio e que 
nos concede as condies e as oportunidades imprescindveis para alcanar nossos objetivos. Desse modo, quando uma vida se inicia no ventre materno, no  um fato 
desprovido de importncia. Ao contrrio. Representa o retorno de um esprito que aceitou renascer naquele lar e que foi aceito por aqueles que sero seus pais. J 
existe vida, portanto, e qualquer ameaa  continuidade daquela vida representa uma contraveno s leis divinas. O que as pessoas de modo geral no entendem  que 
ali est no apenas um embrio que ganha aos poucos aspecto de um ser humano, mas um esprito, uma individualidade com longo trajeto realizado, que volta ao mundo 
terreno trazendo suas experincias; algum que j obteve vitrias, mas que tambm teve muitos fracassos; que fez afetos e desafetos prejudicou e foi prejudicado. 
 um esprito que retorna com uma programao de vida para a qual se preparou exaustivamente, comprometendo-se, perante si mesmo e perante seus Maiores, a ser melhor, 
esforando-se para aprender cada vez mais, reparar os erros cometidos no passado, ajudar aqueles a quem prejudicou e perdoar queles que o prejudicaram. Com certeza, 
encontrar dificuldades pelo caminho. At na prpria famlia, uma vez que Deus colocar o reencarnante perto das pessoas com as quais precisar se reajustar. Poder 
enfrentar rejeio da prpria me, mas o desejo de vencer o ajudar a continuar preso ao feto. Em virtude do campo energtico de um e de outro estarem mais prximos, 
as vibraes misturadas podero interferir na gestao. A me enfrentar sintomas diversos como mal-estar, nuseas, desejo de chorar e muitos outros, porque  um 
outro ser que ali est grudado nela, uma outra individualidade, que chega trazendo suas emanaes mentais, seus sentimentos, sua alegria ou sua tristeza. Natural 
que a mezinha sinta o reflexo de tudo isso, uma vez que a convivncia  a mais estreita possvel, mas o feto tambm experimentar essas dificuldades, especialmente 
se sentir rejeio por parte da futura me. Desse modo, imprescindvel a maior boa vontade de parte a parte, para vencer esses empecilhos naturais no incio da gestao. 
Aos poucos,  medida que seus laos com o corpo fsico se intensificam, o esprito vai perdendo a conscincia e tudo fica mais fcil, a adaptao se faz sem maiores 
problemas para o beb e para a me, que deixa de sentir os incmodos iniciais da gravidez, passando a curtir a gestao e se preparando para a chegada do filho. 
Entretanto, quando as coisas no correm bem e, apesar dos esforos da espiritualidade maior, o aborto acontece, uma sensao de tristeza e de desapontamento toma 
conta de ambos. Se a interrupo da gravidez se deu por motivos fsicos, por exemplo uma enfermidade ou alguma falha no organismo da gestante - certamente ambos 
teriam de passar por essa experincia frustrada -, haver a possibilidade de o esprito candidato  reencarnao retornar em outra oportunidade, naquela mesma famlia, 
sanado o problema. Se porventura o aborto aconteceu por desejo e ato da prpria me, incapaz de suportar a presena do esprito reencarnante, normalmente um inimigo 
do passado, as conseqncias so graves e duradouras. O candidato a filho no aceitar a rejeio, o que aumentar a distncia entre ambos, predispondo-se a me 
a srios problemas de sade orgnica, emocional e espiritual. Inclusive, existe caso, acompanhado por nossa equipe, em que o filho - rejeitado, mas desejando desesperadamente 
a continuidade da vida, oportunidade valiosa para ele -, no momento em que estava sendo expulso do claustro materno, agarrou-se fortemente ao corpo da me, tentando 
evitar o pior, e acabou ocasionando a ruptura de um vaso sangneo, provocando grave hemorragia. Dessa maneira, retornaram  espiritualidade me e filho, imantados 
um ao outro, tendo a futura mezinha de suportar o dio e a revolta daquele que seria seu filho, numa obsesso terrvel e de longo curso. Esse caso, ainda em andamento, 
s ir ter um desfecho favorvel quando ambos entenderem a necessidade do perdo recproco. Certamente, tero de retornar ao mundo terreno para, em nova encarnao, 
se reajustarem mutuamente, aprendendo a se amar, o que ainda no foi possvel. De qualquer maneira, mesmo que o reencarnante, em melhores condies espirituais, 
no lhe guarde rancor, a distonia causada pela interrupo da gravidez e a conscincia da me no vo dar paz a ela prpria, em virtude da gravssima infrao cometida 
contra as leis divinas. No raro, a mulher comear a apresentar distrbios emocionais e, pela insistncia da mente criminosa em conservar pensamentos negativos, 
tambm apresentar problemas orgnicos. Que se livrem as futuras mes de cometer tamanha insensatez se no quiser sofrimentos acerbos sobre sua cabea. Afirma-se 
na atualidade que o sexo  livre e que a mulher tem direitos sobre o seu corpo e pode fazer dele o que desejar. Todavia, desde que seja atingido o direito de outrem, 
cometemos um crime. Ningum desrespeita o direito do prximo sem assumir sria responsabilidade com seu ato. Se o fato ficar impune perante as leis humanas, o mesmo 
no acontecer diante das leis de Deus, que so justas, sbias e perfeitas. Entretanto, sempre existir uma nova oportunidade para os faltosos. Qualquer que seja 
o erro que tenhamos cometido inclusive o aborto, Deus nos conceder novas ocasies de repararmos o prejuzo que causamos ao prximo, quando teremos a bno de nos 
reajustarmos perante aqueles que prejudicamos. Em encarnao futura, a mulher poder renascer estril, sentindo a dor de desejar ardentemente um filho e no poder 
ger-lo; poder resgatar seus erros, porm, adotando crianas rfs, ou amparando outras, em creches, sempre necessitadas, ou ajudando famlias carentes a cuidar 
de seus filhos, dedicando-lhes ateno e amor. Falamos aqui de reencarnaes planejadas e acompanhadas com carinho pelo trabalho intercessrio de benfeitores espirituais, 
quando o reencarnante faz jus a essa ajuda pela condio espiritual e servios prestados ao prximo. Muitas vezes, porm, o esprito que necessita reencarnar no 
est em situao de decidir o seu futuro, muito menos de auxiliar no planejamento reencarnatrio. Em virtude dos compromissos assumidos, dos erros praticados, a 
volta ao corpo fsico lhe  imposta por Deus. Em uma infinidade de casos, a reencarnao se d em processos naturais, obedecendo s determinaes da prpria natureza 
- como a semente que caindo em solo frtil germina em condies adequadas -, pela vinculao do esprito  futura me ou ao futuro pai. No raro, acompanhante pertinaz 
por processo obsessivo, gerado na afinidade moral que possibilita a sintonia vibratria,  atrado para o ventre materno, dando-se a concepo. Apesar de no haver 
uma programao prvia, no se creia que o esprito reencarnante seja um estranho ao casal. De alguma forma, se ele  ligado ao psiquismo do homem ou da mulher, 
 sinal que faz parte do passado de um ou de outro, ou de ambos, com quem tem compromissos crmicos. Assim, diante da maternidade, que as mulheres no fujam ao seu 
dever, aceitando a determinao divina com coragem e boa vontade, mesmo em situaes adversas. Muitas vezes, aquela criana, a princpio indesejada,  a resposta 
para suas necessidades de regenerao e seu esteio no futuro. As nossas homenagens s mes que, desprovidas de recursos, sem um companheiro que lhes d amparo, muitas 
delas mal entrando na adolescncia, enfrentam a oposio das famlias, as dificuldades e problemas e assumem a gravidez decidindo ter o filho, com uma coragem e 
determinao verdadeiramente extraordinrias. Se todas as futuras mes gozam de um amparo especial, aquelas certamente tero um acrscimo de proteo do Alto para 
poderem levar adiante a gravidez, trazendo ao mundo mais um esprito necessitado de nova experincia na carne. 


CAPTULO 16 - ASSDIO SEXUAL

"Todas as paixes tm seu princpio num sentimento ou necessidade natural. O princpio das paixes no , portanto, um mal, uma vez que repousa sobre uma das condies 
providenciais de nossa existncia. A paixo, propriamente dita, conforme habitualmente se entende,  o exagero de uma necessidade ou de um sentimento. Esta no excesso 
e no na causa; e esse excesso torna-se mau quando tem por conseqncia um mal qualquer. Toda paixo que aproxima a pessoa da natureza primitiva a afasta de sua 
natureza espiritual."  (O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 908)

A chuva que caa desde a noite anterior continuava agora ainda A mais forte. Nas ruas encharcadas, a enxurrada aumentava sempre, obrigando os transeuntes, para atravessar 
a via pblica, a procurarem os locais em que o volume de gua fosse menor. De tempos a tempos, fascas eltricas cortavam os ares, seguidas do barulho de troves, 
assustando as pessoas. Eram nove horas da manh, mas as luzes dos postes estavam acesas, tal a escurido que se abatera sobre a cidade. Encontrando uma marquise 
protetora, Valria resolveu se abrigar da tempestade, visto que lhe era impossvel prosseguir. O guarda-chuva mostrava-se insuficiente para proteg-la daquele verdadeiro 
dilvio. Olhou para os sapatos que engraxara pouco antes, agora encharcados; para a roupa, que passara cuidadosamente e que agora estava toda molhada. Descontente, 
ela levou a mo aos cabelos que penteara com capricho, de onde a gua escorria pelo pescoo, penetrando em sua roupa. Faria uma triste figura chegando ao escritrio 
daquele jeito. Sua aparncia estava pssima. Se pelo menos eu tivesse um carro!, pensou, tremendo de frio. Agora, protegida da chuva, olhava os grossos pingos que 
caam lavando as caladas. Profunda preocupao a dominava. Sabia que estava muito atrasada para o trabalho, e o patro, rspido e prepotente, talvez no entendesse 
seus motivos, ainda mais que ele estava sempre procurando desculpas para despedir os empregados. E Valria sabia que ele no simpatizava nada com ela. Ou talvez 
simpatizasse muito, pensou com ironia. Respirou fundo, enquanto uma dor quase fsica atingia-lhe o corao. Se perdesse esse emprego, no saberia o que fazer da 
sua vida, j to complicada. Lembrou-se da famlia, distante. No podia contar com ela. Seus pais residiam no Cear, numa cidadezinha que nem aparecia no mapa, e 
eram muito pobres. Mauro, seu marido, homem bom e trabalhador, desempregado havia um ano e cinco meses, no podia contribuir financeiramente para a manuteno da 
casa, e as duas filhas, Marcela e Roberta, de quatro e cinco anos, tinham necessidades bsicas que precisavam ser atendidas: alimentao, roupas, calados, remdios 
e a creche, entre outras. Alm disso, o aluguel (o senhorio no costumava esperar) e as contas de gua, luz e telefone eram alguns itens que a afligiam sobremaneira 
nessa manh chuvosa. O que fazer? Valria deixou que as lgrimas rolassem, aproveitando o rosto molhado pela chuva. Certamente ningum iria notar. Cada um estava 
preocupado com os prprios problemas. E no era s isso. Tudo parecia estar ruindo  sua volta. Tinha conscincia de que, se aceitasse as propostas do patro, tudo 
seria diferente. Repugnava-lhe, todavia, ceder aos caprichos daquele homem asqueroso e lascivo e, por isso, ele passou a mostrar-se hostil para com ela. No entanto, 
sua honestidade e sua honra estavam acima de tudo, e conservava-se digna e de cabea erguida. E era exatamente isso que aquele homem no suportava. Nesse momento, 
pelo movimento de pessoas que voltavam a transitar, notou que a chuva diminura de intensidade. Deixando tambm a proteo da marquise, abriu o guarda-chuva e, caminhando 
to rpido quanto suas pernas o permitiam, tomou o rumo da empresa. Ao aproximar-se do grande prdio, o corao comeou a bater mais rpido. As luzes estavam todas 
acesas e o movimento era intenso. Tomou o elevador que a levaria ao andar onde ficava sua sala, intimamente suplicando ajuda divina. Quando o elevador parou e a 
porta se abriu, respirou fundo. Enchendo-se de coragem, caminhou pelos corredores da grande fbrica de confeces, deixando-se envolver pelo cheiro caracterstico 
dos tecidos, das tintas e pelo barulho das mquinas que trabalhavam a pleno vapor. Dirigiu-se primeiramente  toalete, onde deixou o guarda-chuva molhado. Rapidamente 
se arrumou, compondo melhor a aparncia; enxugou o rosto e os cabelos, prendendo-os na nuca, ajeitou a roupa e fez uma maquiagem discreta. Depois, olhando-se no 
espelho e considerando-se mais apresentvel, dirigiu-se ao escritrio. Preparava-se para comear a trabalhar, quando ouviu uma colega sussurrar:
- Hoje a coisa est preta. Ele j perguntou por voc, Valria. O "homem" parece uma fera. De carneiro no tem nada, est mais para lobo! - comentou com ironia, fazendo 
um trocadilho com o nome do proprietrio, Jos Carneiro.
Apesar da aflio, Valria no pde deixar de rir. A colega, sempre bem-humorada, tinha os cabelos compridos, lisos e avermelhados.
- Infelizmente, a chuva fez com que me atrasasse, Janete.
- E eu no sei? Muita gente no conseguiu chegar no horrio hoje. Mesmo quem tem carro ficou preso no trnsito. Tambm, que dilvio! Quer um caf? Vou pegar para 
mim e trago para voc tambm.
Valria respondeu com sorriso agradecido:
- Obrigada, amiga. Estou mesmo precisando de um caf bem quente.
No quis dizer que nada havia tomado antes de sair de casa. Na verdade, havia um pouco de ch, que ela deixou para as crianas. Nesse dia, Marcela e Roberta no 
iriam  creche em virtude da chuva e, infelizmente, no teriam a alimentao que l era servida, uma bno nesses tempos de crise. Atendeu ao telefone, tomou o 
caf que a colega lhe trouxe, arrumou a mesa, tirou o material das gavetas e comeava a trabalhar nos relatrios quando recebeu um chamado. O chefe queria falar 
com ela. Muniu-se de coragem, ergueu a cabea e foi at a sala do senhor Carneiro. Bateu delicadamente, e entrou.
- O senhor mandou me chamar? - perguntou polidamente. O homem que ali estava era troncudo, baixo, de pescoo curto e grosso enterrado nos ombros. Carneiro olhou-a 
de alto a baixo, com seus olhinhos apertados, e respondeu:
- A senhora atrasou-se bastante hoje, dona Valria. Tentando no demonstrar seus verdadeiros sentimentos em relao a ele, a funcionria respondeu:
- O senhor tem razo. Peo-lhe desculpas. Mas a chuva... Interrompendo-a, ele no permitiu que ela continuasse:
- Desculpas, sempre desculpas. Deveria ter previsto que com a chuva, levaria mais tempo para chegar aqui e que, por isso, tinha de sair mais cedo de casa.
- Concordo com o senhor. Errei, com certeza. Mas, quando sa de casa no estava chovendo tanto e resolvi vir a p. Esse foi meu erro. Peo-lhe mais uma vez que me 
perdoe, senhor Carneiro. Isso no acontecer mais. Prometo-lhe - justificou-se, sem dizer que, na verdade, no tinha vindo de nibus por falta de dinheiro.
Vendo-a compungida e medrosa  sua frente ele sentiu uma satisfao toda especial. Gostava de espezinh-la e v-la entregue em suas mos; sentia um prazer quase 
fsico. Considerou, porm, que por agora, era suficiente.
- Est bem, dona Valria. Aceito suas escusas. Mas que isso no se repita. De outra vez, talvez no seja to generoso. Pode ir.
- Obrigada, senhor. Prometo-lhe que o problema no voltar a ocorrer.
Virou-se e saiu da sala pisando firme. Ao chegar em sua mesa, desabou sobre a cadeira. Lgrimas silenciosas corriam-lhe pelo rosto.
- Como foi? - quis saber Janete, curiosa e preocupada ao ver o estado da amiga.
- Voc pode imaginar. Insinuou que chego tarde constantemente e que vivo dando desculpas. Logo eu, que procuro chegar sempre antes do horrio.
- Ele quer pis-la o mximo que puder, voc sabe - considerou a colega.
- Sim, eu sei. 
- Humilhei-me, pedi perdo, fiz tudo o que precisava. No posso correr o risco de perder este emprego, minha amiga. Nossa situao em casa j est complicada o suficiente 
sem isso. Mas, vamos trabalhar. No quero que ele passe, nos veja conversando e tenha outros motivos para reclamao.
Envolvida no servio, Valria no viu o tempo passar. Quando soou a campainha, ela levou um susto. Hora do almoo. Janete veio busc-la. Sempre almoavam juntas. 
Era o tempo que tinham para colocar a conversa em dia. No refeitrio, havia um burburinho diferente no ar.
- O que ser que aconteceu? - indagou Valria para a amiga.
- No sei. Mas vejo Ruth chorando. Vou me informar e j volto com notcias.
Janete voltou com uma bomba:
- Voc no vai acreditar. Ruth foi demitida!
- Demitida? Qual o motivo?
- O mais usado quando no se tem motivo: conteno de gastos.
- Ah!...
- Agora vai comear uma corrida. O cargo de secretria do chefe atrair o interesse de muita gente - considerou Janete, pensativa.
Naquele instante Valria sentiu uma fisgada no corao. Uma luz vermelha de alerta comeou a piscar dentro dela indicando perigo. Nada havia que justificasse sua 
preocupao, no entanto, a partir daquele momento, passou a sentir-se tensa e inquieta. Por que demitir Ruth, reconhecida e elogiada pela sua competncia? No fazia 
sentido. O resto do dia passou sem incidentes. Ao chegar em casa, o marido j tinha feito uma sopa de legumes com a ajuda das meninas, que estavam felizes por poder 
mostrar sua boa vontade  mame, que voltava cansada do servio.
- Boa noite, minhas queridas! Como passaram o dia? E voc, meu amor? Sua sopa est com um aroma que a gente pode sentir l da rua!
O clima era de alegria e paz. Valria sentiu-se recompensada pela canseira do dia. Estar com os familiares queridos no ambiente do seu lar era uma bno de valor 
inestimvel. Sentaram-se e jantaram, enquanto Marcela e Roberta comentavam o que tinham feito naquele dia.
- Ainda bem que parou de chover, mame. Amanh vamos poder ir  creche, no ?
- Claro, filhinha. Mesmo porque, no  bom perder aula. 
Conversaram animadamente por algum tempo, depois a me ordenou que fossem colocar o pijama e escovar os dentes para dormir. Colocou as meninas no leito, contou-lhes 
uma histria e em seguida fez uma orao com elas. Beijou-as, apagou a luz e saiu, deixando a porta encostada. Retornando  sala, sentou-se no sof ao lado do marido. 
Mauro abraou-a com carinho. 
- Voc tenta disfarar, mas est preocupada. O que houve?
Sem desejar afligir o marido, que ignorava o assdio do chefe a ela, explicou:
- Nada de importante. Hoje foi um dia difcil. Levei uma bronca do patro por ter chegado tarde e isso me deixou chateada.
- Voc no se justificou, minha querida?
- Claro. Ele aceitou minhas desculpas.
- Ento? Esquea o incidente.
- Tem razo. No vou pensar mais nisso. Vamos dormir? Estou exausta.
- Vamos. Amanh no posso perder a hora. Tenho uma entrevista logo cedo. E uma proposta de emprego.
- Mauro, que bom! Voc no tinha me contado!
Com jeito meio constrangido, ele comentou de cabea baixa:
- No queria dar-lhe falsas esperanas, querida. Vamos ver como me saio na entrevista. No quero nem posso me decepcionar novamente.
Abraando o marido, Valria o animou:
- Confie em Deus, meu bem. Tenho certeza de que desta vez dar tudo certo.
- Deus a oua!
Na manh seguinte estavam todos animados. As crianas porque iriam para a escola, e Valria e Mauro pela expectativa de um bom emprego para ele. Despedindo-se do 
marido, Valria desejou-lhe boa sorte. Em seguida, tomou o rumo da empresa. Chegou bem antes da hora e poucas pessoas ali estavam. Foi para sua mesa e comeou a 
trabalhar. O tempo passou rapidamente. Na hora do almoo, sentou-se com Janete numa mesa de canto. Sentia-se feliz e queria compartilhar suas esperanas com a amiga, 
contar-lhe sobre a possibilidade de um bom emprego para o seu marido. Nisso, notou, com estranheza, que os outros colegas a olhavam e cochichavam. 
- O que est acontecendo, Janete? O ambiente est estranho! A amiga abaixou a cabea, pensou um pouco e depois disse, lentamente:
- Corre um boato de que a nova secretria do chefe ser voc, Valria.
Perplexa, ela se defendeu:
- Eu?! Mas, por qu? Se h algum que no deseja esse cargo sou eu, voc sabe!- Eu sei, amiga, mas os outros no.
- Voc sabe quanto gosto da Ruth. Seria a ltima pessoa a trabalhar contra ela. Alm disso, tenho outros motivos que voc no ignora.
- Certo. Nossas colegas, porm, pensam que voc se utilizou exatamente da queda que o nosso "carneirinho" tem por voc para subir.
Indignada, Valria ameaou levantar-se e tomar uma atitude, mas Janete a impediu.
- Isso  um absurdo! Vou l falar com elas, Janete.
- No faa isso, Valria. No vai adiantar. Aja de forma normal e, se for consultada para o cargo, no aceite. E a melhor resposta que poder dar-lhes.
- Tem razo. Quem no deve no teme. Bem, vamos voltar ao servio porque este ambiente est me incomodando.
Retornaram e mergulharam no trabalho. Por volta das cinco horas da tarde, Valria foi chamada  sala do patro. Pedindo licena, entrou e ficou em p aguardando 
suas ordens. 
- Sente-se - ordenou ele.
- No, obrigada. Estou bem assim. O senhor deseja alguma coisa?
- Sente-se, j disse.
A contragosto, Valria sentou-se.
- Com certeza a senhora j sabe que dona Ruth foi demitida.
Ela permaneceu impassvel, sem confirmar ou negar.
- Preciso de uma nova secretria. Estive analisando cada funcionria da empresa e cheguei  concluso de que a senhora, dona Valria,  a mais indicada.
Tentando manter a tranqilidade e o equilbrio, ela respondeu:
- Creio que se engana, senhor Carneiro. Outras funcionrias existem com mais condio do que eu. Alm disso, no poderia aceitar o cargo porque tenho um marido e 
duas filhas pequenas que dependem de mim. No poderia ficar alm do horrio habitual, como muitas vezes acontece nesse caso - considerou com um pouco de ironia.
- Pense bem, dona Valria. O cargo que estou lhe oferecendo representa um salrio bem melhor, alm de outras vantagens.
Ele fez uma pausa, analisando a reao dela. Como Valria continuasse calada, prosseguiu ardiloso:
- Por falar nisso, como vai seu marido? Ainda desempregado? No creio que possa se dar ao luxo de recusar um salrio mais atraente e que representa o sonho de todas 
as nossas funcionrias. Pense bem.Valria, nervosa, levantou-se, respondendo grave e digna:
- J pensei, senhor Carneiro. Prefiro ficar onde estou. Gosto do meu servio.
- Infelizmente, devo dizer-lhe que se no aceitar minha proposta no poder permanecer nesta empresa. Ser demitida. Ento, no me d a resposta agora. Reflita at 
amanh, pelo menos. Consulte o travesseiro, pese os prs e os contras, oua seu esposo, e depois voltaremos a conversar. Est bem?
Valria concordou, quase desfalecendo. Reunindo as poucas foras que lhe restavam, caminhou at a porta, deixando a sala. Sem condio de voltar para sua mesa, dirigiu-se 
 toalete. Ali, sozinha, desatou em pranto convulsivo. Janete, percebendo que a colega tinha sado do gabinete do chefe e se dirigido diretamente  toalete, foi 
atrs dela, encontrando-a lavada em lgrimas. 
- O que houve, Valria?
- Aquele homem terrvel ofereceu-me o cargo de sua secretria. Janete esteve a ponto de pronunciar um "eu no lhe disse?".
Todavia, conteve-se a tempo, vendo o desespero da amiga.
- E voc, aceitou?
- Claro que no! Mas aquele sdico colocou-me diante de um impasse: ou aceito ou sou demitida. Percebe?
Em grande desespero, Valria deixou-se escorregar pela parede caindo estatelada no piso.
- Ento, como vai ficar? Voc disse que no aceitava?
- Isso mesmo. Mas ele insistiu para que eu no desse uma resposta hoje. Que pensasse at amanh. Minha esperana  que o Mauro consiga o emprego que tem em vista.
- Viu? Acalme-se. Sempre tem uma sada, amiga. Deus sempre nos ampara.
-  verdade. Entretanto, Janete, mesmo que Mauro consiga o emprego, preciso do salrio que ganho aqui. Meu dinheiro no est dando, temos passado necessidades.
- Confie em Deus. O amanh nos reserva sempre novas oportunidades.
- Espero que o Mauro tenha conseguido aquele emprego. 
Tentando parecer mais serena, Valria lavou o rosto, recomps a fisionomia e voltou para sua mesa. Felizmente estava quase na hora de encerrar o expediente. Janete 
tem razo. Necessrio ter confiana. Amanh ser outro dia, cheio de novas esperanas. Elevando o pensamento a Jesus, Valria suplicou:
- Senhor, me ajude!


CAPTULO 17 - TOMADA DE DECISO

"Pela prece, o homem atrai para si o auxlio dos bons Espritos que o vm sustentar nas suas boas resolues e lhe inspirar bons pensamentos. Ele adquire assim a 
fora moral necessria para vencer as dificuldades e voltar ao bom caminho, se dele se afastou."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 27, ITEM 11)

Entrando em casa, Valria encontrou Mauro na cozinha preparando um lanche. Ao mesmo tempo, ouviu o barulho do chuveiro e a risada das meninas, que tomavam banho, 
o que lhe deu um agradvel sentimento de paz e aconchego. Aproximou-se do marido, ansiosa:
- E ento, querido? Como foi a entrevista? Coando o caf, ele respondeu sem se virar:
- Nada feito. Ainda no foi dessa vez. Infelizmente.
- Mas, como? Voc estava to cheio de esperanas, parecia ser o emprego sob medida!
- Pois . Eu fui muito bem na entrevista, mas chegaram  concluso de que no tenho o perfil ideal para aquele cargo.
- Mas...
Valria caiu sentada numa cadeira. Naquele instante, viu suas esperanas se escoarem pelo ralo. E agora? Teria que aceitar a proposta daquele infame? Colocando o 
caf na mesa, Mauro percebeu quanto sua esposa estava decepcionada. Abraou-a com carinho, consolando-a: 
- No se preocupe, querida. Trouxe o jornal para examinar os classificados, e amanh mesmo voltarei s ruas. No  possvel que no surja algo. No sou exigente. 
Qualquer coisa serve!
Viram as meninas que saam do banheiro enroladas em toalhas, e pararam de falar. Evitavam sempre que as filhas participassem de seus problemas. Valria colocou um 
sorriso no rosto e elas beijaram a me, alegres. No quarto, enquanto as ajudava a vestir o pijama, Marcela e Roberta tagarelavam contando tudo o que tinham feito 
na creche, o que aprenderam, o passeio a um bosque, ali perto. Prontas para dormir, sentaram-se para tomar o lanche. Roberta estava sem fome. Marcela comeu com satisfao 
o sanduche que a mame preparou, acompanhado de um copo de leite com caf.
- Por que no quer comer, minha filha? - perguntou  maior.
- Comi muito na creche hoje, mame. Tinha arroz-doce, que adoro!
- Ah, ento entendo porque Marcela est com fome. Voc no gosta de arroz-doce, no  querida?
- . Mas na creche tomei dois pratos de sopa, mame.
-  que ela  esfomeada mesmo! - retrucou Roberta, fazendo todos carem na risada.  Acabaram de tomar lanche, e as meninas puderam ficar na sala assistindo a um 
desenho de que elas gostavam muito. Depois, Valria colocou-as para dormir. Voltando para a sala, sentou-se junto do marido, que assistia a um jornal na televiso. 
Ela precisava falar com Mauro, mas no sabia como. Precisava resolver, com a ajuda dele, se aceitaria o cargo de secretria do chefe. Porm, como fazer isso sem 
contar-lhe sobre o assdio sexual que estava enfrentando no servio? Mauro diminuiu o volume do aparelho e abraou-a.
- Fique tranqila, querida. Voc est triste porque no consegui o emprego hoje, mas amanh poder ser diferente. Precisamos ter esperana! - consolou ele, julgando 
fosse esse o motivo de Valria estar to calada.
Como ela continuasse com ar preocupado, ele olhou-a, sorridente, e concluiu:
- Vamos, querida, nimo! Afinal, nada mudou de ontem para c. Tudo continua da mesma maneira.  apenas uma expectativa que no se concretizou. S isso. Felizmente, 
podemos contar com seu salrio. Enquanto no arrumo servio, continuo levando e buscando as crianas na creche, fazendo as tarefas domsticas e procurando trabalho. 
Deus tem sido bom para ns. No podemos nos queixar, no ?
Valria tinha um n na garganta e um imenso desejo de chorar e de abrir seu corao ao marido. Todavia, no podia deixar que ele percebesse seu estado de esprito. 
Assim, respirou fundo, contendo as lgrimas. Estava decidido. No poderia desistir do emprego agora. Precisava enfrentar a situao, custasse o que custasse.
- Voc tem razo, querido. Felizmente, no nos faltam recursos. No  muito, mas o que ganho na empresa d para nos mantermos.
Fez uma pausa e, com os olhos midos, deu a notcia:
- Hoje recebi uma proposta da empresa: o cargo de secretria do chefe. O salrio  maior e terei outras regalias. Fiquei de dar a resposta amanh. No queria decidir 
sem ouvir sua opinio.
Mauro arregalou os olhos, radiante.
- Querida, mas isso  timo! Mas parece que voc no est muito contente. Por qu?
- Bem, talvez tenha que trabalhar mais, fazer horas extras, e voc...
- Entendi. Est preocupada com as meninas, caso eu comece a trabalhar tambm.
Porm, se voc ganhar mais, poderemos contratar algum para ir busc-las na creche e ficar com elas at voltarmos para casa. Veja! As coisas esto melhorando! Tudo 
vai dar certo - disse o marido todo animado.
- Voc tem razo, Mauro. Tudo vai dar certo.  Valria tinha o corao apertado, mas no podia jogar balde de gua fria no entusiasmo do marido. Teria de enfrentar 
a situao.
Deitada, no conseguia conciliar o sono. Sentia medo do futuro, medo do que poderia acontecer. Estava sem nimo e desejando que o novo dia no chegasse nunca. Amanhecia 
quando conseguiu cochilar. O despertador, porm, acordou-a, lembrando-a de seus deveres. Levantou-se com o corpo todo dolorido. Tomou banho, acordou Marcela e Roberta, 
arrumou-as, enquanto Mauro preparava o caf-da-manh. Depois do lanche matinal, saram juntos, tomando rumos diferentes: Mauro com as filhas a caminho da creche, 
e ela, para a empresa. Entregue a si mesma, Valria ia pensando em seus problemas. Gostaria de ter a f de sua amiga Janete, mas no conseguia. Ensinava as filhas 
a rezar, por tradio, porm no se sentia prxima de Deus. Passando perto de uma igrejinha, aquilo lhe pareceu um sinal. Ainda tinha tempo. Resolveu entrar. O ambiente 
tranqilo da igreja reagiu favoravelmente sobre seu nimo. Sentiu-se melhor, mais serena. Ajoelhou-se, pedindo a Jesus que a ajudasse a resolver seus problemas. 
Rezou um pai-nosso e saiu. Reconhecia que estava melhor. A tenso diminura e o corao j no batia descompassado. Por que se preocupar tanto? Aceitaria a proposta. 
Uma mulher sempre tem meios de se defender, escapando do assdio do patro. Resolveu que levaria a situao em banho-maria, dando tempo para que Mauro encontrasse 
um emprego. Depois, nesse perodo, ela mesma poderia ir sondando espao em outras empresas. Sabia de pelo menos duas que estavam contratando funcionrias para escritrio. 
Como isso no lhe passara antes pela cabea?! Era uma boa soluo. Cheia de novas esperanas, chegou ao prdio da empresa. O burburinho era grande. Percebia pelos 
olhares e cochichos que estavam falando dela. Era o assunto do dia. Entrou calada, agindo normalmente; cumprimentou a todos e fingiu no notar o que estava acontecendo. 
Acomodou-se em sua mesa e, baixando a cabea, concentrou-se no trabalho. No daria o primeiro passo. Ficaria esperando que o patro a chamasse, rezando para que 
ele tivesse mudado de idia. Conquanto procurasse manter uma atitude serena e equilibrada, no fundo estava tensa e angustiada. O corao batia forte e, ao menor 
rudo, estremecia. Em torno das dez horas, Janete, que tinha ido at o gabinete do chefe entregar um relatrio, passou por sua mesa e avisou:
- Valria, o patro quer v-la. Coragem!
Ela levantou-se de pernas trmulas, respirou fundo e caminhou at a sala do senhor Carneiro, acompanhada pelos olhares dos demais funcionrios. Bateu delicadamente 
e entrou.
- Mandou me chamar, senhor?
- Sim, dona Valria. Sente-se. Conforme conversamos ontem, aguardo sua resposta. Aceita o cargo como minha secretria?
Tentando ganhar tempo, Valria ponderou:
- O senhor acha que vou dar conta do servio? Afinal, existem pessoas aqui dentro da empresa mais qualificadas para o cargo.
- No concordo dona Valria. A senhora  a pessoa ideal. Tem presena, sabe tratar as pessoas, se expressa bem. Quanto ao mais, o que no souber, aprender com o 
tempo. E ento?
- Bem, se o senhor pensa assim, aceito.
Carneiro fingiu no perceber o ar acabrunhado dela.
- timo. Ento, a partir de hoje, seu lugar  aqui na sala ao lado. Pode ir buscar suas coisas.
Ao sair, Valria percebeu que havia um silncio estranho na grande sala, quase palpvel; todos haviam parado de trabalhar. De repente, ao v-la, todos recomearam 
a trabalhar ao mesmo tempo, disfarando. Se seu nimo fosse outro, teria comeado a rir. Sem olhar para os lados, caminhou pelo corredor at sua mesa, onde comeou 
a arrumar seus pertences. Janete aproximou-se:
- E ento, amiga?
- No teve jeito. Ou eu aceitava ou ia para o olho da rua, e com marido desempregado em casa no posso me dar a esse luxo.
- Entendo. E agora?
- Agora tenho de enfrentar a fera. A partir de hoje, todavia, comeo a procurar outro emprego.
Com uma caixa nos braos, cruzou de novo o corredor sob os olhares irnicos e atentos dos demais. Contendo as lgrimas, tomou posse da sala contgua  do chefe. 
Tensa, permaneceu todo o dia tentando aprender o servio e nem viu o tempo passar. Aos poucos, foi relaxando ao ver que Carneiro portava-se com delicadeza e correo. 
No tendo motivo para medo, Valria ficou mais tranqila.  No dia seguinte, menos tensa, ela  enfrentou os problemas normais do cargo, atendendo s pessoas, visitantes, 
credores e fornecedores, com naturalidade. No final do expediente, ao passar por sua mesa, o chefe a cumprimentou:
- Parabns, dona Valria. Hoje s recebi elogios  sua pessoa. Todos foram unnimes em gabar-lhe a eficincia e finura de trato.
- Obrigada, senhor.
- Pode ir agora.
Valria estava comeando a achar que se equivocara. Afinal, ele no era to terrvel assim como diziam.

CAPTULO 18 - AJUDA PROVIDENCIAL

"Pedi e se vos dar; buscai e achateis; batei a porta e se vos abrir; porquanto, quem pede recebe e quem procura acha e, quele que bata a porta, abrir-se-."
JESUS (MATEUS, 7: 7 E 8)

Uma semana depois, Valria estava adaptada  situao, segura e confiante. Na sexta-feira, quase no encerramento do expediente, o chefe chamou-a: 
- Dona Valria, infelizmente surgiram problemas urgentes que tenho de resolver ainda hoje. Preciso que me faa algumas correspondncias, pode ser?
- Claro, senhor Carneiro. Pode ditar.
Depois de fazer as anotaes, a secretria sentou-se defronte do computador para digitar as correspondncias, visto que teriam de ser enviadas no mesmo dia, por 
meio de portador. Quando Janete veio cham-la para irem embora, Valria explicou:
- No posso, Janete. Ainda tenho servio urgente para fazer. Pode ir, irei quando terminar.
Janete despediu-se e saiu. Dentro em pouco, no havia mais ningum no prdio. S o pessoal da limpeza. Todo o barulho cessara. Carneiro assinou os documentos e disse:
- A senhora trabalhou muito hoje. Precisa relaxar um pouco. Aceita um copo de vinho?
Valria ficou constrangida, julgando que seria indelicadeza recusar.
- Aceito. S um pouquinho. Mas, e as correspondncias?
- No se preocupe. Eu mesmo entregarei em mos. Tenho um jantar ainda hoje com empresrios e pessoas do governo. Carneiro entregou-lhe uma taa de vinho enquanto 
falava de como estava satisfeito com seus servios, quanto era eficiente e como gostava dela. Valria, nesse momento, percebeu que ele j tinha bebido.
Delicadamente, ela tomou um gole de vinho e respondeu:
- Agradeo-lhe, senhor, mas no fao mais do que cumprir minhas obrigaes. Preciso ir agora - disse, fazendo meno de levantar-se.
O chefe, que se erguera para servir-se de nova dose de bebida e passava por detrs da poltrona onde Valria estava sentada, impediu-a, inclinando-se e cheirando 
seus cabelos:
- Seu perfume  delicioso, Valria.
Estendeu os braos para envolv-la; mas quando ela sentiu o resfolegar dele no seu pescoo, seu hlito quente e o odor de bebida que tresandava, foi mais gil. Levantou-se 
de um pulo e fugiu do abrao dele.
- Senhor Carneiro,  tarde e preciso ir para casa.
- No, fique. Vamos jantar juntos para comemorar.
- No posso. Lamento. E comemorar, o qu? Alm do mais, o senhor disse que j tem um compromisso para esta noite - lembrou-o, como secretria eficiente, pensando 
que ele j tinha bebido demais e poderia se esquecer.
Assim dizendo, pegou a bolsa e saiu correndo do escritrio. O corao batia forte no peito. S ficou mais tranqila ao ver-se em plena rua. Andou apressadamente 
por muitas quadras at que, cansada, resolveu parar um pouco para descansar. Valria sentou-se numa pequena praa. O que fazer? No podia voltar para casa naquelas 
condies: completamente desequilibrada, nervosa, angustiada, lgrimas correndo pelo rosto, mos trmulas. Como justificar seu estado perante o marido e as filhinhas? 
Estava entregue a si mesma, sem saber o que fazer, sem coragem para voltar para casa, quando uma senhora chegou de mansinho e sentou-se a seu lado no banco. Com 
delicadeza, ofereceu-lhe um lencinho:
- Posso ajudar, moa?
Valria virou-se, viu uma mulher desconhecida e sentiu vergonha de estar chorando em plena praa. Aceitou o leno, assoou o nariz e enxugou as lgrimas, depois murmurou:
- Obrigada. Agradeo sua ateno. Estou realmente desesperada, mas ningum pode me ajudar.
- Quem sabe? No h problema sem soluo, minha filha. Confie em Deus. Olhe, est vendo aquele pequeno porto, ali na frente?
Valria olhou e viu um portozinho de ferro.
- Sim.
- Pois bem. Nesta noite, ali mesmo, temos um trabalho de ajuda aos sofredores e aflitos. Quer participar? Asseguro-lhe que se sentir muito bem. Sua privacidade 
ser respeitada. Se no quiser falar, no ser obrigada. Ter, no entanto, um ambiente tranqilo para se acalmar e depois voltar para sua casa. O que acha?
Valria, que no queria mesmo retornar para o lar naquelas condies, aceitou. Adlia, a nova amiga, conduziu-a. A casa era antiga, com paredes brancas e as janelas 
com detalhes em azul. Na frente, uma placa com o nome: "Centro Esprita Amor e Paz". Valria gostou do nome e pensou que sempre tivera curiosidade de entrar num 
centro esprita, sem nunca ter coragem. Tinha chegado a hora. Atravessaram a rua e entraram. Alm do porto, surpreendente e lindo jardim surgiu cheio de arbustos 
e flores. Uma msica suave tocava, levando Valria a sentir inusitado bem-estar. No salo, que caberia no mximo uma centena de pessoas, tudo era serenidade; os 
que ali j se encontravam mantinham-se em recolhimento ntimo. Tudo transpirava tranqilidade e paz. Adlia, em voz baixa, explicou  nova amiga que haveria uma 
palestra e, depois, o trabalho de aplicao de passes; em seguida, ela poderia, se assim o desejasse, conversar com algum do Servio de Atendimento Fraterno. Durante 
a prece inicial e a palestra, Valria sentiu grande emoo, sentimento esse que aumentou na hora do passe. Como se as comportas de sua alma no suportassem mais 
a presso, chorou copiosamente. Encerrada a reunio, como sentisse vergonha de conversar com uma pessoa estranha, foi introduzida numa pequena sala, no fundo, abrindo 
seu corao para Adlia, sua nova amiga e trabalhadora da casa. Quando terminou de falar, suplicou de forma comovente:
- Ajude-me, Adlia. No sei o que fazer.
Com serenidade, a senhora, que a ouvira de forma atenta e respeitosa, considerou:
- Voc me disse que nunca foi ligada a religio e que no tem o hbito de orar. No entanto, reconhece que o ambiente da nossa casa, a prece, a palestra e a aplicao 
de energias por meio do passe lhe fizeram muito bem. Tudo isso, Valria,  o resultado da f. 
Prosseguiu falando, calmamente, de forma concisa e clara, do amparo de Deus que nunca abandona seus filhos e que grande parte das vezes as pessoas no percebem essa 
ajuda. Explicou sobre a necessidade de elevao do pensamento para sentirmos a proteo divina. Considerou que, provavelmente, seu patro tambm estaria necessitado 
de ajuda, o que demonstrava com suas atitudes, e orientou-a a orar por ele.
- Quando pensar em seu patro, ao invs de mandar-lhe pensamentos negativos, de desprezo, raiva e rancor, ore por ele. Ao entrar na empresa envie pensamentos bons 
para todos, especialmente para seu chefe, desejando-lhe um bom dia e o amparo de Deus para ele e sua famlia. Voc ver a diferena, Valria.
- Ser? Justo para esse homem que me atormenta? - considerou.
- Experimente. Voc vai se surpreender. E, para completar, sugeriu:
- Como voc disse que nada conhece sobre Doutrina Esprita, se tiver interesse, venha estudar conosco. Garanto-lhe que vai gostar.
Despediram-se e Adlia deu-lhe de presente um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Valria agradeceu a gentileza e prometeu voltar. Estava tima. Uma sensao 
de bem-estar, de otimismo e de confiana a dominava por inteiro. Sentia-se fortalecida, segura, e com a sensao de que poderia resolver qualquer problema. Entrou 
em casa e todos perceberam que estava alegre e bem-disposta. Naquela mesma noite, antes de dormir, leu um trecho do novo livro e encantou-se. O Evangelho de Jesus 
surgia-lhe renovado e as explicaes falavam-lhe de uma maneira que nunca tinha lido antes. No dia seguinte, agiu como se nada tivesse acontecido. Conforme Adlia 
tinha sugerido, entrou fazendo uma prece e enviando bons pensamentos ao chefe e a todos os funcionrios. Ento, no escritrio as coisas comearam a mudar como conseqncia 
da sua prpria mudana de atitude. Um fato novo aconteceu, que Valria julgou ser obra do "acaso". Ao atender uma ligao telefnica, uma mulher desejava falar com 
o senhor Carneiro. Como ele no estivesse, perguntou o nome para ligar de volta assim que ele chegasse.
- Diga-lhe apenas que Norma telefonou. Sou a esposa dele.
- Ah! Pois no, dona Norma. Darei o recado.
Trocaram algumas palavras e houve uma imediata simpatia entre elas.
A partir daquele dia, Norma voltou a telefonar outras vezes; gostava de conversar com Valria. Um dia, convidou-a para tomarem um lanche aps o servio. Valria 
aceitou e, no horrio combinado, encontraram-se na porta da empresa. Dirigiram-se a uma elegante casa de ch, e conversaram bastante. Norma abriu o corao:
- Tenho muitos problemas com meu marido, Valria. Ele gosta de beber e faz coisas que no deve. No gosta que eu telefone, nem v  empresa, talvez para se considerar 
mais livre. No quer que eu veja as mulheres com as quais se relaciona.
Norma parou de falar, tomou um gole de ch, depois prosseguiu:
- Vou lhe confessar uma coisa, Valria. Quando telefonei a primeira vez, e perguntei por meu marido, queria na verdade falar com voc. Tinha ouvido alguns comentrios 
maldosos, que afirmavam que meu marido estaria tendo um relacionamento com a secretria. 
Valria empalideceu. Abriu a boca para explicar-se, mas Norma no permitiu:
- No, minha amiga, no se preocupe. Sei que meu marido no  um modelo de fidelidade conjugai. Sei que j manteve casos com vrias das funcionrias da empresa. 
Por intermdio da sua voz, porm, aprendi a conhec-la. Percebi a sinceridade de suas intenes, o carinho com que se refere ao seu marido, Mauro, e o amor que dedica 
s duas filhinhas.
- Asseguro-lhe, Norma, que entre o senhor Carneiro e mim nunca houve nada - afirmou Valria.
- Eu sei, minha querida. Conheo, porm, meu marido de sobra para saber que ele no deixaria passar uma bela moa como voc, sem tentar seduzi-la. Confesso que, 
antes de conhec-la, fiquei com cimes. Depois, senti que poderia ter confiana em voc, o que hoje se confirmou com nosso encontro. Voc no me parece o tipo que 
aceita esse gnero de relao, Valria.
- Tem razo, Norma. Jamais aceitaria uma situao ambgua como essa. Fui educada segundo padres morais rgidos. Alm disso, j tenho problemas suficientes na vida. 
Pode confiar em mim.
Norma percebeu uma expresso preocupada no rosto da outra e teve vontade de conhecer seus problemas. Queria ajudar, contudo Valria no parecia disposta a abrir-se. 
Resolveu deixar que o tempo se encarregasse de mostrar  nova amiga que ela tambm era digna de confiana. Continuaram conversando. Norma contou como era sua vida 
ao lado do marido, e Valria encheu-se de compaixo por aquela mulher to rica e to infeliz. Reconheceu que ambos estavam precisando de ajuda. Com delicadeza e 
"pisando em ovos", sugeriu:
- Norma, no sei o que voc pensa sobre o assunto, mas estou freqentando um lugar que me tem feito grande bem. E um centro esprita. Acho que tanto voc quanto 
seu esposo esto precisando de ajuda.
Fez uma pausa, e perguntou:
- Voc acredita "nessas coisas"?
- No sou preconceituosa, se  o que voc quer saber, Valria. Estou aberta a tudo que possa mudar nossa vida. Devo dizer-lhe, inclusive, que j freqentei outras 
religies, sem encontrar o que procurava. Aceito qualquer coisa. O ambiente em casa  pssimo e meus filhos no suportam ficar dentro de casa. E eu, sinto enorme 
solido. Conheo muita gente, mas no tenho amigas. No fundo, todos ns estamos sofrendo bastante. Sim, concordo que precisamos de ajuda.
- Ento, a reunio  sexta-feira, s vinte horas.
- timo. Passarei para busc-la na sada do servio. Tomamos um lanche e vamos para a reunio. Combinado?
- Combinado.


CAPTULO 19 - MUDANAS IMPORTANTES

"(...) somente  inabalvel a f que pode encarar a razo face a face, em todas as pocas da Humanidade."  
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 19, ITEM 7)

Valria e Norma chegaram  casa esprita meia hora antes do horrio marcado para incio da reunio. Ao entrar, Valria logo procurou sua amiga Adlia, que a abraou 
com imenso carinho. Depois, fez as apresentaes:
- Norma, esta  Adlia, a amiga sobre a qual lhe falei e que tanto me tem ajudado.
Adlia, esta  Norma, esposa do senhor Carneiro, o dono da empresa onde trabalho. Adlia, gentil e sorridente, cumprimentou a nova freqentadora, abraando-a e dando-lhe 
as boas-vindas.
- Espero que goste da nossa casa, Norma. Fiquem  vontade. Tenho tarefa urgente e peo-lhes desculpas. Conversaremos aps a reunio.
E, antes de se afastar, sugeriu:
- Valria, deixo-lhe o encargo de orientar Norma e explicar-lhe como funciona a reunio. Mostre-lhe nossas instalaes, com as quais voc j est bem familiarizada, 
no ?
- Claro, Adlia. Deixe por minha conta.
Visitaram o salo de palestras, as salas de cursos, de atendimento, de aulas de moral crist infanto-juvenil, a biblioteca, a livraria. Nesta ltima permaneceram 
mais tempo, pois Norma se encantou com os livros. Dez minutos antes do incio das atividades, dirigiram-se ao salo. Norma, assim como tinha acontecido com Valria, 
tambm se encantou com a msica suave que tocava, incentivando a elevao do pensamento, o bem-estar e a paz que o ambiente proporcionava. Ao terminar a reunio, 
Norma estava fascinada com tudo: a palestra, o passe, o ambiente fraterno e aconchegante. Pela primeira vez, tinha podido encontrar realmente Jesus. Lembrava-sedas 
muitas igrejas que tinha freqentado. Em todas elas havia o culto exterior da religio, sem o apelo  razo. Entrara em templos cujo objetivo primordial era o dinheiro, 
nos quais a ateno que se recebia era proporcional aos recursos que se tivesse; em alguns, a gritaria era tamanha que a deixava aturdida, como se, para conversar 
com Deus, fosse necessrio elevar o tom de voz para fazer-se ouvido; em outros, sentiu ambiente de paz, de harmonia e a elevao das intenes, contudo, como as 
oraes fossem realizadas em lngua estranha ao seu entendimento, reconheceu-se incapaz de acompanh-las; em muitos desses templos utilizavam recursos exteriores 
para atingir o bem-estar e a paz que desejavam, como indumentrias, incensos perfumados, gestos estudados e repetio de palavras e frases. Nunca, porm - mesmo 
em suas viagens pelo mundo -, tinha deparado com uma reunio to singela, to desprovida de aparatos e ao mesmo tempo to prdiga de resultados e com tal apelo  
razo. A mensagem de Jesus Cristo surgia diferente; ao mesmo tempo que falava de coisas velhas, j bastante conhecidas, vestia-se com uma roupagem nova, encantadora, 
fascinante. Incrvel! Era como se nunca tivesse ouvido as lies evanglicas antes. Por isso, estava maravilhada; experimentava enorme bem-estar e tranqilidade, 
alimentados por bons pensamentos e pelo desejo de melhorar e de aprender. A palestra tinha sido to esclarecedora, que nem sentiu necessidade de conversar com algum. 
Entendeu que a felicidade depende da prpria pessoa, que pode fazer-se infeliz ou venturosa, conforme seu comportamento. Que era necessrio aprender a aceitar o 
prximo, exercitando a compreenso, a tolerncia, a pacincia e o amor. Estava disposta a fazer tudo isso. Queria estudar e aprender. Comearia a freqentar o grupo 
de estudos junto com Valria. Depois da reunio, dirigiram-se  livraria. Norma tinha visto alguns livros que desejava adquirir. Comprou vrias obras, algumas por 
orientao de Valria, que, por sua vez, a tinha recebido de Adlia, e outras cujos ttulos e assuntos a interessaram. Ao deixar Valria em seu lar, Norma estava 
completamente diferente. 
- Agradeo-lhe, Valria, a oportunidade que voc me proporcionou hoje de conhecer algo diferente. Como lhe afirmei antes, j li bastante sobre religio e freqentei 
muitos templos. Nunca, porm, encontrei o que senti hoje, naquela casa simples e despojada. Obrigada, amiga, pela sugesto. Valeu a pena. Olhe, pretendo participar 
do grupo de estudos com voc!
- timo. Iremos juntas. Quer entrar um pouco? Fao um caf e apresento-lhe minha famlia.
- Adoraria. Mas fica para outro dia. Hoje, sinto que preciso ficar quieta num canto para pensar, colocar em ordem meus pensamentos. Amanh conversaremos. Alm disso, 
tenho muita coisa para ler. Boa noite!Valria estava feliz. A satisfao de Norma era muito gratificante. Ela tinha a sensao de que estava no caminho certo e que 
suas vidas iriam mudar, para melhor.
Alguns dias depois, Valria estava trabalhando, entretida na leitura de um documento, quando Norma entrou na sala. Surpresa, Valria cumprimentou a amiga:
- Bom dia, Norma! Voc por aqui? O que a trouxe to cedo  empresa?
- Bom dia, minha querida! Vim conversar com meu marido, e desejo que voc esteja presente.
A secretria "tremeu nas bases". No sabia o que Norma tinha em mente.
- Norma, o que voc vai fazer? - indagou-lhe, cheia de medo.
- No se preocupe. Relaxe!
Norma piscou um olho e, sorridente, entrou na sala do marido, que a recebeu com estranheza.
- O que houve, Norma? Voc no costuma vir ao meu ambiente de trabalho.
- E verdade. Porm, Jos, hoje  um dia diferente. Lembra-se daquela conversa que tivemos ontem  noite?
- Lembro. Mas o que tem a ver nossa conversa com sua vinda aqui?
-  que tomei a liberdade de trazer, para que voc conhea, a pessoa da qual lhe falei, que me tem ajudado muito, o que melhorou nosso relacionamento.
- Sim! Terei imenso prazer em conhec-la. Mande entrar.
- Ela j est aqui, querido. E Valria, sua secretria. Carneiro, ao perceber a presena da funcionria, que se mantivera discretamente no fundo da sala para no 
incomod-los, sentiu-se constrangido. O sangue afluiu em seu rosto.
Norma notou que ele no estava  vontade e fingiu no ter percebido, mostrando-se alegre e descontrada:
- Tinha certeza de que ia surpreend-lo, querido. Mas... No nos convida para sentar?
Recompondo-se, ele tomou p da situao, tratando as duas como visitas.
- Sem dvida! Sentem-se, senhoras. Desejam tomar alguma coisa? Um caf, um suco, uma gua?
- Eu quero uma gua e um caf - pediu Norma.
Valria fez meno de se levantar para atender ao pedido, como de hbito, porm o chefe a interrompeu:
- No, dona Valria. Sente-se. Pedirei pelo telefone.
Levantou o fone e pediu  copeira que trouxesse gua e trs cafs. Depois, virando-se para Valria, indagou-lhe:  
- Mas ento  a senhora que est acompanhando minha esposa ao centro esprita? No conhecia essa sua inclinao, dona Valria. Nunca me disse nada.
- Porque aqui s tratamos de assuntos de servio, senhor Carneiro.
- E verdade,  verdade. Norma fala maravilhas desse lugar que tem freqentado!
- E voc prometeu me acompanhar, querido, na prxima reunio. Lembra-se? - disse Norma.
- Prometi e irei, querida, no se preocupe. Mas, dona Valria, o que a fez interessar-se por essas coisas?
- Bem, senhor Carneiro, eu estava com muitos problemas e precisando de ajuda.
Aconteceu, simplesmente. Encontrei uma senhora que me ajudou e sugeriu-me freqentar o centro. Aceitei, e estou tima.
- Muito bem. Muito bem. Temos bastante o que conversar. Quem sabe marcaremos uma ocasio para isso?
Visivelmente incomodado, fez uma pausa e depois, dirigindo-se  esposa, suplicou:
- Agora, querida, infelizmente preciso trabalhar. Se me der licena, tenho ligaes urgentes a fazer. Desculpe-me.
Norma entendeu a mensagem e ergueu-se. Apesar da pressa do marido em livrar-se delas, no fundo sentia-se muito satisfeita.
- Estou indo, querido, tenha pacincia. S vim mesmo para apresentar-lhe Valria, minha melhor amiga. Eu o verei na hora do jantar. At mais tarde!
Saram as duas e Valria a acompanhou at a outra sala, fechando a porta. Depois, abraaram-se, sorridentes:
- Ento, voc conseguiu mesmo falar com seu marido! E se ele no tivesse aceitado? - considerou Valria.
- Conversamos bastante ontem, Valria. Ele reconhece que, desde que comecei a freqentar o centro esprita, as coisas em casa melhoraram muito. Tenho feito prece 
por ele quando dorme, conforme aprendi no centro. Jos reduziu a ingesto de bebidas alcolicas e o relacionamento dele com nossos filhos, que no toleram bebida, 
melhorou bastante tambm.
Meu marido reconhece que no est bem e que precisa de ajuda, aceitando acompanhar-me na prxima reunio. E tudo o que mais quero!
- Vou orar para que tudo d certo! - disse Valria, animada.
- Confio em Deus. Vai dar certo, Valria. At outro dia! - despediu-se Norma, contente.  Ao ficar sozinha, a secretria tentou trabalhar, voltar sua ateno para 
o documento que estava lendo, entretanto a conversa que tinham tido no lhe saa da cabea.
Meia hora depois, o senhor Carneiro a chamou.
- Pois no, senhor. Deseja alguma coisa?
- Dona Valria, por obsquio, traga-me a pasta de contratos. Ela saiu e voltou com uma volumosa pasta, depositando-a sobre a mesa do patro. Ele a abriu e comeou 
a folhear os documentos. De repente parou e, fitando-a, observou:
- Jamais pensei que a senhora pudesse se interessar por esses assuntos, dona Valria.
- Por que, senhor Carneiro?
- Bem, no me parece o tipo.  centrada, equilibrada, racional. Ao contrrio de minha esposa, que  dada a misticismos e que vive  cata de novidades.
Com leve sorriso, Valria retrucou:
- Pois Norma me parece bastante racional e equilibrada, senhor Carneiro. O fato de ter-se interessado anteriormente por vrias religies  positivo, pois indica 
um desejo imenso de encontrar a verdade, a razo de ser da existncia do ser humano e o porqu de todas as coisas.
- No creio. Conheo-a muito bem e sei que est sempre em busca de coisas novas.
Norma  ftil, e o interesse dela pela Doutrina Esprita no vai durar muito, acredite.
Valria ficou pensativa durante alguns momentos, depois ponderou:
- Certamente o senhor deve conhec-la bem mais do que eu. No entanto, tenho opinio bem diversa a respeito de sua esposa. Vamos ver. S o tempo vai mostrar quem 
tem razo. Deseja mais alguma coisa, senhor?
- Sim. Explique-me a senhora, que julgo to sria. Por que se interessou por essa doutrina? Vocs acreditam na reencarnao, segundo ouvi dizer. S isso?
- De forma alguma. A reencarnao  um dos fundamentos do Espiritismo, que nos mostra a justia e a bondade do Criador. Nossa doutrina abrange cincia, filosofia 
e religio.
Melhor, porm, seria se o senhor mesmo lesse O Livro dos Espritos, obra que contm toda a base da Doutrina Esprita. Nele poder verificar a verdade do que lhe 
afirmo.
- Onde posso encontrar esse livro?
- Nas boas livrarias da cidade. A propsito, tenho aqui comigo um exemplar e poderei lhe emprestar, se o senhor quiser.
- Aceito seu oferecimento. Obrigado.
Valria saiu por instantes e retornou com um livro nas mos.  - Aqui est, senhor Carneiro. Leia, e depois, se o senhor desejar, conversaremos a respeito. Ainda 
no sou grande conhecedora da Doutrina Esprita, mas posso indicar-lhe algum que tire suas dvidas.
- Obrigado.
Valria retornou para sua sala, mergulhando no servio. Naquele dia, o chefe no a chamou mais, e nos dias seguintes no tocaram mais no assunto, mantendo relaes 
estritamente profissionais. Na sexta-feira, dia da reunio no centro esprita, Valria e Carneiro estavam no escritrio estudando as modificaes que seriam implantadas 
nas clusulas de um contrato, quando Valria notou que o chefe a olhava de forma diferente. Alis, percebera que ele a estava tratando de maneira mais corts, mais 
delicada e com mais respeito. Sentiu-se um pouco constrangida, porm se manteve calada. Ao encerrar aquele servio, antes que ela sasse para digitar o novo texto, 
Carneiro comentou:
- Dona Valria, no conversamos mais sobre aquele assunto, mas asseguro-lhe que tenho lido o livro que me emprestou e que estou realmente impressionado pela lgica, 
pela seriedade e pela grandeza com que so abordados todos os temas. Estou modificando meus conceitos antigos e agradeo-lhe por ter-me aberto os olhos. E toda uma 
proposta de mudana de vida e de comportamento que se nos depara naquelas pginas.
- Sem dvida. A medida que nossa viso se alarga, podemos identificar nossos erros, e tentar mudar - concordou ela.
Ele abaixou a cabea, contrafeito.
- Agora percebo melhor como tenho errado na vida. Tem razo a senhora em dizer que temos de mudar. Peo-lhe perdo pela maneira como agi com a senhora, dona Valria, 
tratando-a de maneira grosseira e tentando seduzi-la.
Tambm constrangida, ela se justificou:
- Desculpe-me, senhor Carneiro. Quando falei da necessidade de mudana, no queria em absoluto referir-me ao senhor. Pensava em mim mesma e nos erros que tenho cometido. 
No me cabe julgar os atos de outrem. A responsabilidade pelos seus atos  da sua estrita competncia.
- Essas palavras denotam sua generosidade. Sei que no contou  Norma o que aconteceu entre ns. Poderia t-lo feito e no o fez. Por qu?
Valria fitou-o com serenidade, explicando:
- Por que o faria? No vejo motivo para isso. Todos ns temos fraquezas e reconheo que aquele foi apenas um momento de invigilncia, em razo de o senhor ter bebido 
um pouco mais. S isso.
- Obrigado, dona Valria.  generosa. Sinto que no guardou ressentimento por mim. Agradeo-lhe profundamente. Bem, hoje  noite tambm irei  reunio. Peo-lhe 
apenas um favor: no conte  minha mulher que estou lendo sobre Espiritismo. Quero surpreend-la.
- Claro. Pode ficar descansado, senhor Carneiro.
Saindo da sala do chefe, Valria sentia-se emocionada e envolta em intensa sensao de bem-estar e tranqilidade. Agradeceu mentalmente a Jesus o amparo que estava 
recebendo. Tudo caminhava melhor do que poderia esperar. Aps o expediente, Valria foi at uma lanchonete nas imediaes da empresa e tomou um lanche rpido. Ela 
tambm tinha combinado com o marido e as filhas irem todos  casa esprita. Mauro estava curioso para conhecer o local que Valria vinha freqentando ultimamente, 
o qual ela reconhecia como responsvel pela mudana que se operara no seu comportamento. Tornara-se mais tranqila, mais paciente, mais equilibrada. Ento, convidou-o 
para acompanh-la.
- E as meninas? No temos com quem deix-las! - lembrou Mauro, pesaroso.
- No h problema, querido. Marcela e Roberta ficaro junto com outras crianas em uma sala especial, onde recebero aula de moral crist, que se realiza no mesmo 
horrio, enquanto assistimos  palestra. Como no terei tempo de ir para casa, voc e as meninas me aguardaro na pracinha; o endereo j lhe entreguei. Certo?
Afastado o obstculo, no horrio aprazado Mauro e as garotas tomaram o nibus que os levaria ao endereo indicado. Quando chegaram  pequena praa, Valria j os 
esperava. Abraaram-se com amor e alegria por estarem juntos.
- Aonde vamos, mame? E longe? - indagou Roberta, curiosa.
- No, filhinha. E ali mesmo! Olhe,  naquele porto de ferro pintado de azul.
Atravessaram a praa e entraram nas instalaes do centro. Pouco tempo depois, Norma e Carneiro chegaram. Foi com imensa satisfao que se cumprimentaram. Valria 
apresentou o chefe e a esposa dele ao marido e s filhas. Os homens no estavam  vontade. O ambiente era novo para eles, estavam ali pela primeira vez e sentiam-se 
deslocados. Logo, porm, comearam a conversar entre si, encontrando pontos em comum.  Aps a reunio, sentiam-se timos. As crianas adoraram a aula. Os homens 
igualmente estavam com expresso diferente: mais tranqilos e serenos. O ambiente estava to bom que Carneiro sugeriu que fossem comer uma pizza.
- Vocs aceitam? Ser bom conversarmos mais um pouco, Mauro.
- Sem dvida. Acho que ser timo para todos ns. Alm disso, amanh  sbado e as meninas no tm aula. Portanto, hoje, excepcionalmente, podem dormir mais tarde.
As garotas vibraram com o novo programa. No restaurante, puderam trocar idias, conversando sobre o tema da palestra e seus desdobramentos no cotidiano de cada um. 
Carneiro mostrava um conhecimento sobre Doutrina Esprita que deixou Norma perplexa.
- Voc est me surpreendendo, Jos! Onde foi que aprendeu tudo isso? Ele deu risada, respondendo com bom humor:
- H muito tempo conheo Espiritismo - afirmou, lanando para Valria um olhar cmplice.
Norma, com ar de incredulidade, retrucou:
- Conte a verdade, Jos! Voc tinha preconceito contra essa doutrina. No podia nem ouvir falar. Confesse!
- Est bem. Est bem! Andei lendo alguma coisa no escritrio, graas  dona Valria que me emprestou O Livro dos Espritos.
- Ah, bom! Agora posso entender essa sabedoria repentina. Todos caram na risada. O ambiente era fraterno e amigo. Ao sarem do restaurante, lamentaram ter de se 
separar. Assim, combinaram que, na semana seguinte, repetiriam a dose. Naquela noite as duas famlias tiveram sono tranqilo e cheio de paz. E ns que, da espiritualidade, 
havamos trabalhado intensamente para que tudo se resolvesse de maneira benfica para todos os envolvidos, vibramos de satisfao.


CAPTULO 20 - NOVOS TEMPOS

"E sucedeu que, estando ele em casa,  mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discpulos. Ora, vendo isto os fariseus, perguntavam 
aos discpulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Mas Jesus, ouvindo disse: Os sos no precisam de mdico, e, sim, os doentes."
JESUS (MATEUS, 9: 10 A 12)

Novos tempos se descortinavam trazendo prenncios de paz. Com certeza, toda mudana pede confiana e determinao, esforo e perseverana. Nossos amigos, amparados 
pelos servidores do bem que, da espiritualidade, velavam por eles, puderam dar novo impulso  vida que levavam. Despertando para a realidade maior, acrescentavam 
conhecimentos e responsabilidades, que precisavam aproveitar, mostrando-se dignos da ajuda recebida. Vrios adversrios desencarnados, ligados s duas famlias, 
foram socorridos, instalando-se uma nova era de paz, em que teriam condies de sedimentar os valores conquistados, as informaes recebidas e, por intermdio da 
teraputica esprita, adquirir maior dose de equilbrio e maturidade emocional e espiritual. Nessa nova fase, uma das primeiras preocupaes de Carneiro, conhecendo 
as dificuldades de Mauro, seu novo amigo, foi de providenciar-lhe uma oportunidade de emprego. No em sua empresa, naturalmente, j que, de modo geral, evitava vincular 
amizade com negcios profissionais. No que fosse errado, longe disso. Visava com essa atitude preservar o relacionamento, uma vez que no desejava que o beneficiado 
se sentisse preso a ele por gratido. Desse modo, julgou mais conveniente mandar o currculo de Mauro para um velho amigo, proprietrio de uma indstria, para que, 
na medida do possvel, o encaixasse entre seus funcionrios. Tudo isso sem o conhecimento de Mauro para no gerar expectativas que poderiam no se confirmar. E tal 
manobra deu to certo que o amigo lhe respondeu afirmando que precisava exatamente de algum com o perfil de Mauro, e tanto isso era verdade, que entraria imediatamente 
em contato com ele. Alguns dias depois, Mauro telefonou para Carneiro, radiante. Aps os cumprimentos e troca de amabilidades, disse:
- Carneiro, estou ligando para fazer-lhe um convite: aceita almoar em nossa casa no domingo?
- Sem dvida, Mauro! Com o maior prazer. Tenho certeza de que Norma tambm ficar encantada. Mas, existe algum motivo especial?
- Sim. Muito importante. Arrumei um emprego!
- Excelente! Ento, temos mesmo de comemorar.
- Com certeza!  numa indstria de componentes eletrnicos e, como voc sabe, essa  minha rea. Estou muito feliz!
Mauro falou o nome da empresa e perguntou:
- Carneiro, voc conhece o proprietrio? Estranhei ser chamado porque no mandei meu currculo para essa empresa.
- Ah, compreendo. Mas Valria enviou, Mauro! Ela no lhe contou? Sua esposa trouxe alguns exemplares de seu currculo aqui no escritrio e, de passagem, eu vi sobre 
a mesa dela.  Pediu-me algumas sugestes, que eu dei, e uma das empresas de que me lembrei naquele momento foi a de Paulo Evaristo, que  amigo de muitos anos e 
excelente pessoa. Parabns, meu caro! A empresa  slida, bem conceituada e o proprietrio considerado um bom patro. Voc est muito bem colocado, acredite.
- Ento, devo a voc essa alegria, Carneiro. Obrigado.
- No, no. Voc no me deve nada. Conseguiu o emprego por seus prprios mritos. Nada tive a ver com isso.
- Pois ento, temos mais a comemorar: a sua sugesto! Estaremos esperando voc e toda a sua famlia no domingo. Certo? Antes disso, porm, nos veremos na reunio 
de sexta-feira. Um abrao, amigo. Tenha um bom dia!
Carneiro despediu-se. Sentia-se intimamente bastante satisfeito. No sabia o que fazer para agradar aos novos amigos. Em relao  Valria, reconhecia-se um pouco 
culpado pela sua conduta passada, no entanto sabia que ela no pensava mais no assunto. Generosa, ela lhe havia perdoado, com isso demonstrando superioridade moral. 
Curioso que, vez por outra, vinham-lhe  mente algumas cenas estranhas: via-se, satisfeito, entrando com seu exrcito em uma aldeia devastada pela guerra; entre 
os sobreviventes que ali estavam cheios de dio e de humilhao, e que se curvavam  sua passagem, notava uma jovem de tez morena, bastos cabelos negros que lhe 
caam em cascata at a cintura. Parava o cavalo e ela erguia a fronte altiva; imediatamente sentia-se mergulhar naqueles olhos negros e profundos que o fitavam com 
repugnncia, enquanto grande atrao o dominava. Poderoso, tomou-a a seu servio, conquanto lhe notasse a rejeio. O interessante  que nessa jovem, embora o envoltrio 
fosse diferente, reconheceu Valria, por quem sentira idntica atrao desde o primeiro momento. Com o conhecimento esprita j adquirido, entendeu perfeitamente 
que esse fato fazia parte de um passado distante; ao mesmo tempo, sentia, inconscientemente, que ele e Valria tinham tido outros encontros em pocas diferentes, 
criando elos e compromissos que geraram responsabilidade de parte a parte. Agora, surgia a oportunidade de reparar os erros cometidos e terem um relacionamento saudvel 
e equilibrado. Carneiro estava consciente disso e da importncia de se regenerar. Deus lhe havia concedido essa nova aproximao, que ele pretendia aproveitar. At 
entendia que, embora o relacionamento entre ele e Valria fosse corts, ela procurava manter sempre certa distncia, como se, temerosa, aguardasse que as mudanas 
fossem corroboradas pelo tempo. Carneiro sabia que tinha errado muito, por isso aceitava tudo com humildade e resignao, esperando que o tempo pudesse modificar 
o relacionamento entre eles. Com relao a Mauro, de quem se sentia devedor, e em quem reconhecia o chefe daquela pequena aldeia destroada, incomodava-o o desemprego. 
Agora sentia alvio por ter ajudado a resolver esse problema, com a graa de Deus. Tambm a situao em seu lar se acomodara. Seu relacionamento com a esposa melhorara 
bastante, e os filhos - em quem reconhecia valentes moradores da aldeia mortos no combate - mostravam-se mais acessveis depois que ele abandonara o vcio de beber. 
 bem verdade que o fumo ainda se lhe constitua num problema. Mais do que da bebida, sentia falta do cigarro, mas procurava, apesar de tudo, manter-se firme em 
seus propsitos de parar de fumar, reduzindo gradualmente a dependncia. Tudo tinha ficado muito claro em sua mente e ele agora conseguia entender perfeitamente 
as dificuldades de relacionamento que tivera a vida toda com a esposa, com os filhos e com os empregados. A existncia no tinha se transformado num cu sem nuvens, 
todavia Carneiro enfrentava os desafios da vida com firmeza, escorado nas lies evanglicas e nos conhecimentos espritas. Dentre os que mais estranharam sua mudana 
estavam seus subordinados. Ele tornara-se menos grosseiro e arrogante, mais afvel e corts; procurava ser justo e evitava demisses. De modo geral, o pessoal passou 
a relacionar o incio das atividades de Valria no cargo de secretria com as mudanas do patro. Mesmo porque, quando em dvida sobre alguma deciso, Carneiro sempre 
solicitava a opinio de Valria, que respeitava bastante, no fazendo segredo da influncia dela em suas decises. Ainda aqui o passado se fazia presente. Esprito 
forte e combativo, ela sempre o havia influenciado, muitas vezes de maneira negativa, gerando compromissos graves para ambos. Agora, tinham a oportunidade de reparar 
uma parte desses erros, ajudando aqueles mesmos comandados que ora surgiam como operrios da fbrica. Dessa forma, a situao de todos, como um todo, melhorou muito, 
e, em vista disso, os colegas passaram tambm a respeit-la, reconhecendo-lhe o equilbrio, a ponderao das atitudes e a justeza nas decises, quase sempre a favor 
dos empregados. Carneiro tinha muitas outras imperfeies ntimas para trabalhar, porm uma das mais difceis para ele era a sexualidade. Temperamento fogoso e sensual, 
at essa poca vivera pensando prioritariamente nisso. Diga-se de passagem, no deixava passar oportunidade de um relacionamento mais ntimo quando a ocasio se 
apresentava. Toda mulher bonita e atraente era, potencialmente, sua presa. O fato de conhecer a Doutrina Esprita, felizmente, f-lo comear a pensar diferente, 
a analisar a responsabilidade que assumia perante seus atos e a temer-lhe as conseqncias, segundo a Lei de Causa e Efeito. Sempre utilizara o livre-arbtrio sem 
qualquer limite, usando e abusando de suas condies em busca do prazer puramente instintivo e material. Agora, tinha aprendido que todo relacionamento gera vnculo 
e comprometimento, por menor que seja. Passava em revista seu comportamento anterior e sentia-se envergonhado. Desejava mudar, crescer, melhorar. No que tivesse 
se libertado do problema, de forma alguma. A tendncia ainda era muito forte nele, mas agora, ao ter um mau pensamento em relao a uma mulher, imediatamente tentava 
se corrigir. Todos na fbrica percebiam sua mudana, pois parar de assediar as funcionrias. Como conseqncia, a convivncia com a esposa tornou-se muito melhor 
e mais agradvel. Norma reconhecia-lhe o esforo e ajudava-o, dando-lhe sustentao e confiana. Atravs do Evangelho no Lar, que passaram a fazer semanalmente, 
o ambiente domstico modificou-se sensivelmente, o que atraiu os filhos para a pequena reunio, intuitivamente compreendendo os jovens que dali provinham os recursos 
que geravam a harmonizao da famlia. Tambm na residncia de Valria e Mauro, com o amparo e a assistncia dos benfeitores espirituais, tudo caminhava bem. Afastado 
o fantasma do desemprego, ganhando bem e suprindo as necessidades da famlia, Mauro tranqilizou-se, passando a dedicar-se mais  rea do labor no bem, que tanto 
apreciava. Dessa forma, a casa esprita ganhou excelentes trabalhadores na pessoa dos novos amigos, que se engajaram no servio com boa vontade, determinao e amor 
aos sofredores. Certamente, os problemas desse grupo de espritos no estavam resolvidos, porque viriam outros em conseqncia de necessidades regeneradoras que 
a vida se encarregaria de lhes apresentar no momento propcio, em virtude dos compromissos assumidos ainda na espiritualidade, por ocasio do planejamento reencarnatrio. 
Todavia, o conhecimento esprita mostrava-se poderosa alavanca que lhes possibilitaria melhores condies para vencer. Esses personagens, que no se reuniram por 
acaso na esfera terrena mas foram aproximados pela vida, que busca juntar afetos e desafetos do passado para o devido entendimento e harmonizao, estavam aparelhados 
para o sucesso da encarnao. Graas  bondade divina, nossos amigos teriam uma fase de tranqilidade e paz, para fixao dos novos conhecimentos, e oportunidade 
de crescimento espiritual, amadurecendo os sentimentos. A rea sexual, das mais antigas e importantes conquistas do ser imortal a caminho da evoluo, tambm  a 
que lhe propicia maiores dificuldades. Com a finalidade de procriao para o povoamento do planeta, Deus concedeu ao homem tambm o prazer no ato sexual, de modo 
a ganhar-lhe o interesse e a colaborao necessria a seus propsitos. Com o passar do tempo e o progresso conquistado, o ser humano saiu da rea puramente instintiva, 
desenvolvendo as sensaes e lanando-se ao prazer puramente material. Longo perodo decorreu at que aprendesse, no despertar da conscincia, a distinguir o bem 
do mal, sublimando as sensaes e transformando-as gradativamente em sentimentos. Nessa poca, passou a dar maior valor aos vnculos afetivos. Despertou-se nele 
o interesse pela famlia, passando a proteger a prole. Dentro desse processo evolutivo, a sexualidade sempre desempenhou importante funo, ajudando o homem, mas 
tambm sendo motivo de quedas fragorosas, gerando-lhe profundos comprometimentos na rea afetiva. Pouco a pouco, o ser imortal se espiritualiza, ganhando novas luzes 
e amadurecendo emocionalmente. De forma lenta e gradual, liberta-se da canga das paixes inferiores que o prendem ao solo, buscando as alturas pela elevao dos 
sentimentos, especialmente o amor em sua maior pureza, que lhe constitui a meta sublime de ascenso. E a evoluo, que atinge todas as reas do conhecimento humano, 
influencia a cincia, a filosofia e a religio. Esse avano tico-moral, que foi plantado pelo Cristo h dois mil anos, permanece como bssola norteadora para o 
homem, indicando o rumo que lhe compete trilhar. Os nobres valores evanglicos instalam-se, pouco a pouco, mudando os usos, costumes e tradies, regendo a legislao 
dos pases, transformando socialmente os povos, gerando sociedades mais livres, mais fraternas e mais justas. O avano  lento, gradativo, mas constante. No esforo 
ascensional, o maior desafio do esprito  vencer a si mesmo, dominando suas tendncias inferiores e transformando imperfeies em virtudes. A modificao moral 
 obra que se realiza no ntimo de cada ser, pelo esforo constante, em que a vontade de vencer a si prprio surge como condio prioritria e indispensvel. Para 
alcanar essa vitria, porm, podemos contar sempre com o amparo de Deus, que por meio de seus mensageiros - generosos benfeitores que nos orientam, protegem e fortalecem 
no curso das existncias -, oferece-nos o necessrio estmulo para as mudanas que precisamos realizar em ns. Assim, diante das imperfeies, dos defeitos ou dos 
vcios, jamais desanimar, trabalhando sem cessar para vencer a si mesmo.  A sensualidade  um dos grandes problemas que ainda conservamos como espritos imperfeitos, 
o qual pode ser equacionado ao influxo do amor e da elevao dos sentimentos. Desse modo, diante de relacionamentos que envolvam a rea dos sentimentos, notadamente 
a sexualidade, mantenhamos o maior equilbrio possvel, lembrando que a regra sempre  a do respeito ao semelhante, consoante a advertncia de Jesus de que devemos 
fazer aos outros tudo o que gostaramos que os outros nos fizessem. Dramas comoventes e dores indescritveis campeiam atualmente na sociedade pelo desrespeito ao 
direito do prximo. Imensa quantidade de pessoas se comprometeu na rea afetiva, atravs do tempo, criando elos que no podiam manter, fazendo promessas que no 
pretendiam cumprir, enganando, espoliando e traindo seres que confiavam cegamente nelas. Em razo desse comportamento desequilibrado, infinidade de seres sofre hoje 
na Terra pelos desregramentos de ontem: muitos apresentam enfermidades adquiridas em virtude da inconseqncia dos relacionamentos fortuitos; outros voltam ao palco 
do mundo mostrando as condies do corpo espiritual danificado, trazendo no veculo fsico as marcas de um passado de degradao e de erros, seja no aparelho gensico 
seja em qualquer outra parte do corpo, inclusive no crebro, comprometido pelas loucuras de antanho. Outros mais renascem desajustados com o meio em que vivem, com 
srias inverses da polaridade sexual para aprenderem a respeitar o sexo oposto. Os que no valorizaram o instituto familiar retornam para uma vida de solido, desejando 
ardentemente um lar que no conseguem obter. Mulheres que desvirtuaram a sublime funo da maternidade cometendo aborto nascem desejando ardentemente uma maternidade, 
sem conseguir concretizar seu anseio. Em outros casos, so obrigadas a passar pelo mesmo sofrimento que geraram, ficando grvidas, no conseguindo levar a termo 
a gestao e sofrendo o processo abortivo que tanto buscaram no passado. Ainda outras, dependendo da gravidade e das condies que trazem no perisprito, so levadas 
a sofrer elas prprias o aborto, na frustrao de serem despejadas do claustro materno, sentindo na prpria pele a dor que geraram anteriormente a seus filhos. E 
as marcas emocionais permanecem por longo tempo, provocando tambm remorso lancinante, s amenizado com o reconhecimento da prpria culpa e conseqente arrependimento. 
Depois, partiro para a reparao dos erros cometidos, ajudando aqueles que prejudicaram no pretrito, o que lhes trar a regenerao perante a prpria conscincia, 
perante o semelhante e perante Deus. S assim conseguiro a paz que tanto buscam, candidatando-se a um futuro mais feliz. Desse modo, diante de um problema que envolva 
a sexualidade, lembrar-se de manter o equilbrio das emoes, no se deixando levar pelas tendncias instintivas, e procurar sempre a elevao do pensamento, pela 
prece, pela leitura edificante, pelo estudo e pelas boas obras, para ter o amparo dos bons espritos. Perante qualquer relacionamento que se delineie, colocar-se 
no lugar do outro e pensar: se isso estivesse acontecendo comigo ou com minha irm, eu gostaria? Em caso de dvida, sempre remeter o pensamento a Jesus e ao seu 
Evangelho, procurando refletir: qual seria a atitude do Mestre em idntica situao? Dessa maneira, encontraremos a medida exata do que podemos e do que no devemos 
fazer, comportando-nos como pessoas dignas e teis  sociedade em que vivemos.


CAPTULO 21 - PREPARATIVOS

"O homem nem sempre  punido, ou completamente punido em sua existncia presente, mas nunca escapa as conseqncias de suas faltas. A prosperidade do mau  apenas 
momentnea; se no for punido no hoje, o ser no amanh, e, sendo assim, aquele que sofre est expiando os erros do seu passado. A infelicidade, que  primeira vista 
nos parece imerecida, tem, pois, sua razo de ser, e aquele que sofre pode sempre dizer: "Perdoai-me, Senhor, porque errei."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 6)

Abrindo os olhos, ainda sonolenta, Juliana reconheceu o prprio quarto. Espreguiou-se, feliz. Ansiosa, fez mentalmente as contas. Faltavam exatos trinta dias para 
seu casamento. Nesse instante, deu-se conta de que o tempo era curto e havia muitas providncias a tomar. Levantou-se rpido e foi para o banheiro cantarolando. 
Tomou banho, arrumou-se cuidadosamente e, aps conferir com satisfao a imagem no espelho, pegou a pequena lista de prioridades para o dia, organizada na noite 
anterior, colocou-a na bolsa e saiu do quarto. Agradvel aroma de caf recm-coado inundava a casa toda. Na cozinha, a me acabava de arrumar a mesa. Cumprimentou-a 
com um beijo:
- Bom dia, mame!
- Bom dia, minha filha. Dormiu bem?
- Otimamente! Demorei um pouco a adormecer procurando lembrar tudo o que precisava fazer hoje.
- Ento se apresse ou chegar atrasada ao servio. Faltam quinze minutos para as oito.
- E verdade, mame. Vou comer algo rapidinho. Sentou-se, preparou uma xcara de caf com leite, passou manteiga na metade de um pozinho e comeu com prazer.  Olhou 
o relgio e levantou-se, apressada. Foi at a estante, pegou a bolsa, as chaves do carro e, dando um beijo na testa da me, despediu-se:
- Tenha um bom dia, mame. Ah! No se esquea de falar com a costureira. Ela precisa marcar a prova do meu vestido de noiva.
- No esquecerei, filha. V com Deus!
Juliana tirou o carro da garagem e tomou o rumo da empresa onde trabalhava. O fluxo de veculos era intenso naquele horrio e o exerccio da pacincia no trnsito, 
uma necessidade. Quando isso acontecia, para no se estressar, procurava lembrar-se de coisas boas, dos momentos felizes e, sempre, como era natural, do noivo, Renato. 
Era a soluo que encontrara para no ficar nervosa e irritada com os engarrafamentos, to comuns na grande capital, e, assim, nem ver o tempo passar. Com o trnsito 
parado, fez uma ligao no celular para o noivo. Conversaram um pouco e ela explicou que estava retida no trnsito. Renato, felizmente, j estava no escritrio de 
engenharia que dividia com um amigo, Danilo.
- J lhe disse que eu a amo, querida? No concebo mais a vida sem sua presena. Voc  a luz do meu caminho. No vejo a hora de estarmos casados e unidos para sempre 
- dizia ele, carinhoso e bem-humorado.
- Eu tambm, meu amor. S vivo para voc e aguardo com ansiedade a hora de estarmos finalmente juntos, aproveitando as nossas merecidas frias. Por falar nisso, 
j conseguiu escolher o terno?
- Ainda no. Estou me esforando, pode crer. No se preocupe.
- Olha l, no v me deixar esperando na porta da igreja por no saber que roupa usar - brincou ela.
- Pode ter certeza de que estarei na igreja na hora combinada. Quanto a voc, s Deus sabe! O atraso das noivas  conhecido.
- Chegarei no horrio, garanto. No correrei o risco de perder voc. Vou desligar, querido. Os carros esto comeando a se movimentar. Ainda bem! At mais tarde. 
Um beijo.
- Outro. Tenha um bom dia, querida.
Realmente os veculos tinham comeado a rodar, e Juliana desligou o aparelho. Contente, ria sozinha. Nada podia alterar seu bom humor nessa fase que antecedia o 
casamento. Meia hora depois, estava na empresa. A financeira localizava-se bem no centro da cidade, o que dificultava seu acesso. Juliana teve dia agitado e cheio 
de servio. Mal teve tempo de engolir alguma coisa na hora do almoo. Para no perder tempo, pediu um sanduche e um suco numa lanchonete ali perto. A tarde, ao 
encerrar-se o expediente, estava cansadssima e irritada. O bom humor, que ela julgava eterno, fora para o espao. No tinha feito nada do que programara fazer; 
as providncias que ia tomar, aproveitando a hora do almoo, ficaram somente no papel. Tirando o carro do estacionamento, lembrou-se de que precisava passar numa 
loja e comprar alguns materiais que estavam faltando para terminar de confeccionar as lembrancinhas do casamento. Lembrou tambm que essa loja costumava ficar aberta 
at mais tarde em virtude do grande movimento de fregueses. Um pouco mais animada, estudando o trajeto, resolveu estacionar o carro numa avenida, cortando caminho 
por uma pequena rua transversal, pouco conhecida e sem movimento, que daria acesso  loja aonde pretendia ir. Esse expediente economizaria tempo e dinheiro, pois 
chegaria rapidamente  loja atravessando a viela, e no teria de gastar combustvel dando uma grande volta. Satisfeita com sua esperteza, chegando ao local, ela 
estacionou o carro, e entrou na pequena rua deserta. Ao dar os primeiros passos, sentiu um calafrio de medo. A viela era escura, quase sem iluminao. Teve desejo 
de desistir, deixando a compra para o dia seguinte. Juliana, porm, tinha temperamento forte, era corajosa, decidida, e no se intimidou, continuando a caminhar. 
Apressou o passo.  sua frente, para incentiv-la, como no final de um tnel, via as luzes da avenida e da loja que ficava bem na esquina. Que bom! Como imaginei, 
est aberta! Juliana no percebeu que um rapaz, na avenida, encostado num poste, perto do local onde deixara o carro, a observava, interessado. Quando ela entrou 
na pequena rua, ele a seguiu. No tinha andado muito, quando se sentiu agarrada por um brao forte enquanto a outra mo lhe tapava a boca, arrastando-a para um canto 
escuro, entre dois prdios. Apavorada, sem poder reagir, ouviu algum murmurar:
- No grite nem faa nenhum movimento, ou morre aqui mesmo. Estou armado.
Ele apenas sussurrava no seu ouvido. A jovem sentiu seu hlito, o cheiro de tabaco, de suor, de sujeira e um cheiro estranho, que no sabia precisar, extremamente 
desagradvel. Sentiu nojo. Nisso, o frio do metal tocou seu pescoo. Com os olhos arregalados de pavor e o corao disparado, sentiu que ia morrer. O homem segurou-a 
com brutalidade e, juntando-lhe as mos, a amarrou. Em seguida, arrastou-a pela viela de volta para o carro, ameaando mat-la se fizesse um gesto, um grito ou se 
chamasse ateno de qualquer modo. J na avenida, pegou as chaves, abriu a porta e empurrou-a para dentro do veculo.  Ele olhou em torno, vigilante. Ningum tinha 
percebido nada. Deu partida no carro e saram.
- Sabe que esses vidros escuros so uma boa? Ningum v o que se passa dentro de um carro - comentou irnico.
Juliana olhou para o homem. Somente agora podia v-lo melhor. Era um rapaz novo, de boa aparncia, embora malvestido e sujo. Os olhos injetados pareciam os de um 
louco. Deveria estar drogado. Ele no me parece estranho. Onde j o teria visto? Tentou conversar enquanto ele dirigia:
- Por favor, moo. Deixe-me ir! Pode ficar com o carro, mas solte-me. Tenho algum dinheiro na bolsa, relgio, anis. Pode ficar com tudo, mas solte-me, por piedade!
- Cale a boca! No pretendo machuc-la. Se for boazinha, no correr perigo algum.
- Meus pais esto me esperando. Eles ficaro preocupados se eu no chegar, e chamaro a polcia.
O rapaz soltou uma gargalhada.
- A polcia no poder fazer nada por voc. Agora, cale-se. Deixe-me dirigir em paz. O trnsito est infernal.
Juliana achou melhor ficar quieta. O rapaz parecia muito nervoso com o movimento do trnsito naquela hora do rush. Levou-a para fora da cidade. Estavam rodando, 
pelos clculos de Juliana, havia uma hora, quando, chegando perto de um bosque de pinheiros, ele parou o carro, desceu e, dando a volta, abriu a porta, agarrou-a 
pelo brao e obrigou-a a descer sem se impressionar com o pavor estampado nos olhos dela.
- Agora, gatinha, vamos dar uma volta.
- No! Por caridade! Deixe-me ir! - implorava ela, aos gritos, chorando.
- Pode gritar. Aqui ningum vai ouvi-la.
Com o corao aos saltos, desesperada, Juliana gritava, esperneava, mas ele continuava arrast-la para o bosque, em meio  escurido da noite. Naquele momento, Juliana 
no conseguia pensar em nada. S em si mesma. Olhou para o cu, onde infinidade de estrelas luzia  distncia, indiferentes  sua situao e ao perigo que estava 
correndo. As nicas testemunhas no podiam socorr-la. Tomando conscincia, a um leve movimento, sentiu o corpo todo doer. Abriu os olhos lentamente. S viu galhos 
de rvores e achou que estava sonhando. Tentou levantar-se, mas uma dor lancinante obrigou-a a deitar-se de novo. Apalpou o cho e pegou folhas secas. Estranhou. 
No estava em sua cama. Procurou refazer mentalmente seus passos e, finalmente, se lembrou de tudo. No estou sonhando! Caiu novamente em pranto convulsivo. As imagens 
brutais voltaram-lhe  mente, trazendo humilhao, medo e dor. Depois de algum tempo, foi se acalmando e reconheceu que estava com vida, graas a Deus. Olhou em 
torno. Estava sozinha no meio do mato e no sabia quanto tempo teria transcorrido, mas era muito tarde, pois as primeiras luzes da manha surgiam clareando levemente 
o lugar. Refletindo sobre sua situao, decidiu procurar ajuda. Precisava sair dali. O criminoso poderia voltar e concluir o que no tinha feito, isto , tirar-lhe 
a vida. Lembrou-se de uma frase que ouvira na televiso: todo criminoso volta sempre ao local do crime. Definitivamente, no poderia continuar ali, mesmo porque 
tinha medo de animais, de bichos e de insetos que com certeza haveria em grande quantidade naquele lugar. Com grande esforo, tentou colocar-se de p. Despencou 
novamente. A dor era insuportvel, como se estivesse ferida por dentro. Apalpou-se e percebeu que estava se esvaindo em sangue. No poderia perder tempo. J que 
no conseguia ficar de p, resolveu arrastar-se no meio do mato. Felizmente, ele a desamarrara. Assim, com grande dificuldade, gemendo e chorando, arranhando-se 
nas pedras e nos galhos cados no cho, conseguiu aproximar-se da estrada. Ao ver o asfalto, muniu-se de coragem e, num esforo inaudito, colocou-se de p, caminhando 
alguns passos, escorada nos troncos das rvores. Quando chegou ao acostamento, viu as luzes de um carro que se aproximava. Levantou o brao, gritando por socorro. 
Todavia, o esforo foi demais para ela. As foras lhe faltaram e no viu mais nada, mergulhando novamente na inconscincia. Despertou num leito de hospital. Olhou 
em torno e viu duas pessoas estranhas: um rapaz e uma moa. Tentou movimentar o brao e no conseguiu. Gemeu e, em seguida, viu o rosto de sua me, surpreso e aliviado, 
inclinado sobre ela:
- Oh! Minha filha, que bom que acordou! Como est se sentindo?
- O que aconteceu?
Os dois jovens se aproximaram do leito, satisfeitos e emocionados. A me respondeu, perguntando com suavidade:
- Voc no se lembra?
Juliana fez um gesto negativo com a cabea. - Voc sofreu uma violncia, minha filha, mas est tudo bem. Foi encontrada numa estrada por Leandro e Meire, que a socorreram 
trazendo para este hospital. Desde esse dia, eles tm sido incansveis em nos ajudar. So grandes amigos nossos. Juliana olhou os dois jovens, agradecendo.
- H quanto tempo?...
- Quinze dias, minha filha.
- Tudo isso? Por qu?
A me olhou para os jovens, indecisa. No sabia se podia contar toda a verdade para a filha.
- Bem, minha querida, voc estava machucada e passou por uma cirurgia. Entrou em coma e... Enfim, seja bem-vinda, minha filha!
- Estou comeando a me lembrar. E meu carro?
- No se preocupe com ele, Juliana. Isso  o de menos. A polcia est procurando o criminoso, mas at agora nada. No existe pista alguma.
Meire aproximou-se, lembrando com carinho:
- Voc ter tempo para saber de tudo, Juliana. Agora, seria melhor descansar um pouco. Est muito debilitada.
Os demais acompanhantes concordaram. Leandro, com senso prtico lembrou:
- Vou avisar a enfermeira que Juliana acordou.
Ele apertou a campainha e, em seguida, uma enfermeira entrou no quarto.
- Chamaram?
- Sim, temos novidades. Veja! Juliana acordou! - disse a me, emocionada.
- Que bom! Como est, Juliana?
- Bem.
- timo. Vou avisar o mdico.
Quando uma enfermeira chegou para verificar a presso e a temperatura da paciente, Juliana j estava dormindo de novo. O mdico entrou no quarto, sorridente.
- Ora, ento nossa Juliana acordou, dona Helena?
-  verdade, doutor Bruno. Conversou conosco, s que j caiu de novo no sono! - informou a me, lamentando.
- No se preocupe, dona Helena,  natural que isso acontea. Ela est muito fraca, sem energias. Esse fato, porm, denota que est se recuperando. Quando acordar, 
me chamem sem falta. Despediu-se. Aps a sada do mdico, Leandro, Meire e Helena lembraram que precisavam comunicar a novidade aos familiares, parentes e amigos. 
Helena telefonou para o marido, dando-lhe a boa-nova. Quinze minutos depois, Antero entra no quarto de hospital, ansioso. Cumprimenta os jovens, aproxima-se do leito 
onde Juliana ainda dorme e, passando a mo pelos cabelos da filha, pergunta para a esposa:
- Como ela est, Helena?
- Muito bem. Conversou conosco e agora est dormindo de novo, mas o doutor Bruno disse que  normal. Estamos esperando-a acordar.
Duas horas depois, Juliana desperta e logo v o rosto do pai inclinado sobre ela.
- Papai...
- Minha filhinha! Que bom que voc voltou para ns. Ela sorriu de leve, balanando a cabea:
- Vocs no se livraro de mim to fcil.
Nesse momento, a porta abriu e o mdico entrou. Tratava-se de um senhor de cabelos grisalhos, fisionomia simptica e olhos serenos.
- Ora, vejam! Resolveu acordar, no ? Seja bem-vinda ao nosso mundo, Juliana - brincou, j pegando o estetoscpio para examin-la. - Podem dar licena?
Os demais saram deixando-o a ss com a paciente.
- Meu nome  Bruno, Juliana. Voc no me conhece, mas eu a conheo bem. Estivemos juntos todos estes dias.
- Como estou, doutor?
- Diga-me voc. Como se sente?
- Acho que estou bem. A cabea est um pouco confusa...
- E natural. Aos poucos voltar ao normal. Sente dor?
- Sim. Doutor, o que aconteceu comigo? Ningum quis dizer nada.
O mdico sentou-se na beirada da cama e explicou de maneira sucinta: 
- Vou lhe contar a verdade, pois voc ir se lembrar mesmo. Quando a trouxeram, seu estado era muito grave, Juliana. Voc ficou muitas horas sem receber socorro. 
Tinha perdido muito sangue e seus sinais vitais estavam em franco declnio. Foi submetida a uma cirurgia reparadora.
- Cirurgia reparadora?
- Sim, voc ficou bem machucada. Teve um problema aps a cirurgia e entrou em estado de coma, ficando na Unidade de Terapia Intensiva por vrios dias. Mas melhorou 
e foi trazida para o quarto, onde poderia ficar com a famlia. Em relao  cirurgia, voc est bem, tenho-a examinado diariamente. Um pouco de dor  normal, especialmente 
quando quiser se levantar. Enfim, est em franca recuperao, especialmente agora que voltou  conscincia. Mas, teremos tempo para conversar. Est com fome?
- Um pouco.
- timo. Vai uma feijoada?
Ao ver a surpresa e o sorriso que aflorou no rosto dela, retificou:
- Estou brincando! Queria mesmo ver como fica sorrindo. Parabns! Tem um sorriso lindo! Vou mandar trazer-lhe um caldo leve. Amanh logo cedo estarei aqui. At logo.
Antes que o mdico sasse, uma cara diferente e gorda assomou  porta.
- Bom dia, doutor. Soube que a nossa paciente acordou e vim tomar-lhe o depoimento.
Assustada, Juliana repetiu:
- Depoimento?
Ao mesmo tempo, o mdico recusou de maneira firme:
- Impossvel, delegado. A minha paciente no est em condies de falar sobre o acontecido.
- Voltarei amanh, ento. Apavorada, Juliana perguntou ao mdico:
- Por que depoimento?
- Voc foi vtima de um estupro, roubaram seu carro, e a polcia precisa conhecer a sua verso dos fatos, como as coisas se passaram, j que no h ningum de testemunha.
-  verdade. No disse ao senhor que estou confusa?
- Isso passa. Fique certa, porm, que s falar quando achar que est preparada. Certo?
- Certo. Obrigada, doutor. At amanh, ento.
- At amanh.


CAPTULO 22 - VOLTANDO  VIDA

"Bem-aventurados os que choram, porque sero consolados." JESUS (MATEUS, 5: 5)

Com a mudana das condies da paciente, o mdico aconselhou s pessoas que permaneciam mais com ela no hospital que relaxassem um pouco. Juliana estava bem e ele 
deixaria uma enfermeira atenta, assistindo-a. Desse modo, naquela noite, a paciente ficou algum tempo sozinha, aos cuidados da enfermeira que, a espaos regulares, 
vinha v-la. Meire e Leandro tinham ido para a faculdade.  Dona Helena aproveitou para ir descansar em casa, tomar um banho, fazer uma refeio e verificar como 
estavam as coisas, no que foi acompanhada pelo marido. Juliana cochilava quando a porta se abriu de mansinho. Um rapaz aproximou-se do leito sem fazer barulho. Era 
bonito, alto, tez morena. Juliana sentiu a presena de algum e abriu os olhos.
- Minha querida, como est? Senti tanta saudade!
- Renato!
S naquele momento ela lembrou-se do noivo. Meu Deus! E o nosso casamento? - pensou. Tudo lhe parecia to distante! Comeou a chorar. Sentia-se culpada por estar 
causando transtornos a ele. Afinal, tinham projetado o casamento havia meses. Como ficaria?
- Perdoe-me... - balbuciou.
- O que  isso, querida? Voc no teve culpa!
- Se eu no tivesse ido quela loja nada disso teria acontecido. E agora? Estvamos a poucos dias do nosso casamento! Os convites j haviam sido enviados. Como vai 
ser?
Ele afastou-se, buscando o vo da janela, onde ficou olhando para fora, fixando o vazio.
- Voc ouviu minha pergunta? - tornou a indagar.
Com expresso tensa, denotando certo constrangimento, ele respondeu a contragosto:
- Infelizmente, no vamos mais nos casar, Juliana. No agora. Lembrando-se da sua situao, ela questionou:
- O que aconteceu naquela noite mudou alguma coisa para voc? No quer mais se casar comigo,  isso?
Vendo-lhe a expresso de sofrimento no rosto, ele contemporizou:
- No, querida, no  isso. E que na data prevista no dar mais tempo. Mesmo porque j avisamos os convidados de que no haveria casamento, isto , nem sabamos 
se voc... Enfim...
- Se eu sobreviveria?
- Juliana, ningum sabia o que ia acontecer. Voc estava em coma, os mdicos no sabiam se ia voltar  conscincia. E se isso acontecesse, quando poderia ocorrer. 
Entende?
Com um gesto de cabea, Juliana demonstrou que compreendia. No entanto, ela notou uma frieza to grande no noivo que ficou decepcionada. Sempre carinhoso, Renato 
no a tinha beijado, nem lhe dirigira aquelas lindas palavras de amor que dizia quando se encontravam. Algo tinha mudado. Munindo-se de coragem, Juliana respirou 
fundo e disse:
- Quero que saiba, Renato, que no  obrigado a casar-se comigo. Compreendo que a situao mudou desde aquele dia em que conversamos pela ltima vez, lembra-se? 
Para mim o tempo no passou e parece que aconteceu ainda ontem.
- Porque voc estava em coma e  natural que se sinta assim - interrompeu-a ele.
-  verdade. Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava num engarrafamento e sentia-me to feliz que nada daquilo me incomodava, a irritao dos motoristas, as buzinas 
estridentes, os palavres, nada. Liguei para voc, conversamos. Voc disse que me amava loucamente e que no via a hora de estarmos juntos para sempre.
O rapaz olhou para a noiva. Ela parecia to frgil, to indefesa naquela cama de hospital, que ele se emocionou.
- Lembro-me sempre desse dia. Nada mudou entre ns, querida. O casamento ser adiado por algum tempo at voc se recuperar. S isso. No se preocupe.
Juliana permaneceu calada, pensativa. Depois perguntou num fio de voz:
- Voc ainda me ama?
Renato, que parecia alheio, levou um susto.
- Claro que eu a amo. Voc tem alguma dvida?
Juliana sorriu levemente e no respondeu. O rapaz agitou-se, incomodado, e apressou-se em se despedir:
- Querida, no quero cans-la. Voltarei amanh quando estiver melhor. Ah, meus pais mandaram-lhe um abrao e lhe desejam feliz recuperao. Amanh eles viro lhe 
fazer uma visita. Boa noite!
- Boa noite!
O noivo saiu e Juliana no conteve as lgrimas. Estava convicta de que Renato no a amava mais. Lembrou-se do relacionamento de ambos antes do acontecido, do carinho, 
das atenes, do amor sempre presente. Agora, Renato estava distante, frio e alheio. Como quinze dias poderiam ter feito tanta diferena? A enfermeira assomou  
porta e encontrou-a em prantos. Assustou-se.
- O que houve, Juliana? Pensei que fosse ficar feliz com a visita do noivo!
- Sinto que o mundo est ruindo  minha volta - murmurou. Havia uma dor to profunda na sua voz e tanta tristeza e desesperana no olhar, que a enfermeira se comoveu.
- No chore, Juliana. Voc est bem, todos esto felizes. Se voc teve uma briguinha com o noivo, isso acontece. Logo passa. 
- Ele no me ama mais. Ele no me ama mais - repetia ela, mais para si mesma.  Juliana chorava copiosamente e nada conseguia diminuir seu sofrimento. Diante do descontrole 
da paciente, a enfermeira rapidamente consultou o mdico, que mandou aplicar-lhe um sedativo. Aps a injeo, ela mergulhou novamente no sono.
No dia seguinte, o movimento de visitantes era intenso: familiares, amigos, colegas de servio, todos queriam v-la. Quando o mdico chegou, o tumulto era to grande 
que ele foi taxativo. S os acompanhantes permaneceriam no quarto. Juliana precisava mais do que nunca de tranqilidade para se recuperar. Os pais de Renato tambm 
compareceram trazendo um lindo ramalhete de flores. Helena e Antero levaram o casal para uma sala ali perto, pequena e aconchegante, onde poderiam conversar. Justificaram 
a ausncia do filho, alegando que ele tinha um projeto urgente para entregar, e cujo prazo estava se esgotando; que ele viria assim que conclusse o trabalho. Ansiosos, 
queriam resolver logo o problema do casamento, mas os pais de Juliana se mantiveram discretos, cordiais e ponderados. Helena e Antero, que tinham sido informados, 
pela enfermeira, da crise que Juliana teve depois da visita do noivo, acharam melhor dar tempo ao tempo. Para eles, a nica coisa que contava era o bem-estar da 
filha. O resto era secundrio. Assim, Helena ponderou:
-Temos de deixar que eles resolvam. No devemos interferir. E Juliana, no momento, ainda no est em condies de decidir nada. Vamos aguardar.
O casal trocou um olhar, concordando. Logo em seguida despediram-se, para alvio de Helena e Antero. O delegado tambm compareceu. Queria falar com Juliana. Helena 
imediatamente se posicionou ao lado da filha, para defend-la:
- Minha filha precisa de sossego, delegado. No pode pretender incomod-la agora, enferma como est.
Juliana interferiu, concordando:
- Pode deixar, mame. Conversarei com ele. Quero saber o que tem a me dizer. Se precisar, chamarei.
Assim que ficaram a ss, o delegado puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do leito.
- Todos me chamam de Gonzaga. No se preocupe, Juliana. S pretendo fazer-lhe algumas perguntas.
- Pode falar, doutor Gonzaga.
- Conte-me como tudo aconteceu. Juliana relatou como tinha resolvido fazer compras numa loja e resolvera estacionar o carro na avenida prxima, cortando caminho 
pela pequena rua transversal.
- Sei qual . Voc tinha visto o rapaz que a abordou?
- No. S quando ele me agarrou pelas costas e tapou minha boca.
Nesse instante, Juliana comeou a ficar agitada e o delegado acalmou-a:
- Fique tranqila. Tudo j passou. Como era o rapaz? Conseguiu v-lo bem?
- No naquele momento. Estava escuro e ele se mantinha s minhas costas. S pude v-lo quando entramos no carro.
- Descreva-me. Como era ele?
- Bem, ele era um rapaz de boa aparncia, embora malvestido e sujo. Pele clara, cabelos loiros penteados para cima, espetados. Olhos claros, verdes talvez.
- Altura?
- Talvez um metro e oitenta, mais ou menos.
- Algum detalhe especial que tenha chamado sua ateno?
- Como assim, delegado?
- Um tique nervoso, uma mancha na pele, uma marca de nascena. Essas coisas so importantes para identificar o criminoso.
- Nada. No me lembro de nada.
- Est bem. Se lembrar, me avise. Quando estiver melhor, marcarei um horrio para tomar seu depoimento. Obrigado, moa. Fico feliz que esteja se recuperando. At 
logo.
Alguns dias depois, Juliana teve alta e pde retornar ao lar, cercada pelo carinho dos familiares e amigos. Cheios de alegria, entraram em casa; ao abrir a porta 
do seu quarto, Juliana chorou de emoo. Ainda precisava de cuidados, de repouso e de medicao calmante para dormir, mas o fato de estar no seu ambiente dava-lhe 
mais segurana. As imagens do acontecido assomavam-lhe sempre  memria e, nesses momentos, ela entrava em crise; agitava-se e gritava, em profundo desespero. No 
raro tinha sono tumultuado e acordava em pnico, chorando e gritando, com os olhos esgazeados. A me corria para perto dela e abraava-a, fazendo com que voltasse 
 realidade. 
- Calma, filhinha, j passou. Voc est aqui em casa, conosco. Calma.
Aos poucos, ela serenava, e voltava a dormir, depois de nova dose de remdio. Com o passar dos dias, as crises foram se espaando e Juliana j conseguia at sorrir. 
Na semana seguinte, tinha horrio marcado com o mdico. Compareceu ao consultrio. Ele a examinou, cuidadosamente. Depois, fez algumas perguntas. 
- Como est se sentindo, Juliana?
- Bem, doutor. As dores diminuram e estou andando bem melhor.
- E a menstruao?
- Ainda no veio, doutor.
-  normal. Sempre que o organismo  agredido, ou sofre um abalo, ocorre um descontrole nas regras. E, no seu caso, alm da violncia, voc foi submetida a uma cirurgia.
Conversaram mais um pouco e marcaram o retorno dela para a semana seguinte. Na despedida, o mdico, lembrou:
- Se houver mudanas, me avise. E como ficou com a polcia?
- Irei prestar depoimento amanh cedo.
- Muito bem. Mantenha-se equilibrada, serena. E importante tomar um tranqilizante antes. Se precisar de mim, estarei  sua disposio, Juliana. Passe bem. At logo, 
dona Helena.
Juliana saiu do consultrio mdico e, caminhando na rua, uma desagradvel sensao de que estava esquecendo algo importante vinha-lhe  mente.
- O que foi, minha filha? Parece tensa.
- Nada, mame. Tenho a sensao de que preciso me lembrar de algo, e no consigo.
- Qualquer hora voc acabar se lembrando. Esquea. A recordao vir quando menos esperar. Esta  a primeira vez que voc sai de casa, filha. Vamos a um shopping! 
Veremos lojas bonitas e tomaremos um lanche, como voc sempre gostou de fazer.
Juliana concordou. Me e filha passaram horas agradveis conversando e se divertindo, esquecendo um pouco dos problemas. Helena sabia que a filha estava tensa com 
a ida  delegacia no dia seguinte. Naquela noite, Juliana demorou a conciliar o sono. Sentia que algo estava lhe escapando. Sempre aquela incmoda sensao de uma 
lembrana que foge. Afinal dormiu, mas teve sono agitado. Despertou no meio da noite em pnico, banhada em suor.
- Calma, filhinha, isso passa. Estou aqui com voc - disse o pai, abraando-a com carinho.
- Sempre a mesma cena, papai. Aquele homem horrvel me arrastando para o meio do mato. Procuro esquecer, mas no consigo.
- No seria melhor telefonar para o delegado avisando que voc no pode comparecer, filha?
Juliana pensou um pouco e resolveu:
- No, papai. Tenho de enfrentar meus fantasmas. No posso continuar fugindo do problema. Acho que vou aceitar a ajuda daquele psiclogo que o doutor Bruno indicou.
- timo. Tenho certeza de que lhe far bem, filha. Agora durma um pouco. Ficarei aqui a seu lado.
Na manh seguinte, Juliana se dirigiu  delegacia junto com seus pais. O delegado a fez entrar, com gentileza. Depois, solicitou a um investigador que ali estava:
- Tadeu, sirva um caf para o casal.
Juliana sentou-se. Nunca tinha entrado numa delegacia. Viu um rapaz que estava trabalhando num computador e que continuou na sala. Sentiu-se mal com a presena dele. 
O delegado Gonzaga sentou-se do outro lado da mesa, sorridente.
- Bem, vamos comear. Voc vai repetir aqui o que me disse no hospital, est bem Juliana? Pode comear.
- Ele vai ficar aqui? - questionou, olhando constrangida para o rapaz, que continuava trabalhando.
-  preciso, Juliana. Ele vai anotar tudo o que voc disser. Depois, voc vai ler o depoimento e assinar, se estiver tudo conforme. Certo? Muito bem. Comece do comeo. 
Terminava o expediente na empresa. O que voc fez?
Juliana comeou a contar e envolveu-se com o relato, esquecendo-se de que havia uma terceira pessoa na sala.
- Quando parou na avenida, notou algum por perto?
- Vrias pessoas, o trnsito era intenso, mas no vi ningum em especial.
- Continue. Voc entrou na ruela e...
- Senti um arrepio de medo. Quis retroceder, mas decidi prosseguir.
- Interessante. J tive ocasio de perceber esse fato inmeras vezes.  como se a pessoa fosse alertada de algum perigo iminente. Se dssemos mais ateno a esses 
avisos, nos livraramos de muitos acontecimentos funestos.
Juliana fitou o delegado sem saber o que dizer. Ele tinha razo. Se ela tivesse ouvido sua voz interior, nada teria acontecido.
- Desculpe-me a interrupo. Continue, Juliana. Voc prosseguiu...
- Sim. De repente, senti um brao forte me agarrando enquanto a outra mo me tapava a boca.
Ela comeou a ficar agitada, nervosa. Gonzaga percebeu.
- Relaxe, Juliana. Aceita uma gua? Um caf? Quer parar um pouco? No temos pressa.  - Aceito uma gua, por favor. No, no quero parar. Quanto antes acabar, melhor.
Discretamente, o rapaz do computador levantou-se e trouxe um copo com gua, colocando-o  frente dela. Juliana tomou alguns goles, respirou fundo e disse para o 
delegado:
- Podemos continuar.
- timo. Vamos em frente.
Aos poucos, ela foi relatando tudo como tinha acontecido. O trajeto no meio do trnsito intenso, suas splicas para que ele a deixasse ir embora, a parada na estrada 
em local isolado perto de uma mata. Contou como ele a arrastara pelo mato, afastando-se da estrada. Como a espancara porque no parava de gritar. Parou de falar 
por alguns momentos, concluindo:
- Depois no me lembro de mais nada.
- Voc foi estuprada. No se lembra de nada?
- No. Devo ter desmaiado. Ele batia minha cabea no cho, repetidas vezes, me dava socos no rosto...
- Ento voc no viu mais nada. E depois?
- Acordei sem ter noo de onde estava, o que tinha acontecido e quanto tempo se passara. Entrei em pnico. Sentia dores lancinantes no corpo todo, especialmente 
na regio de baixo. Percebi que estava sangrando e entendi que precisava buscar ajuda. Ele no estava mais por ali, tudo estava quieto. S ouvia o barulho dos animais 
noturnos, o que me deixava apavorada.
Contou como tentou se levantar vrias vezes, mas as dores eram insuportveis e no conseguia. Ento, resolveu se arrastar, se ferindo em galhos, pedras e asperezas 
do solo, at que chegou  estrada. Vendo as luzes de um veculo que se aproximava, levantou-se com esforo inaudito e ergueu um dos braos. Em seguida, perdeu os 
sentidos de novo.
- Da em diante eu j conheo os fatos. Leandro e Meire vinham de uma festa em cidade prxima e notaram algum que pedia socorro. Pararam e, percebendo que seu estado 
era grave, chamaram a ambulncia. Voc teve sorte, garota, aquela  uma estrada secundria, de pouco movimento, e poderia levar muito tempo antes que algum transitasse 
por ali. Sem contar que muitas pessoas nem param, achando melhor no se envolver. 
O delegado fez uma pausa, olhando a moa ali  sua frente, depois disse:
- Bem, por hoje  s. Sei que foi muito difcil para voc reviver os fatos, mas era absolutamente necessrio, Juliana. Peo-lhe desculpas, mas faz parte do meu trabalho.
- Foi difcil, sim, doutor Gonzaga, mas agora me sinto mais aliviada. Como esto as investigaes? O senhor tem idia de quem possa ser o criminoso?- Infelizmente 
no, Juliana. Temos alguns palpites, mas nada de concreto. Se voc pudesse se lembrar de alguma coisa que nos ajudasse, algo de diferente nesse homem, uma pea de 
roupa, uma tatuagem, uma marca, qualquer coisa serve.
Ao ouvir essas palavras, Juliana finalmente se lembrou:
- Meu Deus! Como pude me esquecer? Sim, ele tinha uma tatuagem no ombro direito!
Era isso o que eu estava tentando recordar e no conseguia. Ele estava com uma camiseta regata preta sob uma jaqueta jeans velha e suja, sem mangas, como um colete; 
ento pude ver a tatuagem. No era grande, no alto do brao.
- Como era essa tatuagem?
- Parece-me que era um animal. Talvez um crocodilo ou um drago. No posso afirmar com certeza. No estava em condies de prestar ateno.
- Entendo. Muito bem, Juliana. Esse detalhe vai poder nos ajudar bastante, tenha certeza. Voc est liberada agora. Qualquer notcia, eu volto a me comunicar com 
voc.
- Obrigado. Tenha um bom dia.
Na sala de espera, o delegado declarou para o casal que aguardava impaciente, enquanto se despedia:
- Tivemos uma manh produtiva. Juliana lembrou-se de um aspecto importante.
Obrigado. Se tiver notcias, entrarei em contato.
Juliana voltou para casa mais tranqila e bem mais aliviada.


CAPTULO 23 - TOMANDO DECISES

"Em que momento a alma se une ao corpo?" "A unio comea na concepo, mas s se completa no instante do nascimento. No momento da concepo, o Esprito designado 
para habitar determinado corpo se liga a ele por um lao fludico e vai aumentando essa ligao cada vez mais, at o instante do nascimento da criana. O grito que 
sai da criana anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores de Deus."
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 344)

Aos poucos, Juliana foi voltando  sua rotina. Recomeou a trabalhar, sair de casa, fazer compras, ver as amigas e, especialmente, a encontrar-se com o noivo. Pelo 
visto, tudo parecia ter voltado ao normal. Todavia, algo dentro dela mudara. No sentia mais a mesma satisfao nas coisas que fazia antes. Quanto a Renato, embora 
continuasse a afirmar que a amava, o relacionamento entre eles era morno, para no dizer frio. Ele evitava ficar a ss com Juliana, procurando estar sempre no meio 
de pessoas, se cercando de gente. Nova data fora marcada para o casamento, que se realizaria dentro de dois meses. As famlias estavam felizes, esmerando-se em organizar 
os preparativos, dos quais os noivos no participavam. Juliana, intimamente, sentia que o casamento no se realizaria. Fazia algum tempo que vinha experimentando 
estranhas sensaes. Sentia-se irritada, nervosa; diziam-lhe que era a falta da menstruao, que ainda no viera, porm que isso se resolveria em pouco tempo. Certo 
dia, Juliana passou mal na empresa, perdeu os sentidos e caiu no cho. Assustada, resolveu ir ao mdico. Telefonou, e como era uma emergncia, a secretria encaixou-a 
entre as consultas marcadas para aquele mesmo dia. Quando ela entrou na sala, o mdico a cumprimentou sorridente:
- Boa tarde, Juliana! Que prazer rev-la!
- Boa tarde, doutor Bruno.
- Sente-se, Juliana. Como tem passado? Alguma novidade? Os olhos da jovem se encheram de lgrimas, que no chegaram a cair.
- No sei o que est acontecendo comigo, doutor Bruno. Ando nervosa, irritada, descontente e sinto algumas coisas estranhas. Hoje, pela manh, tive um mal-estar 
no servio e cheguei a desmaiar! O que pode ser isso, doutor?
O mdico acalmou-a com sua voz serena:
- Fique tranqila. Vou examin-la.
Delicadamente, fez com que a paciente se deitasse na mesa de exames clnicos e comeou a examin-la. Vez por outra fazia alguma pergunta, que ela respondia.
- Est se alimentando direito, Juliana?
- No, doutor. No consigo comer nada. Se insisto, tenho at nuseas.
- Tem dormido bem?
- Muito bem. Durmo at demais. Tenho enfrentado dificuldade para sair da cama e ir trabalhar de manh.
- Como est a urina?
- Normal.
Quando terminou o exame, ela indagou:
- E ento, doutor?
- Aparentemente, voc est saudvel. Deve ter tido alguma queda de presso em virtude do calor excessivo que tem feito nesses ltimos dias. Vou pedir alguns exames 
de sangue e de urina. Quando estiverem prontos, retorne.
Juliana, ainda no satisfeita, voltou a inquirir o mdico:
- O senhor acha que eu estou doente, doutor?- No, Juliana, ao contrrio. Acho que voc est bem saudvel.
- Ento, por que esse mal-estar que venho sentindo? O profissional fitou-a srio, e depois lhe disse:
- Juliana, gosto de voc como se fosse uma filha, a filha que no tive. Durante aquele perodo passado no hospital, afeioei-me a voc.
- Obrigada, doutor. Mas noto, pela sua expresso, que o senhor est analisando se me deve contar a verdade. Pode falar que vou saber entender e aceitar, doutor.
- Juliana, no gostaria de afligi-la sem motivo. Por isso solicitei os exames. Vamos aguardar.
Percebendo que estava certa, que o mdico estava escondendo alguma coisa, reagiu enrgica:
- No, doutor. Quero saber agora. O que est acontecendo comigo? No sairei daqui enquanto no souber a verdade.
Ele respirou fundo, olhou-a fixamente e falou:
- Voc est grvida.
Olhos arregalados, boca aberta, Juliana julgou no ter entendido.
- O que disse, doutor?
- Que voc est esperando uma criana, Juliana.
- No pode ser! Isso  alguma brincadeira de mau gosto?
- Acha que eu brincaria com voc? Por isso pedi os exames, que vo confirmar meu diagnstico.
Juliana comeou a chorar, desesperada:
- Mas o senhor disse que minha menstruao no tinha vindo em virtude da cirurgia e de tudo o mais!
- Sim, e era verdade. Porm, suas regras j deveriam ter vindo. Juliana, procure manter a calma, ter um beb no  o fim do mundo.
- Meu Deus! Doutor, o que eu fao? Meu casamento est marcado para breve, os preparativos sendo feitos. Agora, essa bomba? Como Deus foi fazer isso comigo?
Com o corpo todo a tremer, demonstrava um desespero enorme.
- Parece que minha cabea vai explodir, doutor. O que vai ser da minha vida agora? Temo enlouquecer. De um tempo para c, sinto que o mundo est desabando sobre 
mim.
Em vista do seu estado emocional, o mdico ministrou-lhe um calmante. Depois, sentou-se na frente dela e, tomando suas mos nas dele, considerou com imensa ternura:
- Juliana, minha filha, sei que foi um golpe muito forte, especialmente depois de tudo o que voc passou. Mas, veja! Para tudo existe uma soluo! Pode ser que seu 
noivo aceite essa criana...
- Conheo Renato, doutor. No aceitar.
- Bem, existe uma sada que a lei lhe oferece. Quando a gestao  oriunda de um estupro, pode-se interromper a gravidez.
- Fora de cogitao, doutor. Minha conscincia nunca aceitou o aborto. Tenho respeito demais pela vida para tomar tal atitude.
O mdico sorriu com os olhos midos de emoo:
- Sinto um profundo respeito por voc, Juliana, e suas palavras s fizeram aumentar minha admirao por sua pessoa.
Ela levantou os olhos vermelhos de chorar e a expresso era de uma imensa dor.
- Agradeo-lhe. Mas isso no resolve o meu problema, doutor.
- Eu sei e compreendo o que est sentindo. Aconselho-a a voltar para casa e refletir bem no que quer fazer. Coloque seus pais a par do que est acontecendo. Seja 
qual for sua deciso, ter de ter o apoio deles. Conte comigo em qualquer circunstncia. Est bem?
Despediram-se com um grande abrao. Antes de Juliana sair, ele mostrou preocupao.
- Voc veio sozinha? Quer que minha secretria a leve em casa? No pode dirigir neste estado.
- No, doutor. J estou bem, pode crer. At logo.
Saindo do consultrio, Juliana pensou que teria de enfrentar momentos difceis. O primeiro, seria contar a seus pais. Ao entrar em casa, a me estranhou ao v-la 
chegar to cedo do trabalho, ao que ela deu uma desculpa, alegando que estava com dor de cabea e sara antes do horrio.
- Vou descansar um pouco, mame. Quando o papai chegar, me chame, por favor.
- Certo. Ento, vou preparar o jantar mais cedo.
Juliana fechou-se em seu quarto, jogou-se na cama e cobriu a cabea com a colcha. Ali, quietinha, chorou bastante. Quando Helena foi avisar que o jantar estava na 
mesa, estranhou v-la com a cabea coberta com o calor que estava fazendo. No fez comentrios, entendendo que alguma coisa estava acontecendo. Juliana beijou o 
pai e sentou-se  mesa. O ambiente da sua casa, que sempre fora alegre e descontrado, tornara-se pesado e triste. Helena notou que a filha mal tocara na comida, 
mas no disse nada. Quando terminaram a refeio, foram para a sala, como de hbito. Antes que o pai ligasse a televiso, Juliana informou, reunindo as foras:
- Preciso conversar com vocs dois.
- Sim, filha, pode falar. Seja o que for, sabe que pode contar comigo e com sua me - disse o pai, preocupado.
- Estou grvida.
- O qu?!... - disseram ambos ao mesmo tempo.
- Sinto-me desesperada! Nem por um momento pensei nessa possibilidade.
- Esse filho  do Renato? - gaguejou o pai.
- Claro que no, papai. Se fosse, no haveria problema. Renato e eu no tivemos relacionamento algum nesse perodo.
- Ento...
- ...  um filho daquele miservel que estou esperando. Entendem meu desespero? O que ser de mim agora? Minha vida est destruda.
Cobriu o rosto com as mos a chorar convulsivamente. Os pais a abraaram, tambm em lgrimas.
- Tem certeza, minha filha? - indagou a me.
- Hoje tive um desmaio no servio, e fui ao mdico. Doutor Bruno mandou fazer alguns exames, mas percebi que ele sabia o que estava acontecendo comigo. Apertei-o, 
ele contou-me a verdade.
- Filha, ele pode ter-se enganado. No seria o primeiro mdico que erra. Olhe, acalme-se. Amanh logo cedo vamos ao laboratrio. Quem sabe tudo no passa de um engano?
- Eu "sinto" que estou grvida, mame. Helena, que tinha feito uma pausa, prosseguiu:
- E se estiver? Voc teve relacionamento com Renato antes, no foi? Ento, mesmo que esteja grvida, no se desespere. Pode ser que a criana seja do seu noivo e 
no daquele criminoso. Faremos um teste de DNA e tudo ser esclarecido. Vamos! No chore, minha querida. Relaxe. Vou buscar o remdio para que voc possa dormir 
bem. Precisa descansar.
Com as ponderaes da me, Juliana aos poucos se acalmou. Essa criana pode ser filho de Renato! Uma rstia de esperana surgiu em seu ntimo. Nem tudo estava perdido. 
Na manh seguinte, Helena e a filha levantaram bem cedo e foram ao laboratrio. A coleta do sangue teria de ser feita em jejum. Depois, como Juliana estivesse muito 
combalida, no foi trabalhar. Passado o perodo de espera, ficaram prontos os exames; elas pegaram o resultado no laboratrio e dirigiram-se ao consultrio mdico. 
Como o doutor Bruno previra, o diagnstico se confirmou. Juliana estava grvida. Me e filha conversaram com o mdico sobre o desejo de fazer o teste de DNA. A dificuldade 
 que Juliana no queria que o noivo ficasse sabendo.
- Fazer o teste sem o conhecimento de Renato no  difcil. Pode ser feito com um fio de cabelo, um pedao de unha etc. O problema  que, se ele souber que voc 
est grvida, tambm ficar em dvida sobre a paternidade da criana, Juliana. J pensou nisso? Voc ter de contar a ele! No vejo outra sada.
- No posso, doutor. No tenho coragem - disse a jovem, nervosa, roendo as unhas.
Com serenidade, mas firme, ele insistiu:
- Voc no tem alternativa, Juliana. Mesmo porque, se resolver abortar, o tempo  curto.
- Isso eu no farei, doutor - reafirmou, decidida.
- Voc poder mudar de idia. Se o filho no for de Renato, provavelmente ele exigir que voc tome essa deciso drstica. Por enquanto, fale com ele e explique 
a situao. Depois, voltaremos a conversar.
Despediram-se. Juliana estava com o corao opresso. Como contar seu problema ao noivo? Entendeu, porm, que o mdico tinha razo. Renato precisava saber, tinha 
o direito de saber. E se era necessrio tomar uma deciso, que fosse o mais rpido possvel. Entrando em casa, enquanto a me se dirigiu  cozinha para preparar 
o almoo, Juliana pegou o celular e ligou para o noivo.
- Renato, eu preciso falar com voc.
- Ol, querida! Precisa falar comigo? Est bem. Hoje  noite passarei na sua casa e jantarei com vocs. Depois, vamos ao cinema.
- Cinema? - ela estranhou.
- E. Lembra-se de que tnhamos combinado de assistir "aquele" filme?
- Ah! No vai dar, Renato. No estou com cabea para isso. E tambm no posso esperar at a noite para falar com voc. E urgente.
- Bem, se  to urgente assim - disse, olhando para o relgio de pulso -, est quase na hora do almoo. Podemos fazer a refeio juntos. Que tal aquele restaurante 
pequeno e tranqilo de sempre?
- Certo. So onze horas. Esperarei voc l s onze e trinta. Est bem para voc?
- Combinado. Mas estou preocupado, Juliana. No quer mesmo me adiantar nada?
- No. At l.
Ainda era cedo, contudo Juliana dirigiu-se para o restaurante. Escolheu uma mesa e acomodou-se. Pediu um suco e ficou esperando. Um pouco depois da hora combinada, 
Renato chegou.
- Desculpe-me, querida. Estava atendendo a um cliente e no podia sair. Estou fazendo um projeto para ele e precisvamos combinar algumas adaptaes.
Parou de falar e notou que a noiva no parecia bem. Segurou a mo dela sobre a mesa e percebeu que estava trmula.
- Juliana, voc est plida. Aconteceu alguma coisa? Essa pressa em falar comigo... tem relao com nosso casamento?
- Diz respeito ao casamento, sim. Preciso falar...
- Depois, querida - interrompeu-a. - Antes, vamos almoar. Estava mesmo com fome.
Renato chamou o garom e fez os pedidos rapidamente. Conheciam o restaurante e tinham j suas preferncias. Depois, conversaram sobre amenidades. Tentando arrancar-lhe 
alguma coisa, ele perguntou como estava o servio dela, como iam os preparativos para o casamento, se estava tudo certo. Ela respondeu dizendo que o servio ia bem 
e que, quanto aos preparativos para o casamento, tambm acreditava que estavam caminhando a contento, pelo que sua me dizia. Falaram sobre o tempo e sobre muitas 
outras coisas. Nada, porm, que lhe desse alguma pista. Quando o garom trouxe os pratos, foi um alvio. Renato, como sempre, almoou com satisfao, enquanto ela 
comeu pouco e com dificuldade. Aps terminarem, o garom tirou os pratos, trouxe o caf e era hora de enfrentar o assunto que os tinha levado at ali. 
- Bem, Juliana, diga o que a preocupa. Noto voc tensa, comeu pouco e est trmula. Aconteceu alguma coisa?
Juliana pretendia fazer uma introduo, ensaiara algumas palavras enquanto esperava por ele, mas quando percebeu j tinha falado:
- Estou grvida.
Renato, que levava a xcara de caf  boca, ficou parado, olhando para ela, incapaz de falar.
- Voc ouviu? Estou grvida, Renato!
Ele pousou lentamente a xcara no pires, como se estivesse refletindo. 
- Sim, ouvi. Mas, ns no...
- Esse  exatamente o problema. Tivemos relaes antes do que me aconteceu.
- Mas esse filho pode no ser meu, Juliana!
- E verdade. Mas tambm pode ser seu - respondeu ela, jogando a dvida no ar.
- O que voc sugere?
- Que faamos um teste de DNA.  o nico meio de podermos ter certeza.
- Est bem. Concordo. Mas, e se o filho no for meu? Voc far o aborto?
Juliana respirou fundo e respondeu:
- Uma coisa de cada vez. Veremos isso depois. Primeiro, o teste de paternidade. Vou marcar e depois aviso voc.
Juliana ficou olhando para o noivo e ele para ela. Em nenhum momento ela notou que Renato estivesse preocupado com a situao dela. S pensava nele.
- No tem nada para me dizer, Renato? - perguntou, tentando conseguir uma reao dele.
- No sei o que lhe dizer, Juliana. Estou em choque.
- Imagino. Eu tambm fiquei. Bem, tenho de ir agora. At logo!
Ela saiu, deixando sentado no mesmo lugar o noivo, que fora incapaz de dizer-lhe uma palavra de carinho, de consolo, de ajuda. Naquele momento, tentando conter as 
lgrimas, Juliana chegou a desejar que o filho no fosse dele. No desejava um pai to insensvel e egosta para seu filho.


CAPTULO 24 - ENFRENTANDO AS ADVERSIDADES

"A liberdade de conscincia  uma conseqncia da de pensar?"  "A conscincia  um pensamento ntimo que pertence ao homem, como todos os outros pensamentos."
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 835)

Algum tempo depois, ficou pronto o exame de comprovao de paternidade. Apesar de extremamente ansiosa, Juliana no quis ver o resultado no laboratrio. Controlou-se 
e, com o envelope a queimar-lhe as mos, caminhou at uma praa, ali perto, escolheu um banco, onde se sentou automaticamente. O medo era tanto que seu corpo todo 
tremia. Quebrou o lacre do envelope e retirou as folhas cujas letras pareciam danar diante de seus olhos. Concentrou-se, respirou fundo e leu o resultado. Juliana 
ficou parada, em estado de choque, incapaz de ter uma reao. O teste s veio provar o que ela temia: o filho no era de Renato. Ento, a criana era mesmo do desconhecido! 
Sem dvida tinha refletido nessa possibilidade, durante noites e noites em que no dormira pensando no assunto, mas ver confirmadas suas suspeitas era terrvel, 
mais do que isso, era monstruoso. Alm de ter sofrido uma violncia, carregar o resultado dessa violncia parecia-lhe desumano. Onde estava Deus quando permitiu 
que isso acontecesse?, pensava desesperada. Naquele momento, mais do que nunca precisava de algum a seu lado, e estava sozinha, entregue a si mesma. Na verdade, 
Renato quis acompanh-la, ansioso pelo resultado, no entanto ela no permitiu. Seus pais tambm se dispuseram a ir junto, mas Juliana no aceitou. Queria estar a 
ss quando visse o resultado do teste. No gostava de expor suas emoes diante dos outros, especialmente do noivo. Agora, tinha dvidas se agira corretamente. Sentia 
necessidade de algum a seu lado que a abraasse, que a consolasse, que a amparasse nesse momento difcil, e no havia ningum. O que fazer? No tinha nimo para 
sair do lugar. Olhar perdido ao longe, fisionomia atormentada, ela continuou sentada no banco da praa durante horas. De repente, deu-se conta de que o celular estava 
tocando. Abriu a bolsa e atendeu. Era Renato.
- Juliana? Onde voc est? Liguei vrias vezes, mas voc no atendeu!
- Oi, Renato. No ouvi o telefone tocar.
- Pegou o resultado do teste?
- Peguei.
- E ento? O que deu? Fala, Juliana, estou ansioso!
- Ainda no abri - mentiu, tentando ganhar tempo.
- No acredito!
- Est lacrado. Vou ao mdico. L ficarei sabendo.
O rapaz estranhou a reao da noiva. Afinal, mais do que ningum, ela tinha pressa em conhecer o resultado. Ele ficou preocupado; notara a voz do outro lado estranha, 
diferente. Porm, naquele momento, no podia fazer nada, a no ser concordar. Respirou fundo tentando conter a irritao e a impacincia:
- Est bem, Juliana. Quando souber o resultado da paternidade, me avise. Afinal, sou parte interessada!
Juliana desligou o telefone sem despedir-se do noivo. Tinha tomado uma deciso. Aquilo que afirmara como desculpa lhe parecia a melhor soluo: sim, iria ao mdico. 
O consultrio distava poucas quadras dali, e o doutor Bruno era a nica pessoa que poderia ajud-la naquele momento. Como um autmato dirigiu-se  clnica. No se 
deu conta do trajeto, nem de como atravessou as ruas. Chegando ao endereo, subiu at o quinto andar, caminhou at a sala do mdico, abriu a porta e sentou-se. A 
secretria estranhou o comportamento da recm-chegada. Geralmente afvel, naquele dia Juliana nem sequer a cumprimentou. No tinha hora marcada nem perguntou se 
o mdico podia atender; apenas tinha se acomodado sem dizer uma palavra, e continuava ali, alheia a tudo. A secretria, sensvel e delicada, que j tinha visto de 
tudo naquele consultrio, percebeu que a moa estava emocionalmente perturbada. Conhecia sua histria, os problemas que tinha enfrentado e achou que ela estava precisando 
de tempo para se recuperar de alguma coisa. Uma hora depois, o mdico chamou a assistente.
- E ento? Parece que as consultas terminaram por hoje.
- Sim, doutor. Porm, tem uma moa aguardando. Parece que no est nada bem.  a Juliana.
O mdico demonstrou surpresa no olhar.
- Juliana? Faa-a entrar!
A assistente saiu e, logo em seguida, Juliana entrou. Bruno tinha se levantado para cumpriment-la, mas ela apenas estendeu o brao e entregou-lhe o envelope. Ao 
ler o resultado, o mdico entendeu o estado emocional de sua paciente.
- Seu noivo j sabe?
- No. Ainda hoje vou romper o nosso compromisso. No tenho escolha.
- No faa isso, Juliana. D-lhe uma chance de mostrar o que pensa. Pode ser que voc se engane. Quem sabe? Ele pode surpreend-la! J tive ocasio de ver casos 
cujos resultados pareciam certos e que as pessoas se equivocaram em seus julgamentos - ponderou o mdico.
Juliana abriu um sorriso triste e melanclico.
- No no caso de Renato. Conheo-o muito bem para poder me enganar. Mas est bem, doutor, j que insiste. Vou tentar.
Em torno das vinte horas, Renato chegou. Vinha tenso, angustiado. Cumprimentou Antero e Helena, trocaram algumas palavras cordiais. Logo em seguida, Juliana entrou 
na sala e os pais saram, deixando-os a ss. Renato viu o envelope nas mos dela e suplicou:
- Por favor, Juliana. No me deixe mais nessa dvida cruel. Sou eu o pai?
Calada, ela estendeu a mo e entregou-lhe o envelope. Depois, lentamente se dirigiu para o vo da janela, examinando a rua tranqila, onde um vento leve agitava 
as copas das rvores. Renato leu o resultado e caiu sentado no sof, lvido. - Meu Deus! E agora, Juliana? De costas para ele, a moa continuou impassvel como se 
no tivesse ouvido. Ele repetiu a pergunta:
- Juliana, o que vamos fazer?
Ela ainda permaneceu calada por alguns segundos. Depois, deixando o vo da janela, virou-se, fitou o noivo e devolveu-lhe a pergunta:
- Diga-me voc, Renato. E agora? Como fica nossa situao? Nervoso e trmulo, ele passava a mo pelos cabelos; os olhos vermelhos demonstravam grande agitao emocional. 
Ela continuou:
- Voc aceitaria o filho de outro homem, sabendo que no tive culpa naquilo que me aconteceu, que fui apenas uma vtima?
Profundamente abalado, ele gaguejou:
- No sei o que dizer, Juliana. No me sinto preparado para ser pai. Comear uma vida de casado, com uma criana que nem sequer  meu filho. Voc no pode exigir 
de mim tal coisa!
Renato fez uma pausa, olhando para a noiva que chorava silenciosamente, e depois prosseguiu mais esperanoso:
- Olhe, temos uma sada legal: a interrupo da gravidez. Andei me informando e a lei permite que se faa o aborto em casos como este.
Juliana balanou a cabea:
- Sei disso, Renato. Mas no estou disposta a transformar-me numa criminosa para me casar com voc. Se o preo  esse para ficar a seu lado, no pretendo pagar. 
 alto demais. 
- A verdade  que voc no me ama, Juliana. Se me amasse, faria esse sacrifcio por mim. Voc no entende? Ainda no existe uma vida! Esse beb no  ningum e voc 
no o desejava!
- Engana-se, Renato - retrucou ela, incisiva. - A vida j existe e est pulsando dentro de mim. Essa criana, sim,  que no tem culpa de nada.
Os dois permaneceram em lados opostos da sala, calados, cada qual entregue aos prprios pensamentos. O ambiente da sala estava opressivo, tenso, irrespirvel. Afinal, 
ele exigiu uma definio:
- Esta  sua ltima palavra? No vai mudar de opinio?
- No, Renato. Lamento. No posso fazer o que voc deseja. Perderia o respeito por mim mesma.
- Ento nosso compromisso est desfeito? Nada de casamento, de festa, de viagem de npcias, de uma vida a dois? - insistia ele.
- Nada. Lamento. Completamente transtornado, Renato fez meia-volta e saiu batendo a porta. Antero e Helena, ao ouvirem o estrondo, entraram na sala e encontraram 
a filha chorando convulsivamente.
- Est tudo acabado. Tudo!
- No se preocupe, filhinha. Ns estaremos sempre junto com voc. Coragem. Confie em Deus.
Em prantos, ela repetia:
- Tudo acabado. O sonho de toda uma vida desapareceu, virou p.
Os pais de Juliana ajudaram-na a se erguer e a levaram para o quarto, colocando-a na cama. Antero foi buscar o remdio, enquanto a me a abraava, chorando tambm.
- Filha, tudo passa na vida. Voc ainda vai ser muito feliz, acredite.
- No vou tomar o remdio, mame. Pode prejudicar meu filho. Tenho de aprender a me controlar, enfrentar meus problemas sem precisar da ajuda de medicamentos.
A me concordou com a deciso da filha e foi fazer um ch calmante. Juliana tomou o ch, deitou-se e, aos poucos, os soluos foram diminuindo at cessarem de todo. 
Finalmente Juliana adormeceu e seu semblante se distendeu, mais sereno. Por alguns dias, Juliana permaneceu em casa, sem condio para sair e trabalhar. No queria 
ver ningum. Os pais de Renato vieram visit-la, mas ela no os recebeu. Renato veio visit-la, mas tambm no quis v-lo. Era uma pgina virada em sua existncia. 
A vida seguia seu curso, inexorvel. Com o passar dos dias, tudo foi voltando ao normal. Juliana, que nunca mais tinha se encontrado com o ex-noivo, ficou sabendo, 
por uma amiga, que ele tinha sido visto com uma moa. Fingiu no se abalar, afirmando tranqila: "Desejo que ele seja feliz". No fundo, porm, sentiu uma fisgada 
de cime, que procurou abafar pensando em outras coisas. Afinal, tinha muito por fazer. Teria de encher-se de nimo para cuidar dos preparativos: comprar o enxoval 
do beb, o bercinho, a cmoda, o carrinho, arrumar o quarto para esperar sua chegada e tantas outras coisas. Com o passar dos meses, a gravidez comeou a aparecer 
e a barriga a crescer, conscientizando-a de que seria me de verdade. Ainda no sabia o sexo, mas a ultra-sonografia deixou-a emocionada. Era a primeira vez que 
via o seu beb. Quanto ao pai da criana, procurava nunca pensar nele. Na verdade, seu filho s teria me. Certo dia, recebeu um recado do delegado Gonzaga para 
que comparecesse  delegacia. Preocupada, Juliana compareceu no horrio estipulado. Ao chegar, ficou sabendo o motivo: entre seis rapazes, teria de reconhecer se 
um deles tinha sido seu estuprador. Juliana estava extremamente nervosa. Pensar que poderia rever o criminoso deixou-a em pnico. Enquanto aguardava, ficou sentada 
no gabinete do delegado. O mesmo rapaz que tomara seu depoimento ali estava. Notando-lhe o nervosismo, ele comeou a conversar com ela, tentando acalm-la.
- No se preocupe, nem se sinta intimidada. Vocs no se encontraro. Fique tranqila.
O rapaz era simptico e de voz agradvel. Parecia realmente querer ajud-la.
- Mesmo assim,  difcil para mim.
Iniciada a conversao para passar o tempo, ela indagou polidamente:
- Voc trabalha aqui faz tempo?
- Alguns anos. Comecei como office-boy. Depois, completei meus estudos e tornei-me escrivo.
- Mas voc  bem jovem!
- Comecei muito cedo, ainda garoto. Alm disso, no sou to jovem assim. Tenho 26 anos.
- Pois no parece. Tem famlia?  casado?
- No, sou solteiro. Moro com minha me e dois irmos.
- Ah!
- E voc? - ele perguntou - Lembro-me de que estava noiva. Casou-se?
Juliana balanou a cabea, negativamente. Percebeu que o rapaz olhara disfaradamente para sua barriga e entendeu o porqu da pergunta. No mesmo momento, ele deu-se 
conta do que estava acontecendo. Sentiu-se constrangido e penalizado diante da situao que ela estava atravessando.
- Desculpe-me. No quis ser indiscreto.
- No se preocupe. Estou acostumada com reaes bem piores do que a sua. H pessoas que, ao ficarem sabendo que eu no quis fazer aborto dessa criana, fruto de 
uma violncia, no entendem nem aceitam minha deciso.
Os olhos do rapaz brilhavam de emoo ao fit-la. Quando ele ia falar alguma coisa, o delegado entrou avisando:
- Est tudo pronto, Juliana. Vamos l?
Ela olhou para o rapaz buscando ajuda. Ele entendeu e disse em voz baixa:
- No se preocupe, Juliana. Tudo vai dar certo. Gonzaga e eu estaremos com voc.
Nada vai acontecer. Venha. 
Caminharam por um corredor at uma porta fechada. O delegado abriu-a e entraram. O mobilirio constava de uma mesa e algumas cadeiras. Sentaram-se. Numa das paredes, 
havia um grande vidro e, do outro lado, uma outra sala, completamente vazia. O delegado explicou:
- Por aquela porta vo entrar seis rapazes. Observe bem e diga-me se reconhece algum deles. No temos pressa. Voc ter todo o tempo necessrio. Est pronta?
- Sim.
Logo em seguida os rapazes foram introduzidos, em fila. A uma ordem do delegado, permaneceram na posio em que tinham entrado, de lado. Aps alguns minutos, a uma 
nova ordem, viraram-se de frente. Juliana, trmula e gelada, sentia o corao bater acelerado. Olhou para os homens que ali estavam do outro lado do vidro e se encolheu, 
assustada. 
- Fique calma. Eles no podem v-la - informou o delegado. Juliana examinou cada um deles, em ordem. Quando chegou ao quinto rapaz, levou um susto. Estava com outra 
roupa, mas era ele mesmo.
Gonzaga mandou que tirassem a camisa e se posicionassem de lado. Juliana no teve dvida: era ele mesmo, o rapaz daquela noite e a tatuagem ali estava para confirmar.
-  ele, o quinto.
- Tem certeza?
- Absoluta.
Saindo da sala, Juliana ps-se a chorar, convulsivamente. Seus nervos estavam  flor da pele, sentia falta de ar. A vista do rapaz, as imagens daquela noite voltaram 
 sua mente, perturbando-a emocionalmente. Ao ver seu estado, o delegado levou-a para sua sala e pediu que o assistente lhe trouxesse um copo de gua.
- Est mais calma? Voc nos prestou um grande servio, Juliana. Aquele rapaz  velho conhecido da polcia. De boa famlia, rico, vive nas ruas em virtude das drogas. 
De outras vezes j esteve envolvido em casos graves, mas sempre conseguiu se safar, porque o papai interfere, usando suas ligaes polticas. Chama-se Luciano de 
Castro.
O criminoso agora tinha um nome: Luciano. Juliana no sabia se ficava contente por ele ter sido preso, ou se lamentava o fato, pois seria mais difcil esquecer. 
Era como se agora ele estivesse mais perto dela. Como ela estivesse ainda muito nervosa e sem condies de dirigir, Gonzaga pediu ao assistente que levasse Juliana 
de volta para casa.  O rapaz perguntou onde tinha ficado o carro. Juliana explicou, entregando-lhe a chave. Ele foi buscar o veculo e parou em frente  delegacia, 
onde Juliana o aguardava. Fizeram o trajeto em silncio. Diante da casa, estacionou o carro, desceram e o rapaz entregou  Juliana as chaves. Ela agradeceu a gentileza 
e somente ento se lembrou:
- Voc tem sido to gentil comigo e nem ao menos sei seu nome.
- Francisco - informou sorridente.
- Francisco. Obrigada. Quer entrar, tomar um caf?
- No, Juliana. Agradeo-lhe o convite. Fica para outro dia.
- Ento, mais uma vez, obrigada, Francisco. Boa noite.
- Boa noite.


CAPTULO 25 - REENCONTRO

"Reconciliai-vos o mais depressa possvel com o vosso adversrio enquanto estais com ele no caminho, para que ele no vos entregue ao juiz, o juiz no vos entregue 
ao ministro da justia e no sejais metido em priso. Digo-vos, em verdade, que da no saireis, enquanto no houverdes pago o ltimo ceitil."  JESUS (MATEUS, 5: 
25 E 26)

Algum tempo depois, Juliana havia tirado uma tarde inteira para ir a um Shopping Center. Faltavam vrios itens do enxoval do beb e precisava fazer as ltimas compras. 
Passando por uma sorveteria, pediu um sorvete de chocolate, seu preferido, e o saboreava olhando as vitrinas, quando se deteve diante de uma loja infantil decorada 
lindamente. De todos os produtos ali expostos, o que mais chamou sua ateno foi um belo carrinho em tons de rosa - agora j sabia que era uma menina! - bem no estilo 
e marca que estava procurando. Nisso, ouviu algum dizer perto do seu ouvido: -  lindo! Virou-se para ver quem tinha falado e levou um susto. Ficou parada, em pnico. 
O sorvete e as sacolas caram de suas mos. Era ele! O maldito! Notando que ela estava em choque, o rapaz estendeu os braos, dizendo em voz mansa:
- Por favor, no vou lhe fazer mal algum. S desejo conversar. Falar com voc.
Em pnico, incapaz de ouvir e entender direito o que ele dizia, Juliana comeou a gritar:
- Socorro! Socorro! Acudam!
O rapaz, que se abaixara e tentava pegar as sacolas de compras que estavam no cho, suplicava: 
- Por favor, no grite. S quero conversar. Deixe-me pegar... Os transeuntes, porm, ouvindo o barulho comearam a parar e, ao ver uma grvida apavorada, a gritar 
por socorro, julgaram que o rapaz tentava roub-la.
Algum gritou: pega ladro! E o rapaz, percebendo o perigo, saiu em disparada, desceu a escada rolante e logo desapareceu no meio da multido. Nesse momento, um 
moo abre caminho no meio do povo para ver o que estava acontecendo e depara com a jovem mulher grvida, em prantos, enquanto duas mocinhas recolhiam as compras 
cadas no cho.
- Juliana! O que houve?
Ela levantou a cabea ao ouvir a voz conhecida.
- Francisco!  voc? Ajude-me!
Notando que a gestante estava fraca, quase desmaiando, o rapaz envolveu-a com os braos e conduziu-a para uma mesinha ali perto, ao mesmo tempo em que ordenava, 
dirigindo-se aos curiosos:
- No se preocupem. Podem ir agora. Eu a conheo e tomo conta dela. Obrigado.
Obrigado.
Os curiosos foram se dispersando. As duas garotas que estavam com as compras seguiram a ambos; depois, colocaram as sacolas numa mesa que ele tinha escolhido. Francisco 
agradeceu-lhes a gentileza. Acomodou Juliana numa cadeira e sentou-se defronte dela. Pediu uma gua  garonete, depois a examinou preocupado:
- Est bem, Juliana? No se machucou? O que aconteceu? Com olhar esgazeado, ela lanou um olhar para os lados, como se esperasse ver aquele rapaz de novo. Os transeuntes 
tinham se dispersado e no havia mais ningum por ali. Assustada, ainda com o corao aos saltos, ela informou, apertando a mo dele sobre a mesa:
- Era ele, Francisco.
- Ele, quem?
- Ele! Luciano. Aquele monstro que me agrediu.
A garonete trouxe uma garrafinha de gua e dois copos. Francisco ps um pouco de gua num copo e deu-o para Juliana, colocando-o nas mos dela, que mal o conseguia 
segurar. Enquanto ela tomava um gole, Francisco prosseguiu tentando entender o ocorrido:
- Ele estava aqui? Voc o viu? Luciano falou com voc?
- Sim! Ele est solto? Pensei que estivesse na cadeia, que  lugar de criminosos!
Com expresso compungida, Francisco confirmou: 
- Sim, ele est solto. Foi julgado, mas como  dependente, o advogado conseguiu que fosse encaminhado a um hospital para tratamento. Mas o que Luciano queria?
- No sei. Fiquei apavorada ao v-lo. Lembro-me apenas de que ele disse que queria falar comigo.
- Quando cheguei, as pessoas falavam em tentativa de roubo.  verdade? Ele tentou roub-la?
- No. Fiquei com tanto medo que comecei a gritar e as compras caram da minha mo.
Ele tentou recolher as sacolas do cho.
A expresso de Juliana era de desespero, suas mos tremiam.
- Voc percebe a gravidade da situao, Francisco? Ele sabe que estou grvida, talvez tenha at me seguido... Ser que no terei paz?
- Calma, Juliana. Pode ter sido apenas uma coincidncia. Como o fato de ns dois termos nos encontrado aqui, neste local e nessa mesma hora. No se desespere. Vou 
avisar o Gonzaga e procurar manter aquele delinqente sob vigilncia para que no a aborrea mais. Est bem?
Ela concordou com um gesto de cabea. Ficaram ambos, calados e pensativos, de mos dadas sobre a mesa. De repente, Juliana comentou:
- Analisando melhor o que aconteceu, agora com mais tranqilidade, penso que talvez ele no quisesse me agredir; seu rosto estava diferente, sua voz suplicante...
Francisco ouviu-a falar e com serenidade considerou:
- Quem sabe? Talvez esteja arrependido. O tempo que passou em tratamento pode t-lo feito pensar melhor, refletir sobre o mal que lhe fez e desejar repar-lo.
- Acha realmente possvel?
- Por que no? Acredito que todos ns j erramos muito e temos recebido de Deus a oportunidade de reparar o mal praticado. So fases de aprendizado necessrias ao 
nosso progresso. 
Revoltada, ela reagiu:
- Como assim? Eu nunca fiz mal a ningum nesta vida. E, no entanto, voc sabe tudo o que sofri sem merecer. Quando ouo falar em Deus, fico pensando: que Deus  
esse? Um carrasco sem piedade? Onde Ele estava quando aquele miservel me agarrou e me levou para o mato?
De repente, ela se deu conta que se inflamara, aumentando o tom de voz e calou-se, olhando em torno para ver se algum ouvira. Todavia, o movimento tinha diminudo, 
e poucas pessoas estavam ainda ali na praa de alimentao, pois era quase hora de fechar o shopping. Respirando fundo, mais tranqila, ela olhou para Francisco 
que a fitava, compreensivo.
- Talvez este no seja o momento nem o lugar para falarmos de coisas to srias, Juliana.
- No, por favor, Francisco. Desculpe-me. Continue. Estou interessada em ouvir o que tem para me dizer.
- Ento, vamos l! Tudo depende da viso que tenhamos do mundo e de Deus, Juliana. Certamente voc no fez mal algum nesta vida, porm poder t-lo feito em outras.
Com expresso levemente irnica, Juliana interrompeu-o:
- Est por acaso querendo sugerir a idia de reencarnao? Francisco fitou-a, srio, demonstrando que no estava a brincar:
- Tem outra idia melhor? Se pensar com seriedade sobre o assunto, vai perceber que  a nica coisa que pode explicar as diferenas que existem entre as pessoas, 
sejam elas sociais, individuais, culturais ou morais.
- Mas isso  um absurdo!
- Ao contrrio.  a chave que nos faz entender a justia divina. Se ns sofremos hoje  porque geramos sofrimento no passado. Com nossas aes, colocamos em movimento 
a Lei de Causa e Efeito. O mau uso do livre-arbtrio nos leva a enfrentar as conseqncias de nossos atos e a responsabilidade que assumimos perante o nosso prximo 
e perante Deus.
Francisco fez uma pausa, analisando a reao dela.
- J ouviu falar em livre-arbtrio?
- Claro.  quando podemos fazer escolhas. Voc se esquece, porm, de que eu no tive escolha.
- Talvez no, naquele momento, mas certamente exerceu seu direito de escolha antes.
- L vem voc de novo com essas idias. Quer dizer que se algum nasceu cego nesta vida  porque fez algum perder a viso no passado? Voc realmente acredita nisso, 
no ?
- Tem alguma outra sugesto? O Evangelho diz que  melhor entrarmos na vida sem um olho do que ele vir a ser causa de queda para ns.
-  a lei do olho por olho, dente por dente, de Moiss. Isso faz do seu Deus um ser cruel e vingativo, no acha?
- De forma alguma. Penso que isso quer dizer que recebemos sempre de acordo com o que semeamos. Quem planta, colhe. No vejo nisso crueldade e vingana, mas justia 
e eqidade. Alm do mais, Deus  nosso Pai, e como pai quer o melhor para ns, seus filhos. Assim, quando recebemos o sofrimento, no devemos enxerg-lo como vingana 
ou punio, mas como oportunidade de reeducao que o Senhor nos concede para nosso aprendizado. Estamos sempre aprendendo, com a dor e o sofrimento, a nos tornarmos 
criaturas melhores, mais pacficas, mais ordeiras, mais humildes, menos egostas, menos orgulhosas e mais fraternas e solidrias. 
A medida que Francisco falava, Juliana percebeu que um sentimento misto de admirao e respeito por ele nascia em seu ntimo. A ironia e o pouco caso desapareceram 
do seu rosto.
- Talvez voc tenha razo, Francisco. Confesso que nunca pensei nesse assunto, mas gostei de ouvir voc falar. E um mundo novo que se abre para mim. Percebi que 
leva a srio esse negcio de Deus. Qual a sua religio?
- Sou esprita.
- Logo vi. Para falar de reencarnao e dessas coisas voc s poderia ser esprita mesmo.
- Engana-se. As grandes religies antigas e as atuais existentes no mundo, como o Budismo, o Hindusmo e outras, pregam a idia das vidas sucessivas. Apenas os cristos 
ignoram essa realidade, apesar dos ensinamentos que Jesus nos deixou. Olhe, o assunto  vasto e complexo. Se quiser saber mais, tenho livros que posso lhe emprestar. 
So bastante esclarecedores.
- Gostaria muito. Agora, com a gravidez avanando, no vou poder sair muito de casa e terei tempo para me dedicar  leitura.
- Est combinado. Levarei alguns livros para que se inteire melhor do assunto. E ento, est mais calma? - perguntou ele, olhando-a com carinho.
- Sim. Foi muito bom t-lo encontrado, Francisco.
- Quer tomar um lanche? Um sorvete? Afinal, o seu caiu no cho.
- No, obrigada. Perdi a vontade. Fica para outro dia. Agora preciso ir. J  tarde.
Ele levantou-se tambm, segurando-a pelo brao e afirmando com naturalidade:
- No permitirei que volte sozinha. Vou lev-la.
No carro, Juliana sentia uma agradvel sensao de segurana ao lado dele. Era com prazer que o observava dirigindo com calma em meio ao trnsito sempre catico 
da grande cidade. Quando ele estacionou defronte da sua casa, Juliana permaneceu alguns segundos sem descer, calada, pensando. Notando que ela queria dizer-lhe alguma 
coisa, o rapaz esperou calmamente. Afinal, tomando coragem, Juliana perguntou:
- Francisco, e o meu caso? Como se explica o fato de ter enfrentado uma situao to dramtica de violncia, e ainda, por cmulo, ficar grvida? E o beb que vai 
nascer, o que tem a ver com isso? Ele desligou o motor, apagou as luzes e virou-se para ela. No escuro Francisco podia ver-lhe o rosto tenso, a nsia de entender 
o seu problema, a angstia que essa situao lhe causava.
- Estava esperando que me perguntasse isso, Juliana. Na verdade, a vida se incumbe de nos aproximar das pessoas com as quais precisamos nos reajustar. Somos em parte 
responsveis pelo que as pessoas as quais prejudicamos ou desencaminhamos no passado se tornaram hoje.
Juliana balanou a cabea, confusa.
- No sei. Confesso que sinto dificuldade de entender essa lgica. E a criana que vai nascer?
- Esse esprito que se prepara para fazer sua entrada no mundo certamente tem a ver com vocs. Pode fazer parte das suas ligaes do passado, ou das ligaes dele, 
ou companheiros que se associaram por afinidade a voc ou a ele.
- Como assim?
- Bem, ns atramos para o nosso campo vibratrio, por meio: do princpio da sintonia aqueles que tm afinidade conosco, seja pelas nossas qualidades ou pelas nossas 
imperfeies. Se ns pensamos no bem, atramos espritos bons; se procuramos o mal ou os vcios, atrairemos os que pensam como ns. Entendeu? Por isso, teremos sempre 
as companhias que desejarmos.
- Se entendi bem, essa alma pode ser de um viciado, como aquele criminoso? E se  viciado, pode nascer com problemas?
Percebendo que uma ruga de preocupao surgia na testa de Juliana, Francisco procurou modificar o tom da conversa, tranqilizando-a:
- No se preocupe, Juliana. Confie em Deus. Ele sempre sabe o que faz. Pense que esse filho vai trazer, a voc e aos seus, muita alegria.
- Espero! Gostaria de saber mais sobre esse assunto. Achei extremamente interessante. Poderamos voltar a falar disso outro dia?
- Claro. Estou  sua disposio, Juliana. Aqui esto suas chaves. Ela lanou-lhe um olhar intrigante e comentou, com um sorriso:
- Voc  uma caixinha de surpresas, Francisco! Ah! No se esquea dos meus livros.
Obrigada e boa noite.
Francisco sentiu uma emoo diferente dentro de si, enquanto o corao parecia querer pular fora do peito.
- Boa noite, Juliana.
Enquanto ele aguardava, na calada, para v-la entrar, Juliana parou no porto, virou-se, e perguntou interessada: 
- Francisco, naquele dia em que eu compareci  delegacia para fazer o reconhecimento do rapaz, ns estvamos conversando e falvamos sobre minha situao. Lembra-se? 
Voc ia me dizer alguma coisa quando o delegado entrou na sala. Fiquei curiosa. O que era?
Ele baixou a fronte e balanou a cabea, concordando. Quando a levantou, Juliana viu que Francisco estava comovido. Seus olhos umedeceram-se e um brilho diferente 
surgiu neles. Lentamente, o rapaz deu alguns passos vencendo a distncia que os separava, aproximou-se dela, segurou com delicadeza sua mo, depois disse pausadamente:
- Queria lhe dizer que, ao saber que voc se decidiu pela vida, no interrompendo a gravidez, apesar das circunstncias, despertou em mim uma enorme admirao e 
imenso respeito por voc. Era isso.
Em seguida, Francisco beijou-lhe a mo, emocionado. Depois deu meia-volta e caminhou para o ponto de nibus, com as mos nos bolsos das calas, sem se voltar. Juliana 
ficou parada, sob o impacto do momento, incapaz de falar, vendo-o se afastar. Depois sorriu, respirou fundo e entrou. Tambm estava emocionada.

CAPTULO 26 - RECONCILIAO

"No julgueis, afim de no serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se- convosco a mesma medida de que vos tenhais 
servido para com os outros."  JESUS (MATEUS, 7: 1 E 2)

Depois daquele dia no shopping e do encontro horrvel com Luciano, que a deixou extremamente assustada, Juliana no conseguia se esquecer dele. Afinal, ele estava 
por perto, e esse fato a tornou insegura e cheia de preocupao. Apesar das palavras do seu amigo Francisco, continuava sentindo mgoa, repugnncia e indignao 
contra aquele homem que a marcara de forma to profunda, gerando desequilbrio em sua vida e destruindo-lhe a esperana de felicidade. Na manh seguinte, como prometera, 
Francisco levou os livros na casa dela, antes de ir para a delegacia, deixando o pacote com a me, dona Helena. Juliana ainda dormia. Ao acordar, encontrou o embrulho 
de papel pardo em sua mesa de cabeceira. Revirou-o nas mos procurando uma identificao. Nada. Nem anotao, nem remetente. Surpresa e intrigada, ela rasgou o papel, 
encontrando dois livros: O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espritos, ambos de Allan Kardec. Sorriu. Francisco cumprira a promessa. Imediatamente abriu 
o primeiro ao acaso, e leu: "No julgueis para no serdes julgados. Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra". Leu os itens de 11 a 13, referentes a 
esse assunto e constantes do captulo 10. Pensativa, folheou algumas pginas e seus olhos caram sobre um trecho que falava a respeito da indulgncia, e leu, desse 
mesmo captulo, o item 17: "Sede indulgentes para com as faltas dos outros, quaisquer que sejam. Julgai com severidade apenas vossas prprias aes e o Senhor usar 
de indulgncia para convosco, do mesmo modo como a usastes para com os outros." Interessada, Juliana voltou algumas pginas e, no incio do captulo, leu o ttulo: 
"Bem-aventurados os que so misericordiosos". Mergulhou na leitura. Vez por outra parava, meditando nas palavras que lia; de outras vezes, no tendo entendido direito, 
voltava e relia os trechos que mais a tinham tocado, refletindo sobre o tema. Assim, as idias de perdo, de reconciliao com os adversrios, de indulgncia, aos 
poucos foram calando em seu corao, como chuva mansa e benfica que, ao cair sobre o solo ressequido e rido  rapidamente assimilada, fertilizando-o. A leitura, 
ao mesmo tempo que lhe proporcionava conhecimentos (reconhecia que os textos faziam abordagens sobre o Evangelho de Jesus de uma forma inusitada e lgica como jamais 
tivera oportunidade de ver), trazia-lhe profunda sensao de bem-estar e tranqilidade. Nos dias subseqentes, fazia suas tarefas, ajudava a me nos servios domsticos, 
depois mergulhava na leitura que tanto a atraa, mostrando-lhe um mundo novo e insuspeitado, onde a imagem daquele Deus de que Francisco falava passou a ter a conotao 
de verdadeiro Pai, segundo os ensinamentos evanglicos. Apaixonou-se pela obra O Livro dos Espritos. Reconhecia nos textos um repositrio de idias e notcias fascinantes 
que muito a encantaram, fazendo com que todos os fatos da vida passassem a ter lgica, objetivo e justia. Ela e Francisco passaram a se encontrar com mais freqncia, 
para discutir pontos que Juliana no havia entendido bem ou sobre os quais tinha dvidas. Algum tempo depois, Juliana estava em casa entregue s suas ocupaes. 
Era um dia tpico de outono: cu azul, temperatura amena e um lindo sol a brilhar deixando a tarde ainda mais bonita. Havia na casa um jardim interno, escondido 
de olhares indiscretos por alto muro e bela vegetao. Era o lugar de que Juliana mais gostava e onde costumava ficar quando o tempo permitia. Sentada num banco 
de madeira, com uma caixa de costuras ao lado, ela terminava de pregar botes e colocar fitas em algumas peas do enxoval do beb. De sbito, parou o que estava 
fazendo, com ntida sensao de que havia mais algum no jardim. Virou-se, e no viu nada. Bobagem! Devo ter-me enganado. Esse muro  to alto! Voltou os olhos para 
a costura e absorveu-se naquilo que estava fazendo. Alguns minutos depois, novamente teve uma sensao estranha, como se um vulto tivesse passado a alguns metros 
dela. Inquieta, perguntou:
- Quem est a?
Nada. Levantou-se do banco e repetiu a pergunta:
- Quem est a? Se h algum, que aparea.
Depois de alguns segundos de espera, um tufo de folhagens se agitou e um vulto surgiu por detrs dele.
- Sou eu.
Ao ouvir a voz, Juliana virou-se, e a costura caiu de sua mo.
Meu Deus!  ele!
Era o criminoso. Apavorada, sentiu que o sangue lhe fugia do rosto e uma sensao de dormncia a dominou. Pensou que fosse desmaiar. Assustado, o rapaz aproximou-se, 
segurando-a e evitando que casse na grama. Ajudou-a acomodar-se no banco e suplicou:
- Por favor, s quero conversar! No me mande embora, Juliana.
- O que voc quer aqui? - perguntou ela num fio de voz.
- J disse. Quero falar com voc.
- Pois eu no quero falar com voc. Nada temos para conversar. Se meus pais ou a empregada perceberem qualquer movimento estranho, chamaro a polcia. E se algum 
o pegar aqui voc vai preso.
- Ningum sabe que estou aqui.
- Vou gritar e algum vir me socorrer - afirmou ela, tentando aparentar firmeza, apesar do medo que sentia.
- No tem ningum dentro de casa. Sua me e seu pai esto trabalhando e a empregada j foi embora. Por favor, no quero fazer-lhe mal algum. Escute o que tenho para 
lhe dizer.
Vendo que ele estava a par dos movimentos da casa, e que no tinha como evit-lo, ela concordou:
- Muito bem. Diga rpido o que deseja e v embora.
- Posso me sentar?
Ela fez um gesto de assentimento e Luciano sentou-se delicadamente na outra ponta do banco. Nem sabia como comear. Tinha tanta coisa para dizer e agora a voz no 
lhe saa.  o ver que ele no falava, Juliana, que at aquele momento evitara fit-lo, arriscou um olhar disfarado. O rapaz tinha a expresso triste e parecia emocionado. 
Afinal, criando coragem, ele comeou a falar:
- Juliana, quero desculpar-me por ter agido de maneira to agressiva e to srdida naquele dia. No, no diga nada. Deixe-me falar. Sei que nada justifica meu ato, 
mas deixe-me dizer-lhe como me sinto. Depois, pode falar o que quiser.
Luciano fez uma pausa como se procurando as palavras, depois continuou:
- Nasci em um lar - se  que se pode chamar aquilo de lar - muito rico. Meu pai  de famlia tradicional e sempre teve poder e dinheiro. Desde criana acostumei-me 
a fazer tudo o que queria e a ter todos os meus desejos satisfeitos. Os problemas que eu criava eram sempre resolvidos por ele. Qualquer coisa que eu fizesse, meu 
pai acertava com dinheiro, comprando o silncio das pessoas.
Ele parou de falar para tomar flego, e Juliana murmurou:
- Eu sei. Seu pai tentou esse mtodo conosco tambm.
- Imagino que sim. Sinto-me muito envergonhado por tudo isso. A verdade  que cresci sem conhecer limites e tendo todos os meus desejos realizados. Ainda adolescente, 
nada mais era novidade para mim. No consegui estudar, fazer uma faculdade, mas meu pai providenciou-me um diploma. Viajei pelo mundo todo, tive os mais belos carros, 
e tudo o que o dinheiro pode comprar. Como ansiasse por emoes novas, mergulhei nos vcios. Primeiro foi o lcool, porta de acesso a drogas mais fortes, at que 
j no tinha mais o que me satisfizesse. Meus pais, assustados, talvez percebendo tardiamente a educao que tinham me dado, comearam a negar-me dinheiro. Passei 
a pegar, alm do dinheiro, tudo o que podia dentro de casa para vender: carros, obras de arte, as jias de minha me, objetos valiosos, aparelhos eletrnicos, roupas, 
tnis, tudo. Acabando com as coisas de valor que existiam em nossa casa, passei a roubar na rua. Tornei-me um ladro no verdadeiro sentido da palavra. No havia 
o que me fizesse parar. 
O rapaz fez nova pausa. Juliana o olhava agora com mais interesse percebendo sinceridade em suas palavras. Ele prosseguiu:
- At que aquela noite... Eu estava completamente drogado e ainda precisando de mais dinheiro para satisfazer o vcio. Quando a gente comea, no h o que chegue. 
Por isso a ataquei. Eu a vi, to desprotegida e to frgil, entrar naquela ruela, que no resisti. Enfim... voc sabe o que aconteceu. Ele colocou as mos sobre 
o rosto como se tentasse expulsar imagens indesejveis. Depois de alguns segundos, recompondo-se, continuou: - Voc acreditaria se lhe dissesse que me lembro de 
poucas coisas daquela noite? No estou querendo me justificar, mas s mostrar a quais extremos um ser humano pode chegar sob o efeito da droga. Bem, alguns meses 
depois eu fui preso e encaminhado para um hospital onde teria de me submeter a um tratamento de desintoxicao. Era a primeira vez que isso acontecia. Fiquei louco! 
Pirado! A fase de abstinncia  extremamente dolorosa. Passei dias e dias de sofrimento inconcebvel. Aos poucos, comecei a melhorar. A terapia psicolgica ajudou-me 
bastante. Nunca tinha aceitado esse tipo de tratamento e reconheo que foi muito benfico. Ele parou novamente de falar, virou-se para Juliana e contou:
- Foi s a que percebi tudo o que tinha feito. Um atendente do hospital - por coincidncia, amigo de um colega seu, da empresa onde trabalha -, que sabia da minha 
histria e tudo o que tinha feito, contou-me sobre a sua gravidez. Aquilo mexeu comigo. Eu ia ter um filho! Comecei a pensar mais, a refletir sobre minha vida, sobre 
tudo o que j tinha aprontado. Conversava sobre isso com o psiclogo, que me ajudou bastante, esclarecendo-me e abrindo-me a mente para outras idias. Ento, resolvi 
mudar. No posso dizer que esteja livre da dependncia porque ainda  cedo, mas at agora estou conseguindo vencer. Participo de um grupo de apoio para egressos 
do hospital, nos encontramos todas as semanas e falamos de nossos problemas, dificuldades e obstculos; fazemos um balano de nossa existncia, nos auto-analisamos 
para saber como somos realmente e o que desejamos da vida. Ento, depois de muito pensar - apesar do medo que eu sentia da sua reao ao ver-me -, resolvi procur-la. 
Confesso que a tenho visto muitas vezes, escondido. Tenho acompanhado quando sai de casa, e visto nosso filho, digo, nossa filha, crescer junto com sua barriga. 
Aquele dia no shopping no queria assust-la. S conversar com voc. 
Pela primeira vez, Juliana abriu a boca.
- Eu entendi. Embora tivesse ficado assustada, entendi.
- Agradeo-lhe. Eu precisava expor minha vida, falar das minhas dificuldades, dos meus problemas, enfim... Sei que nada justifica meu ato, o crime que pratiquei 
contra voc, mas quero poder reparar o mal que lhe fiz. Meu pai queria procur-la, pagar tudo, responsabilizar-se pela criana que vai nascer e que, afinal, ser 
seu neto, mas no permiti. Disse a ele que eu cuidaria disso. Sei como ele  prepotente, orgulhoso e egosta. Acabaria magoando ainda mais voc e sua famlia. Entende?
Juliana estava sria e compenetrada ao responder:
- Entendo. Contudo, no precisa se preocupar. Minha filha ter tudo o que precisa. No somos ricos, porm trabalhamos e temos condio de dar-lhe o necessrio sem 
que voc precise se preocupar. No se sinta obrigado a nada. O rapaz sorriu, melanclico.
- Juliana, voc no entendeu. No estou me dispondo a ajudar por obrigao, embora a tenha como pai. Quero ajudar por prazer, por amor. No me negue esse prazer, 
que  um direito.
- Ah! Vai comear com exigncias? - ela retrucou, com ironia. Luciano respirou fundo, explicando com delicadeza:
- No me entenda mal. No estou fazendo exigncias agora, nem farei no futuro. Gostaria apenas, se voc me permitir, de poder conhecer nossa criana quando ela nascer, 
dar-lhe presentes, v-la crescer, brincar com ela.
Juliana notou que a voz do rapaz estava embargada pela emoo e que ele no conseguia continuar. Enxugando as lgrimas e tomando flego, fazendo um tremendo esforo 
sobre si mesmo, ele suplicou:
- Por favor, Juliana, no me negue essa oportunidade. Mudei muito, estou mantendo-me longe do vcio, exatamente porque a vida me acenou com essa expectativa de ser 
pai, de ter um objetivo na vida, coisa que at agora eu no tinha nem sabia o que era. Atualmente, desejo crescer, ser algum para que minha filha se orgulhe de 
mim. Quero passar o melhor para essa criana que ainda nem nasceu e que j  to importante na minha vida. Por favor, tenha piedade!
Juliana, tambm emocionada diante do que ouvira, lembrou-se de tudo o que j lera nos ltimos dias, das conversas com Francisco, das informaes que tivera por intermdio 
da literatura esprita. Parecia-lhe que tudo o que aprendera tinha uma finalidade: era prepar-la para este momento, de modo que ela soubesse como agir na hora certa, 
tendo a compreenso necessria e aproveitando a oportunidade para o exerccio do perdo. Diante daquele rapaz que ali estava, ajoelhado a seus ps, humilhado diante 
da prpria conscincia, pedindo-lhe ajuda, Juliana considerou em voz pausada:
- Luciano - era a primeira vez que o chamava pelo nome -, Jesus disse certa vez que aquele que estivesse sem pecados que atirasse a primeira pedra. Diante disso, 
quem sou eu para julgar?
O moo ergueu a fronte, com os olhos brilhantes e midos, incapaz de acreditar naquela felicidade.
- Ento voc me perdoa, Juliana?
- J perdoei, Luciano.
Ele teve mpeto de levantar-se e abra-la, mas se conteve. Sem saber como expressar sua alegria, o rapaz tomou a mo dela, segurando-a entre as suas, e ali, com 
extremo carinho, depositou um terno e delicado beijo orvalhado de lgrimas.
- Obrigado. Juliana sentiu nesse instante uma felicidade imensa, como se tivesse tirado de seus ombros um peso enorme. Sentia-se leve, cheia de paz e de harmonia. 
Intuitivamente, tinha certeza de que, com aquele gesto de perdo, um grande problema fora resolvido.
Na espiritualidade, ns, os amigos que acompanhvamos o desenrolar da cena, tambm nos regozijvamos pelo feliz desfecho. O caso no estava resolvido, muitas coisas 
ainda iriam acontecer, e a soluo dependeria da boa vontade e do desejo de acertar das partes envolvidas. Juliana tinha razo. Um srio desentendimento de vida 
anterior estava caminhando para uma soluo satisfatria. Cerca de 300 anos antes, quatro pessoas envolveram-se em srio compromisso, ficando responsveis perante 
a lei divina. Esse drama relato de forma resumida:
Lvia, de 14 anos, menina boa e prendada, estava apaixonada por Pietro, um rapaz do vilarejo onde moravam, na Itlia. Todavia, Berta, amiga de Lvia, morria de cime 
e inveja, pois amava o mesmo rapaz e no se conformava por ter sido preterida. Envolvendo-se em vibraes negativas, cultivando revolta e dio, planejou um crime 
contra Lvia. Convenceu Guido, um amigo seu, a ajud-la. Rapaz sem escrpulos e havia anos interessado em Lvia, Berta sabia que Guido aceitaria de bom grado participar 
da trama. Assim, combinaram que Guido prepararia uma armadilha para Lvia, levando-a para um lugar isolado e onde se incumbiria de desonr-la, para que a jovem ficasse 
em suas mos, o que foi feito conforme o planejado. Naquela poca, esse fato equivalia  mais completa desonra, passando a moa a ser desprezada por toda a sociedade, 
caso o homem responsvel no se casasse com ela. Quando Pietro ficou sabendo do que tinha acontecido, rompeu o noivado com Lvia, que, ao contrrio do que Guido 
esperava, jamais o aceitou. Apesar de repudiada pela famlia e pela sociedade, ela manteve-se firme; uma senhora muito idosa que morava num casebre no meio do mato 
abrigou e ajudou Lvia at o nascimento do beb. Alguns meses depois, mais fortalecida, a jovem me preferiu desaparecer da regio com seu filho, passando o resto 
da vida solitria sem nunca ter se casado. Ningum mais soube dela. Aps longo tempo e vrias experincias reencarnatrias, j em outro nvel de progresso, o pequeno 
grupo teve a oportunidade de voltar, renascendo para o reajuste necessrio. Berta, a amiga autora intelectual do crime, era Juliana; Pietro retornou como Luciano; 
Guido, em outro nvel evolutivo e desejoso de reparar o mal praticado outrora, como Francisco. E a doce Lvia, to sofredora, viria para os braos daquela que a 
prejudicara no passado e que agora seria mezinha dedicada, e teria por pai aquele que a tinha desonrado e que agora lhe daria tudo o que lhe tinha tirado antes, 
ou seja, uma vida digna. Cresceria sob a assistncia amorosa de Luciano, o antigo noivo Pietro, por quem fora abandonada e de quem era credora. Berta, agora em outro 
nvel de entendimento e evoluo, inconscientemente sabe que "precisa" ter aquela criana, conquanto produto da violncia. Essa a razo que leva Juliana a enfrentar 
a sociedade, os amigos, a famlia, o noivo, para ter sua filha. Intuitivamente, ela sabe a importncia daquela criana em sua vida, e mostra que j havia aprendido 
a valorizar a vida, como bno de Deus. Tudo poderia ter acontecido de maneira mais tranqila, visto que estava previsto que a vida se encarregaria de aproximar 
Juliana, Francisco e Luciano para a necessria reparao. No entanto, a situao se complicou em virtude da vida desregrada e viciosa de Luciano, levando-o a cometer 
uma violncia contra Juliana. Felizmente, a presena de Francisco, que viera para amparar, foi fundamental. Transmitindo, no momento certo, conhecimentos espritas 
para Juliana, ajudou-a na deciso que teria de tomar, perdoando a Luciano. Como podem perceber, mesmo nos mais intrincados relacionamentos, nada acontece por acaso. 
A bondade e misericrdia de Deus nos socorrem em todas as circunstncias, por meio da providncia, e a vida, mediante a Lei de Causa e Efeito, se incumbe de aproximar 
os participantes do drama para o aprendizado e o amadurecimento que se faz imprescindvel, visando  reconciliao dos envolvidos. Certamente, os criminosos tero 
de saldar seus dbitos contrados perante aqueles que prejudicaram e perante a sociedade. No obstante, uma viso mais humana e evanglica deve nortear nosso julgamento: 
qual a criatura que pode se considerar isenta de culpas? Especialmente considerando os conhecimentos que a Doutrina Esprita nos favorece, enfatizando a lei das 
existncias sucessivas, necessrias ao aprendizado e ao progresso do esprito? Pelas inmeras experincias terrenas que j tivemos, no tempo e no espao, construmos 
vivncias boas e ruins, fizemos amizades e desafetos, ajudamos e prejudicamos pessoas. Todo esse acervo, que  conquista nossa, revive no presente, por meio das 
facilidades ou dificuldades que tenhamos de enfrentar, dos sofrimentos, dos obstculos e das rejeies que precisemos suportar. Dentro da prpria famlia, encontramos 
vnculos de amor e dio, sabiamente colocados por Deus ao nosso lado para aprendermos a exercitar o perdo, a compreenso, a tolerncia, a pacincia, e, principalmente, 
o amor. As afinidades e rejeies que surgem em nosso carreiro so apenas oportunidades de aprendizado que o Senhor nos possibilita para refazermos nossos passos, 
desafios de convivncia, que tornaro no futuro os elos mais fortes e duradouros, gerando felicidade, bem-estar e paz da conscincia. Assim, diante dos erros dos 
outros, que nos causam repulsa e horror, vejamos apenas a condio espiritual de irmos nossos que ainda no tiveram a ddiva de aprender o que j sabemos hoje, 
e que, com o tempo, tambm eles se tornaro pessoas boas e teis  sociedade. Pense nisso!

CAPTULO 27 - ESTRANHO COMPORTAMENTO

"Os Espritos influem sobre nossos pensamentos e aes?' "A esse respeito, sua influncia  maior do que podeis imaginar. Muitas vezes so eles que vos dirigem."
(O LIVRO DOS ESPRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTO 459)

Sob profundo desnimo, Manuela sentou-se  mesa apoiando a cabea com as mos. Trazia o corao dilacerado; angstia e tristeza imensa a dominavam. As lgrimas rolavam 
de seus olhos, lavando-lhe o rosto. As lembranas dos ltimos acontecimentos vinham-lhe  memria sem que pudesse evitar. As brigas constantes, os desentendimentos 
sem motivos, o mal-estar que se instalara no lar, antes to harmonioso e pacfico. O ambiente tornara-se insuportvel. Seu filho Rodolfo, ou Rdi, como carinhosamente 
era chamado por todos, antes um bom rapaz, amvel e obediente, modificara-se por completo, tornando-se agressivo, cobrador, exigente. Agora, quando Rdi a olhava, 
Manuela notava algo diferente em sua expresso, um dio estranho em seus olhos. Era como se o filho, de alguma maneira, a julgasse culpada por alguma coisa que ela 
porventura lhe tivesse feito. Mas o qu? Sempre o tratara com amor! Em vo procurava na memria uma palavra, um ato, uma reao sua que pudesse ter gerado essa situao. 
Alis, seu relacionamento com Rdi sempre fora mais de amigo e companheiro que de me e filho. Entendiam-se. Completavam-se. Porm, do jeito que estavam as coisas, 
no sabia o que fazer nem a quem apelar. Sentia-se perdida. De repente, Manuela sentiu um cheiro estranho atingindo seu olfato. O feijo! Levantou-se da cadeira, 
enxugando as lgrimas no avental, enquanto corria at o fogo. Retirou a panela do fogo, irritada. E essa agora! Matias vai chegar para o almoo e o feijo est 
queimado. Vamos ver o que posso fazer. Com presteza, Manuela retirou o feijo da panela e colocou-o numa tigela, tendo o cuidado de no raspar o fundo para no contaminar 
o feijo com o cheiro de queimado. Depois, pegando outra panela, colocou azeite, um pouco de alho e cebola para Carlinhos, deixou fritar e acrescentou os gros cozidos; 
em seguida, despejou um pouco de gua, organo e folhas de louro. Dentro em pouco, um odor agradvel de tempero se espalhava pela cozinha. A urgncia em terminar 
o almoo fez com que se esquecesse de seus problemas. Quando Matias chegou e abriu a porta, respirou fundo exclamando:
- Hum! Que cheiro bom! Ainda bem!, pensou Manuela.
Enquanto Matias se dirigiu ao banheiro para lavar as mos, ela colocou a mesa. A refeio consistia de arroz, feijo, couve refogada, bife e salada. O marido, servindo-se 
de bife, perguntou:
- E Rdi? No vem almoar?
Agora, com tudo pronto para o almoo, mais tranqila, sentou-se. A pergunta do esposo fez com que se lembrasse dos problemas. De cabea baixa, ela continha as lgrimas. 
Um n estrangulava-lhe a garganta e respondeu com dificuldade:
- Talvez no. Saiu bravo, batendo a porta. Nem sei se ele volta para casa.
Matias sorriu de leve, acalmando a esposa:
- Claro que volta, querida. Para onde ele ir? Brigas so normais em famlia! Logo estar aqui lhe pedindo desculpas. No se preocupe.
Manuela no respondeu. Na verdade, Matias no tinha noo de como estavam as coisas. Ele no sentia o rancor do filho, seus olhares carregados de mgoa e ressentimento 
eram dirigidos particularmente a ela. Mas mgoa de qu, meu Deus? No fazia sentido. Mudanas no acontecem de repente, e era o que tinha ocorrido com ele. O que 
fazer? A quem procurar? Se fosse problema de sade, procuraria um mdico; se problema mental, um psiquiatra...  Manuela parou com o garfo no ar. Uma idia surgiu 
em sua mente. Sim! Por que no? Virou-se para Matias, perguntando:
- O que voc acha de nosso filho fazer uma terapia?
- Terapia? Com quem? Um psiclogo?
- Sim. Por que no?
- Rdi  normal, Manuela. No est doido. No precisa de psiclogo nem de psiquiatra. Nosso filho est bem! Vai  escola, estuda, passeia, pratica esportes, namora... 
O que h de errado com ele? Alm disso - e a falou o seu lado prtico -, essas coisas custam caro e no podemos pagar. 
Manuela respirou fundo. Deveria ter imaginado que Matias no aceitaria nunca sua sugesto. Tinha cabea dura e para ele problema emocional era  "frescura", coisa 
de quem no tem o que fazer. Acabou de comer calada. Depois, tirou os pratos da mesa e arrumou a cozinha, sem dizer uma palavra. Matias despediu-se, saindo para 
trabalhar, e ela ficou sentada, pensando. No que no tivesse o que fazer. Ao contrrio. Era costureira e tinha uma montanha de tecidos para cortar e costurar, porm 
no tinha nimo nem vontade de nada, muito menos para confeccionar roupas. Era como se suas foras estivessem se esvaindo. Sentou-se na sala e ligou a televiso. 
Assistiu ao jornal e acabou cochilando. Acordou com a sensao de que havia mais algum em casa. Deve ser o Rdi. Foi at a cozinha e encontrou o filho com a porta 
da geladeira aberta, tomando gua no gargalo da garrafa. Ia corrigi-lo, porm achou melhor ficar calada. O rapaz olhou a me e, sem dizer palavra, pegou a embalagem 
de leite, o po, um pote com gelia de laranja e colocou na mesa. Depois, sentou-se e comeou a comer. Havia tal rusticidade nas atitudes dele, uma grosseria to 
grande nos gestos, que Manuela ficou horrorizada. Rdi era alto, rosto bem-feito, olhos escuros e cabelos ondulados; seu sorriso cativante conquistava as garotas. 
Uma sensao de orgulho materno a envolveu. Meu filho  lindo! De relance, Rdi olhou para a me, que continuava parada na porta.
- O que foi, nunca viu? - perguntou, irritado.
- Calma, meu filho. No quero brigar com voc. Como foi na escola hoje? - disposta a no responder  provocao, ela acalmou-o com voz serena, tentando entabular 
um dilogo.
- Uma droga. No vou mais  escola.
- Por que, meu filho? Voc sempre gostou de estudar, dos seus amigos, dos professores.
O que houve?
- Tudo isso  culpa sua, maldita. Detesto voc. Tudo o que estou passando  por sua culpa - acusou-a com voz grossa e de tonalidade rouca.
- Meu filho!... O que  isso? Como pode falar assim com sua me? - reagiu, indignada.
- Cale-se. No fale comigo. No sou seu filho. Nunca mais me chame de filho. Voc vai ter de pagar por tudo o que me fez. Entendeu?
Ele levantou-se, dirigindo-se com passos duros e pesados para a porta da rua. Manuela foi atrs dele, suplicando:
- Meu filho, volte. Vamos conversar. O que  que eu fiz? Por favor, Rdi, volte. No me deixe assim sem uma explicao. 
Tudo intil, porm. Rdi j tinha sado batendo a porta com violncia. Manuela jogou-se no sof desesperada, em prantos. Quando o esposo voltou para casa, encontrou 
Manuela de olhos vermelhos, rosto inchado, ainda chorando. Ela contou o que tinha acontecido entre eles, as palavras incompreensveis que ele dissera, falou sobre 
os hbitos estranhos dele, suas maneiras grosseiras.
- Querida, no est exagerando? Alm disso, tomar gua e leite no gargalo  comum na adolescncia! - considerou ele, tentando contemporizar.
- No para nosso filho, Matias. No foi essa a educao que lhe demos. Alm disso, Rdi nunca agiu assim antes. Voc o defende porque no viu como ele me tratou. 
Acusou-me  de alguma coisa. Disse que vou pagar por tudo o que lhe fiz. Chegou a chamar-me de maldita! No entendi nada. Ah, tambm disse que detesta a escola e 
no ia mais s aulas. Voc acredita numa coisa dessas?
Matias sorriu, conciliador.
- Talvez voc no tenha entendido direito, querida. Quem sabe voc esteja com uma viso distorcida da realidade? Tenha mais pacincia com ele. Talvez Rdi tenha 
tido um dia ruim e sinta-se irritado. S isso.
- Viso distorcida da realidade? Voc quer dizer o qu com isso? Que estou ficando louca? Ou que no estou escutando direito? A culpa, ento,  minha? - reclamou 
ela surpresa e indignada com a reao do marido.
Matias colocou-lhe a mo na cabea, acariciando-lhe os cabelos, conciliador:
- Talvez eu tenha me expressado mal. Vamos, no se aflija sem motivo, Manuela. Nosso filho sempre foi um bom menino. Olhe, prometo-lhe que vou conversar com ele 
assim que surgir a ocasio.
- Promete?
- Prometo. Acho que est estressada. Fique tranqila e no trabalhe tanto. Relaxe.
Estressada, eu? Agora a culpa  minha? Essa  boa!
Quando Rdi chegou, tarde da noite, o pai estava acordado esperando para falar com ele.
Conversaram. Matias achou o filho normal, como sempre.
- Meu filho, sua me disse que voc a destratou hoje.
- No, pai, no foi nada disso. O senhor sabe como a mame , fica cobrando, reclamando, e tem horas que no agento.
- Eu sei, filho, mas tenha pacincia com ela. Evite discusses.
- Mas no discuti com a mame, pai! - retrucou o rapaz, inconformado.
- Est bem, meu filho. Eu entendo. Mas evite brigas. Agora, vamos dormir que j  tarde.
Despediram-se e Matias foi para seu quarto. Manuela, que aguardava acordada, quis saber:
- E da? Falou com ele? Como foi a conversa?
- Foi boa. Ele prometeu que vai tomar jeito. Agora, durma. Deve estar cansada.
Desse dia em diante, as coisas se complicaram. As brigas se tornaram mais freqentes, os desentendimentos mais srios. Rdi a cada dia mostrava-se mais grosseiro 
e agressivo. Geralmente, na presena do pai, comportava-se bem. Era a me ficar sozinha e ele se transformava. Manuela parou de reclamar para o marido, vendo que 
ele no lhe dava crdito. Talvez at a julgasse louca pelo modo como a olhava em determinados momentos. Manuela estava cada vez mais desesperada. Perdida, sem saber 
o que fazer ou a quem recorrer, sentia-se escorregando para um abismo fundo e amedrontador, que a estava engolindo, sem que pudesse reagir.


CAPTULO 28 - VISITA OPORTUNA

"Seja o que for que peais na prece, crede que o obtereis e concedido vos ser o que pedirdes."  JESUS (MARCOS, 11: 24)

Dois meses se passaram. Certa ocasio, Manuela estava sozinha em casa e chorava na sala, sem saber o que fazer, inconformada com as atitudes do filho, cada dia pior. 
Nisso, ouve a campainha da porta. Uma vez, duas vezes. Na terceira vez, como a pessoa no desistisse, enxugou os olhos e foi atender.
- Ol, Manuela, boa tarde! Cheguei em momento errado?
- No, Terezinha. Entre, por favor. Como vai? Desculpe a demora em atender.
A recm-chegada entrou sorridente.
- Tudo bem por aqui?
- Tudo bem. Voc veio experimentar seu vestido? - perguntou Manuela, tentando disfarar seu estado de esprito.
- Isso mesmo. Tinha esquecido e somente hoje me lembrei.
- Est pronto para a prova. Vamos at minha sala. Acompanhando a dona da casa, Terezinha sentia-se preocupada.
Ao chegar, quando Manuela abriu a porta, imediatamente notou que ela estivera chorando. O rosto inchado e os olhos vermelhos eram vestgios difceis de ser ignorados. 
De temperamento afvel, naturalmente alegre e bem-disposta, nesse dia achou-a triste e melanclica. Experimentando a roupa, observava Manuela que se controlava com 
dificuldade, parecendo prestes a cair no choro. Com delicadeza, Terezinha indagou:
- Desculpe se sou indiscreta, Manuela. Mas est acontecendo algo? Voc no me parece bem...
Manuela, que, naquele momento, marcava a altura da barra da saia com alfinetes, confessou:
- Estou passando por alguns problemas difceis, Terezinha.  to evidente assim?
- Talvez no para outras pessoas, minha amiga, mas como a conheo de longa data, no pude deixar de perceber. Voc sempre foi alegre, risonha, dinmica. Notei-a 
o oposto de tudo isso: est triste, sria e parece cansada, sem disposio.
- Pois  exatamente como me sinto. Um trapo.
- No foi isso o que eu quis dizer - explicou Terezinha, sorrindo.
- Mas  a pura verdade. Voc no imagina como tenho sofrido. Depois, voltando a uma atitude mais profissional, Manuela perguntou:
- Est bom neste comprimento?
- Sim, est perfeito.
Nada mais havendo a observar, Terezinha tirou o vestido. Ambas deixaram a sala de costuras e Manuela levou a amiga para a cozinha e colocou gua no fogo para fazer 
um ch. Enquanto esperava a gua ferver, pegou as xcaras e um pote com biscoitinhos de nata. Depois, coou o ch e sentaram-se para conversar. Respirando fundo, 
Manuela contou  Terezinha o problema que estava passando dentro de casa. A outra ouviu com interesse, sem interromper. Depois de desabafar, Manuela concluiu, afirmando 
em lgrimas:
- Eu precisava mesmo falar com algum, colocar para fora tudo o que tem acontecido durante esses ltimos meses e que tenho guardado dentro de mim. O pior, Terezinha, 
 que esse estado de coisas est me deixando doente. Tenho dores no corpo inteiro, sem explicao. Nunca tive problemas de sade, nem gripe pego!
Terezinha pensou um pouco e considerou:
- No sei se voc acredita no que lhe vou dizer, Manuela. Porm, j lhe passou pela cabea que pode ser um problema espiritual?
- Como assim? - indagou a outra, surpresa.
- Bem... voc mesma disse que seu filho parece outra pessoa. No  verdade?- Sim. Fala e coisas que eu teria feito e de que no me lembro. Sua conduta, suas maneiras, 
sua voz, tudo est diferente nele. De outras vezes, especialmente com o pai, parece o mesmo de sempre. Estou a ponto de enlouquecer! Acho at que Matias julga que 
estou louca.
- Pois . E se no for realmente ele?
- Explique-se melhor, Terezinha. No entendi.
- E se quem estiver fazendo cobranas a voc no for realmente seu filho?
- A, eu enlouqueo de vez - respondeu, arregalando os olhos.
Terezinha acomodou-se melhor na cadeira e, pensando um pouco, explicou:
- Manuela, ns somos amigas h anos e nunca falamos sobre religio, porm eu sou esprita.
Diante da expresso assustada da dona da casa, ela esclareceu:
- O Espiritismo  uma Doutrina codificada por Allan Kardec, um pedagogo francs do sculo 19. No se trata de uma seita afro-brasileira, Umbanda ou Candombl. Vou 
explicar-lhe direitinho.
Terezinha falou dos postulados da Doutrina, da imortalidade da alma e da meta que  a evoluo; falou da comunicabilidade entre os dois mundos e sobre as vidas sucessivas, 
como uma conseqncia lgica da imortalidade e do progresso. Afirmou tambm que, nessas mltiplas existncias, fazemos o bem e o mal, adquirindo com nossas atitudes 
afetos e desafetos. Aqueles que nos querem bem procuram nos auxiliar, secundando-nos na vida e tornando-se anjos da guarda, espritos protetores, amigos espirituais, 
benfeitores enfim. Aqueles a quem fizemos mal e que, portanto, no gostam de ns, tentam nos prejudicar, vingando-se, para que soframos o que os fizemos sofrer. 
A essa altura, Manuela que ouvia calada e cada vez mais interessada, sugeriu:
- Voc quer dizer que junto de Rdi pode ter algum que j morreu e que  um inimigo meu?
- Exatamente.
Manuela refletiu por alguns instantes, depois disse:
- Faz sentido. Sua teoria explicaria por que ele parece ser outra pessoa e age de modo to estranho, grosseiro mesmo. Supondo-se que isso seja verdade, por que normalmente 
no acontece quando meu marido est perto?
- Porque, provavelmente, Matias tem ascendncia sobre ele. Ademais, o problema dele  com voc, no com seu marido, segundo o que me contou.
- Tem razo. 
Manuela estava surpresa e maravilhada. Terezinha lhe apresentara coisas de que nunca tinha ouvido falar antes. Era um novo mundo de idias e conhecimentos que se 
abriam  sua frente. Verdade ou no, explicaria muitas coisas. Manuela refletiu um pouco, depois perguntou interessada:
- Terezinha, tudo o que voc me disse tem lgica. Ento, se tudo isso for verdade, o mais importante para mim no momento  saber como posso resolver esse problema.
Com delicadeza e seriedade Terezinha explicou:
- Manuela, em primeiro lugar,  importante voc entender que, quem estiver ao lado de seu filho, seja quem for,  um irmo nosso que precisa de ajuda. E algum que 
foi prejudicado no passado e que agora deseja se vingar de voc. No  um estranho, geralmente. E algum muito ligado  sua vida e que se considera seu credor.
- Faz sentido - murmurou Manuela. - Meu filho, ou seja quem for, sempre diz que vou pagar por tudo o que o fiz sofrer. 
- Exatamente.  algum que, muitas vezes, foi da nossa famlia e que tramos, prejudicamos, roubamos, destrumos a existncia, e muito mais. Quem sabe o que j fizemos?
- Ento, para que voc e seu filho sejam ajudados  imprescindvel socorrer o desencarnado antes. Caso contrrio, ele continuar em seu processo de vingana.
- Entendo. E como se faz isso? Isto , como ajudar essa alma penada?
Terezinha sorriu ao v-la se utilizar de uma expresso corrente no vulgo.
- Essa "alma penada" como voc diz,  um esprito como ns; a nica diferena  que j deixou o corpo material que usava quando aqui na Terra. Para ajudar, se faz 
preciso, em primeiro lugar, manter o pensamento elevado. Voc tem uma religio? Costuma orar?
- Sou catlica por tradio, mas raramente assisto missa ou vou  igreja rezar. Mesmo porque no tenho tempo.
- Tempo  algo que se arruma quando se quer, Manuela. Para orar no  preciso gastar muito tempo, poucos minutos bastam. Alm disso, voc pode orar em casa mesmo, 
varrendo, costurando, cozinhando. Se seu pensamento estiver elevado, sua prece  vlida esteja voc onde estiver, independente do que est fazendo. O que importa 
 a inteno. Tambm seria importante - isto , se voc concordar - fazermos uma reunio, aqui em sua casa, que chamamos de Evangelho no Lar. Essa providncia ir 
ajud-la bastante.
- Sem problemas. E quando podemos fazer isso?
- Vamos estudar um dia da semana e um horrio que no atrapalhe outras obrigaes j estabelecidas. Disponho ainda de algum tempo e, se voc quiser, agora mesmo 
podemos orar em conjunto.- timo! J me sinto mais esperanosa.
Terezinha pediu licena e foi at o carro buscar O Evangelho Segundo o Espiritismo. Retornando, ela solicitou  dona da casa que trouxesse uma jarra com gua pura 
e dois copos. Em seguida sentaram-se em torno da mesa da cozinha para orar. Terezinha pediu que Manuela abrisse o livro ao acaso. A pgina mostrava a abertura do 
captulo 6, cujo ttulo  "O Cristo Consolador", e a pgina, "O jugo leve". Manuela leu o texto deixando que aquelas palavras impregnassem seu ntimo. "Vinde a mim, 
vs todos os que andais  em sofrimento e achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vs o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de corao, 
e achareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo  suave e o meu fardo  leve. (Mateus, 11:28 a 30)" Ao terminar de ler todo o texto, Manuela sentia-se 
mais leve e tranqila. As palavras de Jesus eram confortadoras e davam-lhe esperana, confiana e paz. Terezinha teceu alguns comentrios sobre a vida futura, a 
que Jesus se refere no texto, e, em seguida, fez uma prece de agradecimento, suplicando ao Mestre que amparasse a famlia, especialmente o jovem Rdi e os desencarnados 
que porventura estivessem junto com ele, e impregnasse toda a casa com eflvios balsmicos e renovadores. Ao terminarem esse primeiro Evangelho no lar, Manuela sentia-se 
outra. Estava maravilhada. Um bem-estar enorme inundava-lhe o ntimo fazendo-a ver as coisas com muito mais clareza e serenidade. Agradeceu  Terezinha o auxlio 
que lhe dera naquela tarde, perguntando:
- O que mais posso fazer para que a situao melhore?
- Essa sua disposio, Manuela, j  de grande ajuda. Procure manter o ambiente da sua casa sempre saudvel, pela elevao mental. Conservar o otimismo, o bom nimo 
e a confiana em Deus, pois representam cuidados bsicos para que todos possam sentir-se bem dentro de casa. Quando seu filho estiver para chegar, ou quando se lembrar 
dele durante o dia, faa uma prece, mesmo rpida, pedindo a Deus que o abenoe.
- S isso?
- Por enquanto, s. Deixarei este livro com voc para que o leia sempre que tiver vontade ou quando no estiver bem. Depois, voltaremos a conversar.
Terezinha saiu, deixando a amiga com outra disposio. Ainda teria outras importantes informaes para passar-lhe, porm preferia dar tempo para que Manuela assimilasse 
tudo o que ouvira naquele dia. A teraputica esprita teria de ser aplicada para um melhor resultado, contudo desejava que ela mesma sentisse a necessidade de procurar 
ajuda. Enquanto isso, na reunio da casa esprita que freqentava, iria pedir vibraes a benefcio daquela famlia. No dia seguinte, Manuela telefonou-lhe informando 
que a costura estava pronta. Poderia ir busc-la  tarde. Terezinha entendeu que a outra tinha pressa em conversar com ela novamente e foi logo perguntando:
- Como esto as coisas, Manuela?
- Maravilha! Conversaremos quando vier buscar o vestido. 
Mais tarde Terezinha dirigiu-se  casa da costureira. Ao ver Manuela, que atendeu  porta, notou a mudana que se operara. Fisionomia radiante, ela trazia um largo 
sorriso na face e um brilho nos olhos.
- Minha amiga, seja bem-vinda! No sabe o bem que me fez. Abraou a recm-chegada com imenso carinho.
- Voc mudou minha vida! Nem sei como lhe agradecer! - dizia eufrica.
Terezinha cortou aquelas efuses, serenando-a:
- Calma, Manuela. Primeiro, eu nada fiz. Simplesmente orei com voc. Tudo o que voc possa ter recebido veio do Alto, da ajuda de Deus, de Jesus.
- Sim, mas seja o que for no importa. Voc no acredita! Ontem, quando estava na hora de meu filho chegar, fui para meu quarto e li uma pgina do Evangelho, depois 
fiz uma orao. Ele entrou em casa completamente diferente, voltou a ser o que era. Nem acredito que tudo passou!
Terezinha levou-a para o sof e fez com que ela se sentasse, segurando-lhe as mos entre as suas.
- Manuela, as coisas no so to simples assim.  todo um processo que precisa ser revertido. Ningum muda da noite para o dia. Certamente, o acompanhante de Rdi 
deve ter sido afastado para que seu filho tenha demonstrado essa melhora, porm o processo  longo e difcil. Temos todo um caminho a percorrer. No estranhe, at, 
se Rdi tiver uma reao e ficar pior.  normal nesses casos. Acontece que, ao perceber que esto perdendo terreno, os inimigos desencarnados reagem com nova ofensiva. 
Tudo isso, porm, est previsto e no nos assusta.
- Voc acha mesmo? - indagou Manuela, preocupada.
- Acho. Ento, voc precisa se fortalecer, estudando o Espiritismo para entender o que est acontecendo aqui dentro da sua casa e com seu filho, se quiser realmente 
ajud-lo.
- Estou disposta a tudo. O que devo fazer? Percebendo-lhe a firmeza, Terezinha prosseguiu:
- Muito bem. Ento, temos que agir. Venha comigo ao centro esprita. Aos sbados temos uma reunio com palestra, sempre de contedo evanglico e, depois, so aplicados 
passes. Voc vai gostar; alm disso, ter ocasio de ver como trabalhamos.
- Existem outras reunies?
- Sim. Temos todos os dias ocupados com cursos, reunies medinicas e assistncia social.
Combinaram que, no sbado, meia hora antes do horrio marcado para incio das atividades, Terezinha passaria na casa de Manuela para irem juntas  reunio. Manuela 
sentiu-se muito bem na casa esprita. Gostou bastante da palestra, cujo tema enfocou os relacionamentos familiares, o que parecia que lhe fora particularmente endereado. 
Especialmente, guardou o que o palestrante tinha afirmado: o melhor antdoto para qualquer problema  o amor. Logo aps o passe, a reunio foi encerrada. Manuela 
experimentava um bem-estar que havia muito no sentia. Notava-se mais fortalecida, confiante e desejosa de trabalhar a benefcio de todos. Uma nova esperana inundava 
seu ntimo de felicidade e paz. 


CAPTULO 29 - TUDO SE ENCAIXA

"O sono  o repouso do corpo; o Esprito, porm, no tem necessidade de repouso. Enquanto os nossos sentidos fsicos esto adormecidos, a alma se liberta em parte 
da matria e assume o domnio de suas capacidades espirituais. O sono foi dado ao homem para a reposio das foras orgnicas e das foras morais. Enquanto o corpo 
recupera as energias que perdeu pela atividade no dia anterior, o Esprito vai fortalecer-se entre outros Espritos. As idias que encontra ao despertar, em forma 
de intuio, ele as obtm do que v, do que ouve e dos conselhos que lhe so dados. Equivale ao retorno temporrio do exilado  sua verdadeira ptria, como um prisioneiro 
momentaneamente libertado." 
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 28, ITEM 38)

Naquela noite, Manuela foi deitar pensativa. Por tudo o que j lera sobre Doutrina Esprita, que no era muito, juntando com o que Terezinha lhe explicara e acrescentando 
ainda a palestra que ouvira na casa esprita, podia ter uma noo mais clara da situao. Terezinha afirmou que os espritos continuam nos vendo e pensando como 
ramos no passado. Ento, se prejudiquei algum, certamente esse algum estar com raiva de mim. E com toda razo. Jesus ensina que devemos nos colocar no lugar 
do outro, e, em caso de dvida,  o que sempre fao. Ento, se eu, Manuela, estivesse no lugar do desencarnado, como estaria? Com certeza, com o mesmo dio que ele 
demonstra agora, tentando fazer justia. Refletindo sobre o assunto, Manuela decidiu que, se o caminho era o amor, desse dia em diante ela procuraria mudar. Faria 
oraes pelo desafeto desencarnado sempre que se lembrasse dele, e, ao encontrar-se com Rdi, procuraria demonstrar amor, exatamente o que no conseguia fazer desde 
que tudo tinha comeado. Como Rdi estivesse sempre com uma pedra na mo, disposto a atac-la, agredi-la com palavras, acusando-a de alguma coisa, ela se afastara 
dele at por temer os encontros - sempre extremamente difceis -, que a deixavam aflita e angustiada. Assim, no dia seguinte, quando o filho se levantou, Manuela 
muniu-se de coragem para enfrentar a rejeio que ele sentia. Aproximou-se como se nada estivesse acontecendo, envolveu-o com olhar carinhoso e perguntou, afvel:
- Bom dia, meu filho. Dormiu bem?
- Pessimamente - grunhiu ele, mal-humorado.
Ela acercou-se dele e, antes que Rdi pudesse impedir, abraou-o, afirmando:
- Voc vai ficar bem, meu filho. Deus vai ajud-lo e voc ter um bom dia. Vamos tomar caf?
Surpreso, ele no conseguiu reagir. Ficou calado. Colocou um pouco de leite numa caneca, que bebeu de um gole, e saiu mastigando um bocado de po, a caminho da escola. 
Era a primeira tentativa de aproximao. Manuela, esperanosa, notou que ele, diante do comportamento dela, ficara sem ao. Pelo menos, no a agredira verbalmente, 
o que j era um avano. Dali por diante, mais animada, passou a agir diferente, trabalhando naquilo que denominava sua "campanha de desarmamento". Perto do horrio 
de Rdi voltar, Manuela orou a Jesus, elevando o pensamento em splicas ao Mestre para que o filho chegasse bem, ao mesmo tempo que o envolvia com ternura. Lembrava-se 
tambm do desafeto desencarnado, mentalmente pedindo-lhe perdo pelos males que lhe causara e dispondo-se a ajud-lo no que fosse possvel. Apesar dos seus esforos, 
nos momentos que Rdi entrava em crise e soltava uma enxurrada de acusaes, com os olhos a lanar chamas odientas, Manuela procurava vencer a rejeio. Aproximava-se 
dele cheia de coragem e determinao, abraava-o com amor, afirmando em lgrimas:
- Perdoe-me. Ignoro o que lhe fiz, mas sei que o magoei muito. Perdoe-me. Quero ajud-lo. Acredite em mim, aceite minha boa vontade e meu carinho. Manuela sabia 
que estava falando com o desencarnado e procurava envolv-lo com amor, o que o deixava sem defesa. A entidade comeava a chorar e se afastava. Ento, Rdi voltava 
a si dizendo:
- O que est acontecendo aqui, mame? Parece que andei chorando. Tem horas que no sei o que fao.
- Est tudo bem, meu filho. Est tudo bem.
- Sinto-me to estranho s vezes! No sei o que est havendo comigo. Mame, acreditaria se lhe dissesse que tem hora que parece que sou outra pessoa? Nesses momentos, 
fico muito mal.
Manuela acariciou os cabelos do filho, enquanto lhe dizia:
- Acredito, meu filho. Talvez voc esteja precisando de ajuda. Quer me acompanhar a uma reunio esprita? Tenho participado algumas vezes e asseguro que voc vai 
gostar e lhe far muito bem.
Rdi aceitou, embora com reservas. Nada conhecia sobre Espiritismo, todavia, intimamente, sabia que estava precisando de ajuda, o que deixou Manuela surpresa e animada. 
A situao comeou a melhorar, porm Manuela ainda sentia, algumas vezes, rejeio nas atitudes do filho, conquanto de forma bem menos acentuada. Certa noite, alguns 
meses depois, Manuela deitou-se e demorou a dormir, pensando em seu filho e no esprito to necessitado de socorro. De repente, se viu num lugar desconhecido. Era 
uma sala ampla e bonita, onde estavam vrias pessoas, inclusive seu filho e seu marido. Cogitava que reunio seria aquela, quando viu algum se aproximar. Era um 
senhor alto, de cabelos brancos e idade indefinvel; simptico, tinha sorriso terno e olhos expressivos. Manuela nunca o tinha visto, e, todavia, experimentou ntima 
certeza de que j o conhecia de longa data. Acercando-se dela, ele falou, com uma voz firme e serena, que ela tentou encontrar nos refolhos da memria onde j a 
teria ouvido:
- Minha filha, existe um momento que  crucial em nossa existncia. O momento de assumirmos a responsabilidade pelos atos praticados e tentar repar-los, socorrendo 
aqueles que prejudicamos no passado.
Aquela voz doce e, ao mesmo tempo enrgica, fazia Manuela sentir uma alegria enorme por estar a seu lado, como se por longo tempo tivesse sido privada desse prazer. 
Agora, dando um passo para o lado, o benfeitor apresentou um homem que ela ainda no tinha notado: extremamente magro, nas faces encovadas havia tristeza e dor; 
trazia os olhos vermelhos e congestos, a cabeleira suja e desgrenhada, as roupas maltrapilhas. Uma figura de causar piedade. Com ternura, o benfeitor aproximou-os 
um do outro e disse:
- Manuela, este  Cirilo, nosso irmozinho que precisa de amparo. S voc pode ajud-lo.
Ao ouvir essas palavras, Manuela entendeu. Ao fitar o infeliz que ali estava  sua frente, viu a mesma expresso que havia no olhar de Rdi quando a fitava. Entendeu 
que era ele, Cirilo, o desafeto que a acusava de t-lo feito sofrer.
Diante dele sentia-se culpada, sem saber por qu.
- Perdoe-me, meu irmo - repetiu novamente, levada por incoercvel impulso, como tantas vezes o fizera.
Incentivado gentilmente pelo orientador, o desconhecido que ali estava fitou-a e disse, com alguma dificuldade:
- Tenho... ouvido suas preces... e... seus... pedidos de perdo. Acredito que esteja... sendo sincera. Sua atitude... me tem... comovido bastante. Resolvi... aceitar 
sua vontade... de reparar o passado.
Aquela voz vinha l do pretrito, revolvendo em seu peito emoes adormecidas. 
- Sim, meu irmo. Sou sincera em minhas intenes. Acredite-me. O que posso fazer por voc?
Cirilo tentou falar, mas no conseguiu. Seu olhar era um pedido de socorro, porm, inclinou a cabea e ps-se a chorar. Euclides, o generoso benfeitor envolveu-o 
com os braos, aconchegando-o ao corao, e explicou:
- Cirilo precisa tomar um novo corpo, Manuela. Dentro de sua famlia ele encontrar o ambiente adequado para refazer a vida, quando poder estar sob sua responsabilidade 
e amparo, para ser educado e protegido com amor.
Manuela experimentava imenso jbilo ante a idia de receber algum em seu lar. Todavia considerou, desapontada:
- Bondoso amigo, teria enorme satisfao em aconchegar Cirilo em meus braos como filho, todavia minhas condies orgnicas no o permitem. No posso mais ser me.
Euclides sorriu como se estivesse ciente desse fato, e esclareceu:
- No se preocupe, Manuela. Ele voltar a seus braos, minha irm, como neto do corao. Ser filho de Rodolfo.
O benfeitor fez uma pausa, depois esclareceu, vendo a expresso de surpresa de sua interlocutora:
- Esses planos s sero executados daqui a alguns anos. Enquanto isso, o nosso Rodolfo ter ocasio de amadurecer para a vida, e, Cirilo, de se preparar convenientemente 
para essa nova empreitada.
Manuela experimentava grande alegria. Vendo aquele ser que ali estava defronte dela, de cabea baixa, humilhado pela sua condio, experimentou imensa compaixo. 
Com espontaneidade, aproximou-se de Cirilo e abraou-o com amor. Depois, fitando Rdi e seu marido que estavam mais distantes a palestrar com outras pessoas, alheios, 
como se no soubessem exatamente a importncia do que estava acontecendo, indagou vertendo lgrimas:
- Rdi j sabe?
- Ainda no foi consultado, porm no encontraremos dificuldade em conseguir sua aprovao. Entre o planejamento reencarnatrio de Cirilo e a sua preparao, teremos 
alguns anos, como j expliquei. Tenho certeza de que Rodolfo no se recusar a prestar ajuda a nosso irmo Cirilo, mesmo porque eles tm grandes afinidades entre 
si.
Sem que Manuela precisasse exteriorizar seu desejo de conhecer o passado, o benfeitor espiritual se antecipou:
- Em reencarnao pretrita, ambos foram suas vtimas, Manuela, o que explica a afinidade e a empatia que sentem um pelo outro, e foi exatamente essa ligao que 
possibilitou a ao de Cirilo atravs de Rodolfo, naturalmente facilitada pela sensibilidade medinica que seu filho possui. No fundo, ambos pensam da mesma forma. 
No entanto, na poca, Rodolfo, menos rebelde e em melhores condies espirituais, aceitou o socorro que lhe era oferecido e renasceu em seu lar, ao contrrio de 
Cirilo, que se recusou terminantemente a perdoar e a mudar de vida.
Manuela comeava agora a entender a mecnica celestial, percebendo a bondade e a justia de Deus em tudo. Com os olhos midos, comentou emocionada:
- Bem dizem que no existe o acaso.
- Sim, minha irm. Tudo tem sua razo de ser, mesmo aquilo que nos parece estranho e sem propsito. No fundo, tudo se encaixa perfeitamente, quando analisamos o 
passado e conhecemos todos os fatos.
Manuela ficou pensativa por alguns minutos, depois perguntou:
- E agora, meu irmo, o que preciso fazer? Como devo agir?
- Necessrio sedimentar o interesse de Rodolfo pelas coisas do esprito. No deixe de lev-lo  casa esprita. Ele possui uma faculdade que precisa ser estudada 
e trabalhada para, futuramente, prestar socorro a outras pessoas. Ao mesmo tempo, continue orando por Cirilo que, ainda muito frgil e indefeso, ensaia uma nova 
vida e precisa de sustentao nas diretrizes que estabeleceu para o futuro. Nosso irmozinho, aps recuperar-se na espiritualidade, preparando-se e reeducando-se 
 luz do Evangelho do Cristo, voltar para junto de vocs, onde permanecer algum tempo, fazendo as ligaes vibratrias com a famlia, em virtude da futura encarnao. 
Todavia, no tema. Dessa vez a presena dele no ser mais para perturbar e influenciar de forma negativa. Ser para ajudar. Manuela experimentava indizvel bem-estar 
e uma alegria contagiante. O futuro delineava-se de maneira promissora. Fiel aos costumes ancestrais, fitou aquele ser iluminado que ali estava e ajoelhou-se, tomando-lhe 
a mo e fazendo meno de depositar ali um beijo. Percebendo-lhe a inteno, o amigo espiritual levantou-a, colocando-a de p.
- Minha irm, no me creia um ser especial. Sou apenas Euclides, algum que lhe quer muito bem e que tem acompanhado seus passos em diversas pocas. Somos velhos 
conhecidos e espritos ligados por laos de profunda simpatia.
Abraou-a longamente, transmitindo-lhe energias fortalecedoras e benficas. Ao afrouxar os braos, Manuela inclinou-se diante dele, afirmando:
- Deixe-me pelo menos pedir sua bno como o faria a um pai. Tomando-lhe a mo, beijou-a com ternura, enquanto as lgrimas banhavam seu rosto.
- Sua bno, meu pai.
- Deus a abenoe, minha filha.
Ns que estvamos ali juntos, percebemos nos olhos dele um brilho intenso e uma luz radiante de emoo. Sentimos, tambm, que nosso benfeitor estava muito mais ligado 
quela famlia do que poderamos supor. Levantando a nobre fronte, ele dirigiu os olhos para o Alto, pondo-se a orar. E ns o acompanhamos, elevando os pensamentos, 
gratos pela oportunidade de servir e de participar de momento to especial. Manuela despertou no corpo fsico com a sensao de que tivera uma reunio de extraordinria 
importncia para sua existncia. Acordou em lgrimas, sentindo ainda repercutir em seus ouvidos a prece que um ser iluminado fizera, mexendo com suas fibras mais 
profundas. Permaneceu a imagem indelevelmente gravada em sua memria: um senhor de beleza serena, rosto afvel e olhos ternos. Ao lembrar do seu sorriso, um misto 
de amor, venerao e saudade inundou-a por dentro. Intimamente, tinha a convico de que o conhecia de longa data. A sensao que a presena dele lhe dava era a 
de um pai. Por mais que tentasse, no conseguia lembrar-se de onde. Como era o nome dele mesmo? Sentada para tomar o caf-da-manh, no conseguia conter as lgrimas.
- Aconteceu alguma coisa, Manuela? - perguntou o marido, preocupado. 
- Tive um sonho lindo, Matias. O melhor que j tive em toda a minha vida.
Rodolfo, que levava a caneca de leite  boca, parou a meio caminho, pensativo por alguns instantes, e comentou em seguida:
- Ouvindo-a falar, mame, lembrei-me de que tambm sonhei esta noite, o que raramente acontece. Estava numa sala clara e grande com vrias pessoas, algumas que no 
conheo. O que me causou estranheza foi ver um maltrapilho naquele lugar elegante, o que me encheu de compaixo.
- Pois eu no me lembro de nada, nunca. Acho que no costumo sonhar. Durmo como uma pedra - resmungou Matias.
Manuela sorriu levemente, sem esclarecer o filho que tinham estado no mesmo lugar, entendendo que as lembranas de Rdi confirmavam o sonho que tivera. Concluiu 
tambm que, cada pessoa guarda o que tem condies de assimilar; e que o esposo, talvez por no aceitar a idia de espiritualidade, permanecia embotado durante a 
noite, sem conseguir liberar-se como esprito para vos mais altos. Durante todo o dia esteve emocionada, envolta em harmonia e bem-estar, sem conseguir esquecer-se 
daquele belo sonho. Sensibilizada, compreendeu que era a misericrdia divina agindo em sua vida. Com o socorro do Alto, tudo mudaria desse dia em diante. Levantou 
o olhar para o cu, onde brilhava um lindo sol, e agradeceu a Deus, sem palavras, a ajuda que recebera.


CAPTULO 30 - EXCURSO DE RESGATE

"Deus quer o progresso de todas as suas criaturas, e  por isso que nenhum desvio do caminho reto fica impune. No h uma s falta, por menor que seja, uma nica 
infrao a sua lei que no tenha forosas e inevitveis conseqncias, mais ou menos lastimveis, e disso conclui-se que, tanto nas pequenas como nas grandes coisas, 
o homem sempre  punido pelo erro que cometeu."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 5)

Entregues s nossas atividades cotidianas no vamos o tempo passar, clere. As tarefas eram muitas, vrios projetos em andamento, o que nos tomava grande parte 
do tempo. O livro, sob a minha responsabilidade, estava bem adiantado e eu no tardaria a termin-lo; assim, ultimvamos os preparativos para o prximo. Tudo isso 
me proporcionava satisfao ntima e agradvel sensao de dever cumprido. Ento, por que, bem l no fundo, havia alguma coisa a me incomodar, como um espinho na 
carne? Era algo pequeno, qual ferida no cicatrizada, que refletia um sentimento inquietante que me pressionava, produzindo certa ansiedade e tenso, que eu no 
conseguia definir. Por que nem tudo era perfeito como eu desejava acreditar que fosse? Todavia, como as bnos que fluam em minha vida fossem muitos maiores, procurava 
no prestar ateno a esse ligeiro incmodo que por vezes me assaltava. Nesse dia, ao trmino de uma reunio no Centro de Estudos da Individualidade, nos separamos 
em grupos e passamos a conversar informal e animadamente sobre os assuntos abordados de mais interesse. No demorou, porm, em virtude do horrio, os participantes 
foram se retirando; muitos retornaram para casa, buscando o repouso necessrio, aps uma jornada de trabalho; outros, apressados para entrar em servio, encaminharam-se 
para os locais onde dariam planto; os demais, que estavam de folga, como no meu caso, tinham tempo para dialogar sem pressa. Em poucos minutos, o salo estava quase 
vazio, permanecendo apenas os falantes inveterados. Henrique, com quem tenho grande afinidade, aps despedir-se de alguns amigos, aproximou-se de mim.
- Quase no temos conversado, Paulo. Mal trocamos algumas palavras, sempre ocupados com a execuo de nossas tarefas.
- E verdade, Henrique, e sinto falta dos nossos longos papos. Trocando idias sobre o aproveitamento da noite, deixamos o salo e samos do prdio, procurando refgio 
num banco do agradvel jardim. Na noite aprazvel, o aroma das flores trazido pela aragem fresca nos envolvia em bem-estar.
- Est tudo bem com voc, Paulo?
- Muito bem. Melhor no poderia estar. Sinto-me em paz comigo mesmo - respondi com meu melhor sorriso.
Henrique balanou a cabea, fitando-me srio e compenetrado.
- A que se dever, ento, esse brilho de inquietao que vejo no fundo de seus olhos?
Henrique me conhece melhor do que eu mesmo! - pensei.
Ele sorriu ante minha surpresa. Levantei a cabea e olhei o cu, onde mirades de estrelas cintilavam. No adiantava fugir de mim mesmo. Melhor encarar a realidade.
- Tambm ignoro, Henrique, o que est acontecendo comigo - confessei em voz baixa. - Alguma coisa dentro de mim no vai bem, mas no consigo detectar o problema. 
E sensao de algo muito pequeno, insignificante, mas que cresce, lentamente, ameaando dominar-me por inteiro.
O amigo deu uma batidinha amigvel em meu ombro, tranquilizando-me:
- No se preocupe, Paulo. Voc sabe, muitas vezes acontece de sentirmos o impacto de pensamentos que nos so enviados da crosta, ou mesmo de desencarnados. Isso 
no  nada. Talvez algo que tenha ficado sem soluo, quem sabe? Voc acabar por descobrir a origem. Pense, reflita, e encontrar a resposta.
Como j era tarde, e no dia seguinte teramos servio logo cedo, nos despedimos. Antes que eu me afastasse, Henrique lembrou:
- No se esquea de que amanha teremos uma atividade socorrista.
- Sim, estou ciente. Boa noite, Henrique.
- Boa noite, Paulo.
No dia seguinte,  hora combinada, nos reunimos em nossa sede para dar seqncia  programao estabelecida. A caravana constitua-se de alguns dos membros da nossa 
equipe de jovens: Marcelo, Eduardo, Irineuzinho, Csar Augusto, Virgnia, Padilha, Melina e eu, alm de Henrique e alguns outros servidores que eu no conhecia. 
Aps a orao em conjunto, suplicando o amparo de Mais Alto para a nossa excurso, nos locomovemos pelo espao rumo a nosso objetivo: certa regio de trevas densas 
prxima da crosta terrestre. Aps algumas horas, atingimos "Luz Bendita", posto de socorro localizado no umbral inferior e mergulhado em nvoas, instituio benemrita 
que nos serviria de base e sustentao para a ao de resgate. Fomos recebidos com imenso carinho pelos irmos da instituio. Silas, o responsvel, abriu os braos 
fraternalmente, sorrindo:
- Ns os espervamos, meus irmos. Sempre gratificante recebermos visitas de esferas mais elevadas.
Henrique nos apresentou ao dirigente Silas, de quem era velho amigo, trocando cumprimentos efusivos. Todos se mostraram extremamente simpticos e acolhedores. Dentro 
em pouco, era como se nos conhecssemos de longa data. Silas e seus assistentes mais diretos, Dario, Rogrio e Vilmo, nos conquistaram o corao. A atividade socorrista 
estava planejada para o dia seguinte. Assim, aproveitamos as horas disponveis para conhecer as instalaes e as diversas atividades que ali se realizavam. Na manh 
seguinte, logo cedo nos pusemos a caminho, assessorados por Dario, profundo conhecedor da regio. Com extrema dificuldade, atingimos um local em que havia algo que 
se poderia chamar - na falta de expresso melhor -, de aldeia. Tudo ali era coberto de lama, inclusive algumas taperas, que se espalhavam pelo terreno encharcado. 
Jamais tnhamos presenciado algo semelhante. Com a experincia de anos de servio naquela regio, em voz baixa, Dario deu uma ordem aos tarefeiros e rapidamente 
algumas maas surgiram. Movimentando-se pelas ruas da aldeia, sabendo exatamente onde procurar, os servidores entravam nas casinholas e traziam as entidades em condies 
de serem socorridas. Ao cabo de uma hora de servio, deram por encerrada a operao. Seis entidades seguiriam conosco. Os infelizes habitantes do lugar, em silncio, 
acompanhavam toda a movimentao, aguardando ansiosamente serem escolhidos. Em seus olhos, as nicas coisas que escapavam  lama geral, notava-se a esperana de 
sair daquele antro de sofrimento. Todavia, ao perceberem que nos dispnhamos a partir, sem lev-los, puseram-se a gritar, suplicando ajuda em pranto comovente. Seus 
brados nos cortavam o corao. Lanando um olhar para o responsvel pela expedio, analisamos a difcil deciso do companheiro, tambm condodos da situao daqueles 
infelizes. Dario, porm, mais experiente, no se deixou convencer, explicando com serenidade:
- Sei o que esto sentindo, meus amigos, ante a situao dessas criaturas. No entanto, no se iludam. Apesar das splicas comoventes, esses irmos no tm condio 
de serem resgatados. So perversos, maus e vingativos. O que fazemos, normalmente,  dar-lhes palavras de consolo e de esperana. A um gesto seu, os padioleiros 
se afastaram com as maas, transportando os irmos que tinham sido socorridos. Dario fez outro gesto, quase imperceptvel, e um dos servidores trouxe uma grande 
rede com uns trs metros de altura e pelo menos trinta de largura, presa por tubos que pareciam de metal que foram fincados no solo, o que permitiu  imensa rede 
ficar estendida a alguns metros  nossa frente, separando-nos e protegendo-nos dos habitantes do lugar, que ameaavam atacar nossa equipe. Depois, acenderam-se luzes, 
visto que a escurido era grande, o que nos permitiu enxergar melhor o mar de lama que tnhamos diante de ns. Em seguida, Dario pediu a Henrique que dirigisse algumas 
palavras aos habitantes do lugar. Nosso orientador adiantou-se alguns passos, aproximando-se da rede magntica, e, depois de concentrar-se por alguns segundos, comeou 
a falar:
- Meus irmos! Que a paz de Jesus esteja com todos! O Cristo legou-nos em sua passagem pela Terra lies de extraordinria importncia e que nos compete lembrar. 
"Vinde a mim, vs todos os que andais em sofrimento e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vs o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde 
de corao, e achareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo  suave e o meu fardo  leve. "
As palavras do Mestre no so expresses vazias de significado. Jesus nos convida a segui-lo, acenando-nos com a felicidade futura. Somos todos ns filhos de Deus, 
Pai Misericordioso que nos ajuda e ampara em qualquer situao. Mesmo quando nos consideramos sozinhos e abandonados, Ele est sempre conosco. Todavia,  necessrio 
fazermos por merecer o amparo divino, realizando a parte que nos compete. Por isso, o Cristo afirma: "Pedi, e se vos dar; buscai, e achareis; batei, e se vos abrir. 
Pois todo que pede, recebe; o que busca, encontra; e a quem bate, a porta lhe ser aberta. Ou qual dentre vs  o homem que, se porventura o filho lhe pedir um po, 
lhe dar pedra? Ou se pedir um peixe, lhe dar uma serpente? Ora, se vs, que sois maus, sabeis dar boas ddivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que est 
nos cus dar boas coisas aos que lhe pedirem?" Henrique fez uma pausa, perpassando o olhar sereno sobre todos os que o ouviam. Ao recomear a falar, o vozerio era 
grande. As primeiras palavras foram saudadas com gritos, palavres obscenos, insultos. Algum mais afoito gritava:
- Cale-se! Fora daqui! No precisamos de vocs. Desapaream! Aqui mandamos ns!
Henrique prosseguiu, porm, e, diante de sua voz serena e de timbre agradvel, mesmo os mais exaltados foram se calando aos poucos, e agora havia o maior silncio. 
Nosso instrutor aproveitando o momento continuou: 
- Meus irmos! A hora da libertao chegar para todos. Imprescindvel, porm, nos despojarmos dos sentimentos inferiores, de dio, de vingana, de mgoa, de ressentimento.
Modificando nossas disposies ntimas, serenando o corao e elevando a mente para Jesus, pela orao, estaremos prontos para uma vida melhor e mais feliz. Por 
ora, meus queridos irmos, permaneam em paz, meditando em tudo o que eu lhes disse e preparando-se para um futuro encontro com os servidores do bem. Que o Mestre 
Jesus, Divino Amigo de todos ns, nos envolva em amor e paz! Por alguns segundos, a multido dos ouvintes ainda permaneceu esttica. Depois, percebendo que nada 
tinha se alterado, que no seriam socorridos, puseram-se novamente a gritar, blasfemando e deblaterando contra Deus, contra Jesus e contra todos ns. Dario mandou 
apagar as luzes, recolher a rede e todo o material de apoio que ali estava, e afastamo-nos sem demora. Com a escurido, o vozerio foi diminuindo at cessar de todo, 
retornando eles para suas taperas. Em ns permanecia uma desagradvel sensao de incapacidade, de impotncia. Era sempre assim que nos sentamos ao terminar uma 
ao de resgate, em que a grande maioria dos irmos sofredores no recebia socorro. Ao nos ver com o semblante desconsolado, Dario animou-nos:
- Sei exatamente o que esto sentindo. Tambm ns, que habitamos estas plagas, nos primeiros tempos no nos conformvamos por no podermos socorrer a todos os irmos 
em sofrimento. No entanto, vocs tiveram a oportunidade de ver como as splicas mais enternecedoras transformam-se em dardo venenoso a expelir emanaes malficas, 
quando no recebem o que pedem.
O assistente de Silas parou de falar por alguns instantes, depois prosseguiu compenetrado:
- Na verdade, so como crianas que no sabem o que  melhor para elas, que querem um brinquedo e se irritam se o pai lhes nega, jogando-se no cho e pondo-se a 
chorar. Por isso, em nossas atividades, todo cuidado  pouco. A responsabilidade do trabalhador do bem  imensa no que tange aos socorros que presta. Devemos entender 
que as conquistas do esprito so lentas, que seu amadurecimento se denota pelas emanaes mentais. Alm disso, aqueles que no foram socorridos hoje podero s-lo 
em uma nova oportunidade, quando de nossas excurses peridicas. Deus  Pai e nenhum de seus filhos est perdido. Ao contrrio, todos atingiro a felicidade um dia. 
Quando terminou de falar, concordamos com ele. Sim, sabamos dessa realidade, visto j termos participado de outras atividades do gnero. Contudo, ainda encontrvamos 
dificuldade de nos afastarmos deixando aqueles irmos infelizes em seu ambiente, mesmo sabendo que no estavam sendo injustiados e que colhiam o que tinham plantado. 
Henrique, que permanecera calado, considerou:
- No devem se envergonhar desse sentimento de impotncia, nem do desejo de ajudar que agasalham no corao. Tudo isso faz parte do nosso crescimento como seres 
que j pensam no prximo e que ensaiam o amor mais amplo, como Jesus ensinou. Devemos, isto sim, temer-nos mantermos insensveis diante dos irmos que sofrem, em 
qualquer lugar que estejam.
Dario concordou com Henrique:
- Sem dvida, meu amigo. O fato de entendermos a impossibilidade de socorrer a todos no significa que estejamos livres de sentimentos mais nobres. Mostra, apenas, 
que confiamos em Deus, e que entendemos que para tudo existe uma ocasio certa.
Conversando, chegamos aos muros do posto de socorro. Conquanto fosse dia, as luzes permaneciam sempre acesas, em virtude da escurido ambiente. Fomos recebidos com 
alegria por Silas, que exaltou o sucesso da excurso de resgate. As seis entidades foram recolhidas, recebendo os primeiros cuidados. Depois de devidamente higienizadas, 
alimentaram-se e foram levadas para uma enfermaria, onde repousariam em leitos limpos e macios, o que no acontecia fazia muito tempo. No dia seguinte, trs prosseguiriam 
conosco com destino  casa esprita, na crosta, onde ficariam  albergados, aguardando a ocasio de serem levados a uma reunio medinica. L teriam a oportunidade 
de se comunicar com os encarnados, atravs de um mdium, dando seqncia  atividade de socorro. No dia seguinte, nos despedimos dos novos amigos de "Luz Bendita", 
em transportes de carinho fraternal. Silas havia nos cedido um veculo fechado para a locomoo das trs entidades necessitadas. Aps despedir-me dos servidores 
de "Luz Bendita" com os quais tivemos mais contato, aproximei-me dos companheiros que aguardavam no ptio, e percebi que as entidades socorridas j estavam dentro 
do veculo. Acenando uma ltima vez para nossos novos amigos, iniciamos a viagem de volta, que transcorreu sem maiores problemas. Ao chegar  crosta planetria, 
nos dirigimos  cidade onde se localiza a casa esprita em que ficariam os trs enfermos espirituais. Deixem-me explicar a situao para que possam entender-me, 
pois no desejo parecer insensvel diante dos leitores com relao s entidades enfermas e necessitadas. A verdade  que, em nossas atividades de socorro aos irmos 
em sofrimento, lidamos com uma infinidade deles, espritos que geralmente no conhecemos, no tendo nenhuma ligao conosco.  raro encontrarmos algum conhecido 
no meio deles. No tive maior contato com esses irmos em virtude de essa tarefa no estar a meu cargo. Sei que ali eles permaneceriam por algum tempo at que estivessem 
em condies de serem levados a uma reunio de desobsesso.


CAPTULO 31 - APRENDENDO A PERDOAR

"Ento Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, at quantas vezes meu irmo pecar contra mim, que eu lhe perdoe? At sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: No te 
digo que at sete vezes, mas at setenta vezes sete."   (MATEUS, 18:21 E 22)

A vida continuava seu curso. Entregue s tarefas sob minha responsabilidade, mantive-me afastado dos irmos que tinham sido socorridos. Alguns dias depois, lembrando-me 
deles, busquei notcias e fui informado de que dois dos espritos resgatados, conduzidos para esclarecimento numa reunio, a seu tempo foram ajudados, recomeando 
uma nova vida plena de esperanas. O terceiro esprito, embora submetido ao mesmo processo, recusava-se a modificar suas idias, atitude imprescindvel para a renovao 
de sentimentos, mostrando-se impermevel  ajuda que lhe ofereciam. Permaneceu mais algum tempo em local adequado s suas condies e, como no demonstrasse desejo 
de melhora, nossos maiores permitiram que seguisse seu curso. Explico-me. Aqui, na espiritualidade, no podemos obrigar ningum a agir contra sua vontade. Tentamos 
ajudar, esclarecer; oferecemos informaes, expomos a realidade. Todavia, no podemos desrespeitar o livre-arbtrio de ningum. Se o esprito, apesar de nossos esforos 
e das condies que lhe so dispensadas, opta por prosseguir em sua vida de erros, nada podemos fazer a no ser entreg-lo a si prprio, deixando que siga seu caminho. 
Mesmo porque a condio vibratria o atrai para os stios onde esto seus interesses maiores, sejam afetos, desafetos, tesouros amoedados, poder de mando e/ou de 
autoridade. Aqui, do outro lado, a densidade vibratria  algo que arrasta irresistivelmente, tanto para mais alto quanto para mais baixo. Informado do fato, lamentei 
o ocorrido, porm estava fora do nosso mbito de ao. Como os necessitados no parassem de chegar, acabei por esquecer-me daquele caso. Algum tempo depois, logo 
pela manh chegamos  casa esprita onde nosso grupo presta colaborao na crosta. Como haveria reunio medinica  noite, conforme programado, nosso dia seria intenso 
e logo comeamos as tarefas de rotina. A equipe da qual fao parte tem a funo especfica de percorrer as residncias de todos os integrantes do grupo encarnado, 
especialmente os mdiuns e doutrinadores, para conferir se est tudo bem, em ordem, e se nenhum deles vai deixar de comparecer  atividade medinica. Caso haja algum 
problema, buscamos a soluo, auxiliando para que a paz se restabelea, seja em virtude de problema material ou espiritual. Apesar dos nossos esforos, nem sempre 
conseguimos realizar nossa tarefa a contento, isto , tendo a presena de todos os companheiros encarnados, em vista das dificuldades e obstculos que fazem parte 
da vida material. Nesse dia, muitas horas depois, quando as sombras da noite desciam sobre a Terra, estando tudo em ordem e as atividades preparatrias encerradas, 
quase no horrio de dar incio  reunio, tive vontade de ver quem eram os irmos candidatos  comunicao medinica naquela noite. Entrei no recinto onde eles eram 
mantidos separados dos demais, assistidos por auxiliares da nossa equipe. Passei os olhos sobre eles, cheio de compaixo. Eram cinco. O primeiro gemia de dor, curvado 
sobre si mesmo, com o abdome aberto e o sangue a escorrer da ferida, um corte longitudinal, evidentemente feito  faca. O segundo e o terceiro, pelas expresses 
zombeteiras e os olhares custicos, pelas vibraes pesadas que exteriorizavam, deixavam visvel a condio de obsessores contumazes, vingadores impenitentes; eram 
estranhos para mim, provavelmente ligados a algum da equipe encarnada ou a pessoas necessitadas, cujos nomes constavam do caderno de preces, por intercesso de 
um amigo ou parente preocupado. Os dois ltimos eram sacerdotes, fato comum em reunies medinicas, em vista das tradicionais e constantes perseguies religiosas 
que atingem o movimento esprita, o que no me causou nenhuma surpresa. Ao fitar um deles, no entanto, algo dentro de mim se agitou. Senti-me dominado por uma sensao 
profundamente desagradvel. Parecia-me conhecer aquele padre. Mas, de onde? Em virtude das nossas diferenas vibratrias, ele no conseguia perceber-me a presena. 
Discretamente observei-o por alguns instantes. Tratava-se de um homem de idade avanada, alto, algo encurvado, e com a barriga saliente dos que se alimentam em profuso; 
cabelos brancos, fisionomia avermelhada e intumescida, caracterstica dos usurios de substncias alcolicas. Na expresso atormentada, os olhos claros, injetados, 
impressionaram-me sobremaneira. Onde j o teria visto? Por mais que rebuscasse na memria, no conseguia localizar onde o teria encontrado. Quedei-me por alguns 
minutos, pensativo e preocupado, tendo em vista o mal-estar que sua presena me causava. De repente, eu me lembrei. Era aquele mesmo sacerdote que conheci na minha 
infncia e que me deixara marcas indelveis por toda a existncia. O sangue subiu-me  cabea sem que pudesse evitar. Afastei-me dali, tentando controlar meus sentimentos, 
e confesso que tive grande dificuldade. Discretamente procurei um recanto mais tranqilo e deixei-me cair numa cadeira. Com a cabea entre as mos, dobrei-me sobre 
mim mesmo entregue a um turbilho de sensaes diferentes e contraditrias, permitindo que lgrimas amargas corressem pelo meu rosto. Sim! Era ele mesmo! No havia 
dvida possvel. Diferente, bem mais velho, porm era ele mesmo. Como e por que aquela criatura estava ali? Nesse momento, senti uma mo pousar sobre minha cabea 
e levantei os olhos nublados de pranto. Era meu amigo Henrique. Fitava-me com afeto e uma profunda piedade. 
- Acalme-se, Paulo. E chegada a hora da verdade para voc, companheiro. Nosso irmo aqui est por misericrdia divina, para receber o socorro de que precisa.
De repente, ao ouvi-lo, me dei conta do absurdo do que pensara. Est claro que, se aquele padre se encontrava ali, na casa esprita, era porque precisava de socorro!
Henrique colocou delicadamente a mo em minhas costas, perguntando:
- Est melhor?
- Sim, Henrique. Abalou-me rever essa criatura depois de tanto tempo. Foi um choque. No estava preparado para esse encontro. Sabia que isso fatalmente iria acontecer, 
mas no esperava que fosse hoje.
- No entanto, meu amigo, voc estava sendo preparado para este momento e j esteve bem perto do seu desafeto em outras ocasies, conquanto no tenha notado. Esse 
religioso, que hoje tanto o impressionou,  um daqueles irmos que foram resgatados nas imediaes de "Luz Bendita", quando de nossa ltima excurso. Percebe que 
a bondade divina laborava para criar as condies necessrias  imprescindvel reaproximao de ambos? A hora  agora, Paulo. Aproveite a oportunidade que se lhe 
oferece, meu amigo.
Com os olhos arregalados de espanto, dei-me conta, tardiamente, da ajuda do Alto a meu favor. Como fora cego! Por que no prestei ateno aos fatos,  poca? Balancei 
a cabea, concordando com Henrique, ainda incapaz de falar. Depois, limpei o rosto e respirei fundo, procurando readquirir o controle das emoes. Mais equilibrado, 
afirmei:
- No se preocupe comigo. J estou bem. Afinal, tudo o que aprendemos tem de servir para alguma coisa, no  verdade?
- Sem dvida. E voc, Paulo, tem todas as condies para vencer. Estes anos de vivncia e aprendizado aqui na espiritualidade lhe deram o suporte imprescindvel. 
Agora, vamos. Faltam poucos minutos para o incio da nossa reunio.
Dirigimo-nos  sala, onde todos da esfera material j se encontravam reunidos, em silncio, buscando as ligaes com a nossa esfera. A equipe espiritual, cada qual 
em seu posto, auxiliando os irmos encarnados. No horrio determinado, o dirigente encarnado deu incio  reunio com uma prece, rogando o amparo divino, e as atividades 
passaram a transcorrer normalmente. Aps as leituras de praxe para preparar o ambiente, passou-se  fase de intercmbio medinico. As entidades comunicantes foram 
se sucedendo, e auxiliadas cada uma a seu turno. Em determinado momento, Henrique aproximou o religioso de uma mdium, o qual, acoplando-se  senhora, se ps a falar. 
Irritado, nervoso, mostrava grande agitao, que era transmitida fielmente por ela. Bradava, chorava, demonstrando enorme desespero. 
- No basta tudo o que j passei? Por que ele faz isso comigo? No v como estou sofrendo? No chega a humilhao e o remorso que tenho enfrentado? Agora, fica a, 
anotando, anotando. Precisa ficar escrevendo e expondo minha vida? O que ele pretende? Expor-me aos olhos de todos para ser julgado? Nesse instante, percebi a quem 
se referia. Aquele "ele" era eu! Eu, que estava enviando um livro por meio da psicografia, e que fizera questo de iniciar a obra falando sobre minha vida, meus 
problemas, desejando realmente que todos soubessem do meu drama, que era ignorado por meus pais e por todos os que conviveram comigo. Sim, era verdade! Eu queria 
expor o criminoso aos olhos do mundo. No pretendia nome-lo, mas iria assinar o livro colocando meu nome e sobrenome, desejando que meus pais, catlicos ortodoxos, 
algum dia viessem a tomar conhecimento do que eu tinha sofrido em vida, e que eles ignoravam. Queria tornar pblica, sim, a minha experincia, alertar meus pais 
e todos os outros para que tomassem mais cuidado com seus filhos; que no os entregassem aos cuidados de pessoas que no conheciam devidamente e nas quais no podiam 
confiar. Nesse momento, uma senhora do grupo captou o meu pensamento e, compreendendo a situao, afirmou:
- Sinto que esse caso tem a ver com um livro que a Clia est recebendo.
Ao ouvir essas palavras, a mdium de que me sirvo percebeu o que estava acontecendo na espiritualidade. Como sabia que o comunicante era um sacerdote, imediatamente 
lembrou-se da obra que estou a escrever por seu intermdio, vinculando a comunicao  histria que inicia o livro e relata minha experincia de vida. Com serenidade, 
ela dirigiu-se ao inconformado esprito:
- Meu irmo, no se preocupe. Acalme-se. Ningum deseja prejudic-lo. O seu nome no ser citado, fique tranqilo.
No auge do desespero e da indignao, ele gritou: 
- E precisa? E precisa? O nome dele  suficiente! No percebem? Ao ver-lhe o nome no livro, todos na nossa cidade sabero que se refere  minha pessoa! Por qu? 
Por qu? J no basta o que tenho sofrido?
E ele continuou falando, expondo o seu sofrimento, as torturas por que tinha passado durante esse perodo no Alm-tmulo, enquanto o doutrinador dialogava com ele, 
lembrando-lhe a necessidade de buscar Jesus por meio da orao, de modo a obter uma vida nova, ao mesmo tempo que lhe acenava com o socorro que lhe seria prestado 
no hospital da espiritualidade. Aos poucos, o religioso foi serenando, auxiliado pelas vibraes amorveis do ambiente com o apoio de todos os integrantes do grupo, 
condodos da sua situao e do seu desespero. Ele acabou por adormecer, e deixou o recinto numa maca, amparado por servidores do bem. Eu estava pasmo. Nesse momento, 
me dei conta de que s pensara em mim, em meus prprios problemas, traumas e sofrimentos. No me dei conta de que poderia prejudicar outras pessoas. Que, desejando 
expor fatos que se passaram comigo havia tantos anos, atingia emocionalmente algum que tambm estava sofrendo. A verdade  que eu no fazia idia de que ele sofresse 
tanto. Como disse no incio do livro, nunca mais tivera contato com esse sacerdote, nem tinha idia de onde ele poderia estar. Em nossas reunies na espiritualidade, 
tnhamos tocado no assunto algumas vezes, como teraputica de ajuda e anlise das emoes, mas os orientadores sempre disseram que tudo aconteceria na hora certa 
e que eu no me preocupasse por antecipao. Ento, o momento havia chegado!


CAPTULO 32 - LIBERTAO

"Perdoar aos inimigos  pedir perdo para si mesmo. Perdoar aos amigos  dar-lhes uma prova de amizade. Perdoar as ofensas  mostrar que se tornou melhor do que 
se era antes."  (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 10, ITEM 15)

A atividade medinica terminou e nem me dei conta. Permaneci entregue a mim mesmo, pensando nos novos fatos. Os demais companheiros se aproximaram cercando-me com 
carinho, em silncio; notei que eles estavam cientes das ocorrncias. Henrique envolveu-me os ombros com o brao.
- Como est, Paulo?
Sem responder diretamente  sua pergunta, levantei para ele os olhos midos: 
- No sabia que "ele" estava sofrendo tanto, Henrique. Lamento profundamente tudo isso, o fato de escrever sobre o passado...
Estvamos numa sala, no prprio ambiente terreno, utilizada para fazermos uma reavaliao das atividades, aps as reunies. Os demais foram se acomodando em silncio, 
enquanto Henrique considerava:
- No lamente, Paulo. Tudo tem uma razo de ser. O fato de escrever sobre o tema possibilitou-nos ajudar a voc e tambm ao seu desafeto, o antigo confessor.
- J era tempo, meu amigo. Voc precisava enfrentar "seus fantasmas". O alvio ser muito grande, acredite - afirmou Csar Augusto, que estava a meu lado.
Reconhecia-me bastante reconfortado com as emanaes de carinho que vinham dos companheiros. No fundo, porm, sentia-me envergonhado, embora ningum me acusasse, 
e externei meus sentimentos:
- Agradeo-lhes o apoio e a compreenso diante das minhas dificuldades. No entanto, no posso deixar de lamentar o vexame pelo qual estou passando. Refletindo com 
tranqilidade, depois de tudo o que estudamos, aprendemos e vivenciamos aqui no Alm, julgo inconcebvel que eu ainda d vazo aos pensamentos e sentimentos que 
experimentei nessas ltimas horas. Julgava-me superior a tudo isso. Acreditava piamente que no mais conservava mgoa pelo que me fizeram, compreendendo que todos 
ns estamos sujeitos a erros e acertos.
Parei de falar por alguns momentos, fitando a cada um dos companheiros da equipe que ali estavam preocupados comigo, e conclu:
- Chego  dolorosa constatao de que, depois de todos esses anos, ainda no mudei intimamente.
Os amigos sorriram trocando um olhar de cumplicidade e entendimento.- E no  exatamente esse o sentimento que nos domina a todos? - considerou Eduardo, externando 
o pensamento dos demais. O processo evolutivo no  rpido nem fcil, meu amigo, voc sabe disso. E cada um, a seu tempo,  levado a enfrentar o passado. Henrique 
concordou, considerando com seriedade:
- Paulo, veja o meu caso! Tenho maior tempo de vivncia aqui na espiritualidade do que vocs. Contudo, acredita voc que estou livre de enfrentar o pretrito? No, 
meu amigo! A misericrdia de Deus  to grande que nos manda as contas parceladas, porque no teramos condies de enfrentar nossos dbitos em bloco, na totalidade. 
E o Pai, certamente, manda os menores problemas em primeiro lugar, para nos preparar o ntimo e amadurecer na trajetria, testando nossa capacidade de resoluo. 
Se conseguirmos reparar esses erros menores, aos poucos nos mandar outros, proporcionalmente maiores e mais complexos. E assim que funciona a misericrdia divina.
Concordei com um gesto de cabea. Depois, indaguei:
- E agora? Terei foras para procur-lo, conversar com ele? Sim, porque sei que  isso o que tenho de fazer.
- Vamos devagar. Tudo a seu tempo, Paulo. Hoje voc o enfrentou pela vez primeira. Relaxe. Tranqilize-se. Digira o encontro e reflita sobre essa ocorrncia. Quando 
estiver em condies, sentir espontaneamente o desejo de procur-lo, conversar com ele. Agora, deve repousar, agradecendo a Jesus a oportunidade de aprendizado 
que lhe proporcionou nesta noite.
Eu sabia que Henrique tinha razo. Nas horas que se seguiram, a ss, refleti bastante e supliquei o amparo do Mestre para meu corao atormentado. No ignorava que 
precisava perdoar, sentia que o esquecimento daquilo que considerava um crime era fundamental para minha paz de esprito e bem-estar futuro. Estava consciente do 
mal que a mgoa e o ressentimento causam naquele que o sente. Sim, estava convencido de que precisava perdoar. No apenas esconder, jogar para os pores escuros 
da mente, mas perdoar de forma profunda e verdadeira. E isso s aconteceria se conseguisse digerir o fato que tanto dano tinha me causado e, por conseqncia, compreender 
que as imperfeies so etapas de aprendizado teis e imprescindveis ao progresso do esprito. Durante muitas horas orei, dando o melhor de mim, buscando em pensamento 
as esferas superiores da vida, de modo a encontrar foras e vencer a mim mesmo. Afinal, adormeci, exausto. Vi-me em um lugar estranho, onde se realizava um banquete. 
O burburinho era grande; sons de vozes e risadas misturavam-se ao tinir dos metais. No imenso salo, belo e suntuoso, as paredes e o piso eram de mrmore; guirlandas 
de flores contornavam as colunatas, produzindo lindo efeito decorativo, enquanto de trips colocados em pontos estratgicos ervas odorferas queimavam, perfumando 
o ambiente e misturando-se aos odores das iguarias e dos vinhos capitosos. Chegou o momento em que os participantes, j completamente embriagados, iniciavam uma 
orgia. A poca, a depravao dos costumes era grande e todos se comportavam de forma lasciva. A certa altura, quando a noite avanava pela madrugada, para aumentar 
ainda mais as sensaes dos convidados, j amodorrados pela comida e pela bebida, foram trazidos vrios garotos, que entraram no salo apavorados e trmulos, chorando 
e se apoiando uns nos outros. As cenas que presenciei, ento, so terrveis, no me cabendo descrev-las, para no criar imagens negativas na mente de ningum. S 
posso afirmar, com profundo asco, que eu fazia parte daquele banquete. Reconheci-me num daqueles convidados, bbados e debochados, que abusaram de crianas indefesas. 
Acordei assustado, banhado em suor lgido. As cenas no me saam da memria. Chorei. Chorei muito. Compreendi que a divina misericrdia atendera s minhas splicas, 
socorrendo-me. Permitira-me ver uma rstia do passado, mostrando-me que a ningum  lcito julgar o semelhante. Que a colheita  sempre proporcional  sementeira. 
Na manh seguinte, logo cedo, dirigi-me ao local onde se encontrava albergado meu antigo confessor. Entrei na enfermaria e lentamente caminhei pelos leitos, at 
que o avistei. Estava deitado, de olhos cerrados, testa franzida e fisionomia atormentada. Aproximei-me. Sabia que ele estava acordado. Parei ao lado do leito, sem 
dizer nada. Sentindo a presena de algum, ele virou-se lentamente. Quando me viu, de p, se assustou e seus olhos se arregalaram. Depois, o instinto de defesa o 
fez reagir; preparava-se para recriminar-me, provavelmente jogar-me no rosto tudo aquilo que j dissera na reunio, quando o interrompi com um gesto amigvel. 
- Como vai, meu irmo? 
Fitou-me sem responder. Esperava tudo, menos que eu o chamasse de "irmo". A princpio, ele ficou alguns segundos calado, examinando-me. Ao perceber que no havia 
ironia, que minha atitude era de paz, sua fisionomia foi serenando aos poucos. Afinal, murmurou:
- Voc... No me odeia? O que faz aqui?
- Vim visit-lo. Saber como est.
- Voc me odeia. No deseja acusar-me? Destruir-me? - questionou-me, de testa franzida.
- No, meu irmo. No tenho a inteno de acus-lo ou destru-lo. Por muito tempo, confesso-lhe, conservei mgoa em meu corao. Porm, no agora; no mais.
De seus olhos azuis o pranto jorrou, abundante.
- Voc me perdoa o mal que lhe fiz?
Pensei um pouco e respondi consciente de que estava sendo verdadeiro:
- Meu irmo, eu compreendo hoje que no temos o direito de julgar ningum. Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado, foi a lio de Jesus aos acusadores 
da mulher adltera, legando  posteridade um dos mais belos ensinamentos evanglicos. Todos ns somos imperfeitos e j erramos muito, precisando extirpar de nosso 
ntimo as mazelas que ainda conservamos. No nos cabe, portanto, o direito de apontar erros. Tudo o que fazemos de negativo redunda em nosso prprio prejuzo. Ele 
fechou os olhos, respirou fundo e disse, mais tranqilo:
- H quanto tempo no escutava palavras to consoladoras! Tenho sofrido muito, Paulo. As vtimas me perseguem e a prpria conscincia no me permite ter paz. Voc 
no conhece a imensido dos meus erros. Na existncia terrena fiz muito mal aos outros e a mim mesmo. Cometi muitos crimes e me afundei na degradao e nos vcios. 
O remorso faz com que eu viva num inferno permanente. Ah! To diferente do Cu que eu esperava encontrar, segundo a promessa de meus direitos como servo do Cristo! 
Fitei-o, penalizado, depois considerei:
- Padre, o Cu  local reservado para aqueles que cumprem as leis do Senhor da Vida. O fato de ser sacerdote no lhe daria direito a uma posio de relevo aps a 
morte do corpo fsico. Seu problema  que lhe informaram que o Evangelho de Jesus era para ser ensinado e no vivido, quando o Mestre disse que o reino de Deus est 
dentro de ns.
Humildemente, ele respondeu:
- Agora compreendo essa verdade. No fundo, conhecer a Bblia no significa mudana interior, no ?
- Exato, meu amigo. As lies evanglicas so luzes para nos iluminar por dentro, extirpando as trevas existentes em ns. Certamente, seus superiores erraram, seguindo 
a tradio da Igreja, ao no lhe passar a necessidade da vivncia dos postulados cristos. Todavia, uma parte da responsabilidade lhe cabe, pois a conscincia, onde 
esto nossas conquistas atravs do tempo, nos mostra como devemos agir.
- Tem razo. Como estudioso do Novo Testamento, por que no percebi essa verdade que salta aos olhos? Como ele permanecesse alguns instantes pensativo, preocupado, 
procurei mudar o tom da conversa:
- Mas no se aflija demasiadamente, padre. O Pai sempre tem muito a nos conceder.
Aqui, ter oportunidades de aprender, de entender a mecnica das leis divinas e tambm de reparar os erros cometidos. H tempo para tudo.
Ele sorriu mais confiante. Senti que estava emocionado.
- Voc  bom, Paulo. Ouvi-lo chamar-me de amigo fez-me enorme bem. No me deixe sozinho.
- Engana-se, padre. No sou bom. Sou apenas algum que tambm tem problemas, mas que se esfora por aprender alguma coisa do lado de c da vida. No o deixarei sozinho. 
Pode contar comigo. Temos muito que conversar. Virei v-lo sempre que me for possvel. Agora, repouse. Fique com Deus.
Lanando-me um olhar mido e agradecido, ele murmurou:
- Obrigado. Esperarei sua visita.
Afastei-me do leito e caminhei pela enfermaria, sentindo-me muito leve.
Ao sair do hospital, contemplei o belo sol que iluminava o jardim e sorri para mim mesmo, grato a Jesus pela bno daquela hora.
Tive vontade de contar ao padre o que descobrira sobre o meu passado, para que se sentisse menos culpado, mas achei que no era o momento. Voltaria a procur-lo 
e no faltariam, mais tarde, oportunidades para isso. Entendi, finalmente, por que o perdo transforma as pessoas, liberando-as do sofrimento, da inconformao, 
da mgoa. Sentia como se densas nuvens escuras sassem de dentro de meu corpo espiritual, tornando-me mais leve e mais luminoso. Nada h no mundo que possa se comparar 
ao sentimento de paz, de harmonia e de bem-estar que envolve aquele que conseguiu perdoar, liberando-se de resqucios do passado. Lembrei-me de uma mensagem do apstolo 
Paulo, recebida na cidade de Lyon, em 1861, e inserida em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cujo texto tem uma frase que sempre me tocou o corao e que agora se 
mostrava de grande verdade: "Perdoar aos inimigos  pedir perdo para si mesmo. Perdoar aos amigos  dar-lhes uma prova de amizade. Perdoar as ofensas  mostrar 
que se tornou melhor do que se era antes". O corao enchia-se de paz e amor. Sim, conceder o perdo ao inimigo  pedir perdo para si mesmo,  libertar-se de elos 
de dio que nos acorrentam ao solo.Intima convico afirmava-me que minha vida na espiritualidade seria bem diferente depois daquele dia. Sentia-me pronto para mais 
altos vos da alma, rumo s moradas celestes.


CONCLUSO

"Tendo-lhe feito os fariseus esta pergunta: Quando vir o Reino de Deus? Respondendo-lhe Jesus, disse: O Reino de Deus no vir com mostras algumas exteriores; nem 
diro: Ei-lo aqui ou ei-lo acol. Porque eis aqui est o Reino de Deus dentro de vs."  
(LUCAS, 17: 20 E 21)

Diante da imensido dos problemas que observamos todos os dias em contato com as pessoas, nos veio o desejo de relatar esses dramas, tornando-os pblicos, de modo 
que os irmos ainda na carne possam beneficiar-se das lies de vida que deles extramos. Interagindo com encarnados e desencarnados, percebemos que os problemas 
atingem a uns e outros, indistintamente, causando sofrimento e dor. Na ao, porm, que nos compete, temos visto tristeza se transformar em alegria, sofrimento em 
consolo, desespero em esperana. Para isso, basta que saibamos entender que os problemas que nos so apresentados exigindo uma soluo so oportunidades de aprendizado 
e crescimento, na ntima anlise da razo dos obstculos que surgem e o que a vida quer nos ensinar com isso. De modo geral, ao refletir na dificuldade que nos aflige 
mais profundamente, com iseno de nimo e sinceridade de intenes, no real desejo de encontrar a soluo, a resposta brota de nosso interior com clareza e tranqilidade. 
Basta que saibamos olhar para dentro de ns, sem medos, sem mscaras e sem justificativas, procurando analisar nosso comportamento, a situao de outros envolvidos 
na questo, e nos colocando no lugar deles. Quando deixamos de pensar de forma egosta - enxergando apenas a ns mesmos - e passamos a pensar no problema dos outros, 
reconhecendo nossa parcela de responsabilidade no acontecido, aceitamos o processo doloroso como etapa necessria de reparao, entendendo a dinmica da Lei Divina 
que, atravs da vida, nos impulsiona para o aprendizado; passamos, ento, a colaborar com as situaes que surgem, transformando-as a nosso favor pelas aes direcionadas 
para o bem de todos. Seja qual for o erro que tenhamos cometido ou o problema que nos surja, sempre despontar oportunidade de reparao. Nada h que seja definitivo 
sob as bnos do Criador. A Doutrina Esprita nos esclarece que tudo o que semeamos ontem reaparece hoje como colheita obrigatria. Todos ns, como espritos imperfeitos 
em processo evolutivo, por meio de mltiplas existncias, temos nos cercado de amigos e inimigos, conseguido vitrias e fracassos, virtudes e defeitos. Conquistamos 
um acervo individual, pessoal e intransfervel, que permanece arquivado em camadas profundas da nossa memria integral. Desse modo, a vida atual tem tudo que ver 
com a individualidade que somos, isto , com o que pensamos, sentimos, desejamos e agimos. Quando o esprito renasce, Deus lhe deixa a voz da conscincia e as tendncias 
instintivas como balizas que serviro para norte-lo na nova existncia. Retira-lhe as lembranas do passado que poderiam ou prejudic-lo ou lev-lo a sentir-se 
em situao de vantagem diante daqueles que o prejudicaram, ou de humilhao perante aqueles que ele prejudicou. Assim, as situaes conflitantes que surgem tm 
que ver com a necessidade de reencontro com nossos desafetos, inimigos, adversrios, rivais, ou qual for o nome que se lhe d, e a conseqente reparao dos erros 
cometidos. Nada acontece por acaso. Ento, devemos estar atentos aos desafios que a vida nos apresenta para no perdermos a oportunidade que se apresenta a nosso 
benefcio. Diante dos dramas da nossa vida, dos erros cometidos, em relao aos quais somos algozes ou nos consideramos vtimas; diante de uma gravidez indesejada; 
de uma violncia na rua, no esporte ou no reduto domstico; da violncia social de grupos que agem e assustam a populao, da revoluo ou da guerra; diante da tentao 
de cometer uma eutansia, um aborto ou um homicdio; diante de uma agresso fsica, sexual, econmica, virtual ou de qualquer outro gnero; diante de uma obsesso 
grave, com a qual a maioria das pessoas se sente incapaz de lidar, e tantas coisas mais que ocorrem no dia-a-dia, devemos lembrar que tudo tem uma razo de ser. 
Muitos problemas ou obstculos surgem como conseqncias de nosso comportamento como pessoa, da maneira como tratamos os demais, de como falamos, das expresses 
que usamos, das atitudes que tomamos, no lar, no trabalho profissional, numa reunio social, na escola, no trnsito, na rua. Se agimos mal, tratando com indelicadeza 
especialmente subordinados ou aqueles que estejam sob nossa guarda, se no exercitamos a compreenso e a tolerncia, podemos estar gerando antipatias que, dependendo 
do grau de insatisfao que criem no outro e da personalidade do descontente - mais pacfica ou mais rancorosa -, provavelmente traro para ns mesmos problemas 
graves que podero redundar at num crime, conforme a intensidade do ressentimento do ofendido. Por essa razo, as lies evanglicas so to importantes em nossa 
vida, norteando-nos para o perdo, a pacincia, a tolerncia, a compreenso, a mansuetude, enfim, para o amor. Tratando as outras pessoas como desejamos ser tratados, 
colocando-nos no lugar do outro para saber o que ele est sentindo, viveremos bem melhor, gerando um grau de satisfao muito maior para todos, a comear por ns 
mesmos. Quando os problemas que despontam so resistentes aos nossos esforos para san-los e que persistem no nos dando trguas, entendamos que so aqueles que 
iro requerer maior pacincia e de compreenso de nossa parte. A resignao diante daquilo que no podemos mudar nunca deve ser passiva, mas caracterizar uma aceitao 
ativa, isto , devemos nos esforar para vencer os obstculos com todos os meios de que dispomos. Se a questo diz respeito a uma enfermidade grave, buscar todos 
os recursos possveis para reverter o problema, mesmo que no possa ser sanado de todo. Diante das dificuldades que surgem independentes da nossa vontade - e que 
muitas vezes entram por nossa casa como um furaco, levando a destruio e a dor, a perplexidade e o sofrimento -, manter inaltervel a confiana em Deus, que nunca 
nos desampara. No raro, so situaes por que temos de passar e para as quais a vida se utiliza de pessoas como instrumentos da vontade divina. "Ai do mundo por 
causa dos escndalos; porque  inevitvel que venham escndalos, mas ai do homem pelo qual vem o escndalo", disse Jesus, nos acautelando sobre tudo o que pode levar 
o homem  queda. No podemos perder de vista que Jesus falava a homens de um mundo de expiaes e de provas, em que a predominncia do mal e da ignorncia era uma 
realidade. No foi Deus quem criou o sofrimento e a dor, mas as criaturas humanas ao se afastarem das leis divinas. Sofrem, por isso, as conseqncias de seus atos 
e dos seus vcios, at que se cansem do mal, pelos efeitos que experimentam, ou aprendam a fazer o bem, de cujos benefcios usufruiro intensamente. O grau de inferioridade 
de um esprito  sempre proporcional ao mal que ele pratica. Na obra da criao, nada  intil e assim o mal pune o mal e, em contrapartida, ajuda a promover o bem. 
Cada criatura traz em si dois objetivos fundamentais: deve agir a benefcio de sua prpria evoluo e, ao mesmo tempo, colaborar para o progresso da sociedade na 
qual est inserido. E assim que do mal se pode extrair o bem, visto que a criatura que praticou o mal e experimentou em si as conseqncias desse mal, isto , o 
choque de retorno pela ao da Lei de Causa e Efeito, evitar igual atitude, tornando-se mais malevel e propenso a realizar o bem no futuro. Mais adiante, Jesus 
recomenda: "Se a vossa mo ou o vosso p  objeto de escndalo, cortai-os e lanai-os longe de vs; melhor ser para vs que entreis na vida tendo um s p ou uma 
s mo, do que terdes dois e serdes lanados no fogo eterno. Se o vosso olho vos  objeto de escndalo, arrancai-o e lanai-o longe de vs; melhor para vs ser 
que entreis na vida tendo um s olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno". Por certo, o Mestre no deseja que saiamos cortando mos e ps, 
ou arrancando olhos, tornando-nos uma sociedade de deficientes fsicos. Suas palavras representam apenas imagens de colorido vibrante para gravar suas lies com 
tintas indelveis na mente daqueles que o ouvem, fazendo-as repercutir nas fibras mais profundas, para que as pessoas entendam a necessidade de extirpar de si toda 
causa de mal, isto , de no manter vcios, nem guardar no corao sentimentos impuros, nem defeitos de qualquer ordem. Mostra-nos Jesus, por meio dessas imagens 
fortes, as conseqncias que adviro atravs das vidas sucessivas, se no destruirmos em ns o mal que ainda carregamos no ntimo. Por isso nos diz que  melhor 
entrarmos na vida tendo uma s mo, um s p ou um s olho, do que termos dois e sermos atirados ao fogo do inferno, isto , de nos comprometermos com a Lei Divina 
e sofrermos as conseqncias do nosso comportamento negativo. Cristo deixa claro que, sempre que reencarnamos com deficincias  porque estamos colhendo hoje o que 
semeamos no passado. Dessa forma, diante do sofrimento que nos advm, seja ele fsico ou moral, mantenhamos a irrestrita confiana em Deus, sabendo que estamos recebendo 
o remdio que ir produzir a cura. A sociedade terrena sonha transformar a Terra em um mundo de paz e de harmonia, onde no existam mais dios, guerras, doenas, 
fome, ignorncia, misria; onde todos os seus habitantes possam conviver como irmos, unidos por laos de fraternidade e solidariedade, sendo pacficos, indulgentes, 
benevolentes e amorosos entre si. Esse sonho s se tornar realidade quando extirparmos de nosso corao o egosmo, o orgulho e a ambio (esta ltima, descende 
dos dois primeiros), e que constituem nossas maiores chagas. Quando isso acontecer, no haver mais dios, ressentimentos ou desejos de vingana; no haver mais 
ambio desmedida que leva o ser humano a apropriar-se do que pertence a seu irmo; no haver mais fome e misria, pois o que sobrar da mesa de um abastado reverter 
em benefcio de outro que tem menos; no haver mais enfermidades, pois os recursos sero utilizados em saneamento bsico, em atendimento mdico, em hospitais para 
socorro  populao e, especialmente, quando a educao for uma conquista de todos, a ignorncia deixar de existir. As conquistas iro muito mais alm. Livre do 
egosmo e do orgulho, ter o esprito conquistado nobres valores morais, o que far com que se ilumine, libertando o ser humano de vibraes pesadas e nocivas que 
lhe facilitavam as doenas psicossomticas. O perisprito, menos denso, lhe proporcionar maior nvel de elevao, com a conseqente sensao de bem-estar e harmonia. 
Nessa fase, o homem ter suas potencialidades mais desenvolvidas, sua viso ampliada e pensar no prximo antes que em si prprio. Desse modo, viver o bem, exercitando-o 
em todos os momentos. E a felicidade, sonho a que todos aspiramos, estar ao alcance de nossas mos, pois ser uma conquista do ser imortal, vivendo em plenitude. 
Ser em vo procurar a felicidade em coisas exteriores, em valores materiais, em poder, notoriedade, glria ou nos prazeres da carne, buscando a satisfao dos sentidos 
e afundando-se nos vcios. No. A felicidade, fugidia e tnue,  diferente para cada um. Preocupado com o assunto, Allan Kardec questionou: "'A felicidade terrena 
 relativa  posio de cada um; o que basta a felicidade de um faz a infelicidade de outro. Existe, entretanto, uma medida de felicidade comum a todos os homens?" 
E os espritos responderam; "Para a vida material,  aposse do necessrio; para a vida moral, a pureza da conscincia e a f no futuro". Realmente, aqui na Terra, 
o homem s ser verdadeiramente infeliz se no tiver condies de sobrevivncia. Assim, a posse do necessrio lhe permitir viver com relativa tranqilidade, desde 
que no deseje o suprfluo, o que o levar a sofrer inutilmente. Com respeito  vida moral, a paz de uma conscincia tranqila  bno que no sabemos valorizar 
devidamente. Poder colocar a cabea no travesseiro e adormecer serenamente, em paz,  algo que muita gente no logra. Quanto  f no futuro,  sem dvida essencial 
para nos sentirmos bem. Ter conscincia de que a morte no existe, e que preexistimos ao corpo material e sobreviveremos a ele, d ao ser humano uma viso ampla 
e csmica a respeito de Deus e da Criao. Faz com que entendamos a beleza das vidas sucessivas e da comunicao existente entre os planos fsico e espiritual, que 
interagem. Leva-nos a aceitar melhor os problemas, os obstculos, os sofrimentos e as dores que surgem em nosso trajeto, e a compreender que estamos recebendo hoje 
o que plantamos ontem, como oportunidade de aprendizado, de reparao e de amadurecimento espiritual, na execuo da Lei de Causa e Efeito. Resignados, aceitaremos 
melhor as pedras do caminho, ultrapassando-as ou contornando-as  medida que surjam. E a benevolncia far com que tratemos a todos como irmos, exemplificando-a 
com a indulgncia para com as imperfeies alheias, entendendo a grandeza do perdo das ofensas pela tolerncia, pela pacincia e pela compreenso para com todas 
as pessoas que fazem parte da nossa vida, conforme Cristo ensinou. A grandeza de Deus, sua misericrdia e seu amor por todos ns, seus filhos, se patentearo diante 
de nossos olhos, pois, sempre ao lado de um problema ou de uma desgraa, Ele coloca uma consolao e os meios de vencermos as dificuldades. Entenderemos assim, analisando 
nossa existncia, que sempre, mesmo nas maiores dificuldades, recebemos o sustentculo por intermdio de amigos generosos, desta e da outra vida, de criaturas que 
nos amam e nos amparam com seu amor e sua presena - seja um familiar querido, um amigo, seja um companheiro, um irmo. No h quem no receba fortalecimento atravs 
do amor, da amizade, do companheirismo. E, do Alm, seres muito amados, muitos dos quais conhecidos de outras existncias e dos quais no nos lembramos na atualidade, 
torcem por ns, dando-nos amparo moral, conforto espiritual, sustentao nas horas de dificuldade, orientaes e sugestes, assistindo-nos nas vicissitudes da vida 
e alegrando-se com nossas vitrias. Graas a esses generosos amigos e benfeitores, temos mais facilidade para enfrentar os problemas, as situaes e os obstculos, 
e mais coragem para vencer a ns mesmos, buscando o aprimoramento moral. E a entenderemos mais claramente as palavras de Jesus quando afirmou: "O reino de Deus 
est dentro de vs". Ao terminar a leitura deste livro, talvez voc tenha ficado com algumas dvidas e perguntas a fazer, o que  um bom sinal. Sinal de que est 
em busca de explicaes para a vida. Todas as respostas que voc precisa esto nas Obras Bsicas de Allan Kardec. Se voc gostou deste livro, o que acha de fazer 
com que outras pessoas venham a conhec-lo tambm? Poderia coment-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a algum que talvez esteja precisando ou 
at mesmo emprestar quele que no tem condies de compr-lo. O importante  a divulgao da boa leitura, principalmente a da literatura esprita. Entre nessa corrente!



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